Como demorou a chegar, ela chegou com forca! Até mesmo se passando por verao: 28 graus semana passada.
Teme-se que se eles ainda vierem, a macieira perecerá e nao haverá macas e nem outras colheitas boas. Menina espera que passem a fim de poder finalmente plantar seu feijao, com graozinhos do tipo carioquinha trazidos com carinho para ela lá de terras gaúchas.
(O pacotinho chegou com uma linda mensagem: que a plantacao renda e o feijao sirva para alimentar o Filho de Menina forte e bonito).
Se ainda der conta, que está cada dia mais prostrada, vai plantar cada graozinho com tanto amor e esperanca... A primavera chegou e logo seu menino também vai dar as caras e acabar com essa agonia da gravidez.
Prostrada na cama há dias, dolorida no corpo e na alma, com incomodos diversos, Menina se alegra que a macieira esteja assim florida, porque o inverno finalmente acabou.
Da cama, enxerga os galhos mais altos da linda macieira no jardim. Resolve tirar uma foto para enviar à irma e à sogra dela, que ambas tem interesse também em pés de macas. Daí se lembra! Apesar de tudo, havia poesia naquela infancia descontente. Levanta e vai tomar um banho disposta a falar das flores.
Mae sempre teve plantas. Numa das férias, pegou galhinhos das plantas da mae e fez um pequeno cercado, definido como o seu jardim. Nao é que alguns desses galhos enraizaram e viraram mesmo as plantas de menina? Mae ficou encantada que a cria também tivesse dedo verde. Passou a incentivá-la. Trazia mudas de árvores frutíferas para as filhas e o filho plantar. Cada um deles tinha o próprio pé de amora e de goiaba e outros para cuidar.
Desejou por si mesma ter uma macieira. Pegou sementes de uma maca e enterrou à sombra do seu pé de amora, que era o mais bonito do quintal. Molhava todo dia o lugar onde deveria brotar a árvore da qual nao fazia idéia de como era.
-O que está aguando aí, Menina? Surpreendeu-a um dia a mae.
-Meu pé de maca! Enterrei bem aqui umas sementinhas.
Entre sorrisos de enternecida e encabulada, mae teve de a desanimar:
-Macieiras nao dao aqui nao, Menina. Elas gostam de frio.
Passou portanto a molhar com água gelada.
O Cerrado goiano segue quente e seco,nunca tendo Menina notícias de que macieiras sejam cultivadas por lá. Águas geladas de mais de 25 invernos já se passaram aqui no continente, onde hoje Menina tem nao um, mas cinco pés de macas, das quais nem se apetece, sonhando com mangas e goiabas e abacates nessa gravidez solitária e faminta.
