25/01/2016

A capital ou o retiro

Depois de dez meses na terra dos canaviais, saiu a remoção para a capital. 
A menina repete sempre os mesmos erros. Quando criança queria ter nascido noutra família, quando adolescente refugiava-se por horas e até dias  em casas de amigas, jovem adulta acampava na casa do namorado, arrefecia o relacionamento com a pressão desesperada para casar  -para ter finalmente um lar para chamar de seu. Por que então menina acaba sempre voltando para a casa da mãe?
Nove meses de volta à casa. 
Nunca se entendeu com a mãe. Depois da ruína na vida pessoal, desenvolvera a teoria de que teria de se reconciliar com tudo e com todos para que a própria vida pudesse dar certo.
Nunca nem mesmo se matriculou numa pós graduação, mas fez uma pré matrícula on line que nunca se concretizou, porque viajou e perdeu a data de pagamento. Além disso, a secretaria da faculdade era longe e tinha horários de funcionamentos incompátiveis.
Malhou reliogiosamente durante um tempo, mas desanimou da academia top, onde todo mundo se exibe e ninguém faz amizade. Mas abandonou mesmo a malhação devido à decepção com a professora da aula de ginástica localizada para o bumbum que invés de mudar o plano de exercício para queimar as últimas gorduras que teimam em permanecer na menina, recomendou que essa pussesse silicone e aproveitasse para sugar numa lipo essas gordurinhas teimosas. Ex colega de escola que malha lá completa dizendo que a bunda da professora é de silicone. Porém o professor de spinning era muito bom.
Voltou em maio.
Em agosto viajou para assinar o divórcio, quis desistir da separação mas o ex foi inflexível e manipulador como sempre.
Nunca mais conheceu ninguém, teria passado essa era na castidade não fosse por dois eventuais encontros do Tinder.
Desistiu de rever o playboy turista sexual que jurou que teve sentimentos não sentidos há muito tempo, mas antes de vir ter com ela ia dar uma rapidinha em Malága.
Por que desistiu do playboy,  comunicou - se com o amigo dele estabelecendo a muito custo um relacionamento virtual.
Exceto por poucas idas ao shopping para gastar o vale cultura no cinema ou na livraria,  além de visitas às irmãs, menina jamais sai de casa.
A vida é um tédio. crises mensais. Pensamentos suicidas recorrentes, Vontade negativa de viver. Por isso, abandonará o emprego e vai embora de novo.

O vestido de crochê

Domingo, meados da manhã, sobrinha  chega radiante aqui de vestido de crochê rosa. Um vestido perfeito, que ainda assim aceitou de bom grado como complemento uma faixa de renda no cabelo.
- Que belíssima você está! Uma verdadeira flor! Sabia que eu também usava vestidos de crochê  quando era do seu tamanho? Sua avó os fazia para mim. Ela fazia também os sapatos de crochê na mesma cor.
- Mas tia, ele está grande!
- Pois venha aqui, que eu vou ajeitar.
Tentei dar um pontinho na alça dele mas a pequena não parava um segundo e tive medo de espetá-la. Pedi-lhe que o retirasse. A cobri com uma babylook minha que ficou enorme.  Irmã e cunhado se sentam à mesa para tomarem café da manhã com a mãe.
... Eu, que sempre faço questão de refeiçoes em família à mesa, ignoro o chamado da irmã para ir comer do pão de queijo que está quentinho.
Vestido na mão, tive a idéia de um botão que vai subindo carreiras enquanto ela cresce. Tive um vestido vermelho perfeito, devia ser parecido com esse. Se fotos houvessem. Não temos uma foto de minha infãncia. 
Naquela época em que eu usava vestidos vermelhos de crochê, eu era feliz. Acho que eu era muito feliz naquela época. Lembro-me de uma vez que mãe passou dias procurando a sola de um sapatinho para tecer um que combinasse perfeitamente com meu vestido. 
Acho que a mãe não encontrou a sola, e acho que esse sapato que não tive foi o último. Quer dizer, o anterior anterior a esse foi o último. Mas sinto como se esse sapatinho tivesse existido.