Mas esse esperar sem esperanca
Que dor!
Angústia infinita.
Passagem comprada.
Eis que me vou
embora
dessa terra estrangeira.
Queria era ficar.
Mas nao dá mais pra ficar.
E se?
E se me aparece um emprego antes do dia 17 de agosto?
Ah, se me oferecem um trabalho remunerado.
Eu ficaria
com que alegria...
Porque sem emprego nao fico mais. Há tres anos e meio que nao trabalho, até dezembro do ano passado, tinha bolsas de estudo. Desde entao, produzo mais nada. Nisso, com o desemprego do meu marido, comecaram os problemas financeiros. Na idéía dele e de muitos, eu deveria trabalhar de faxineira.
Abre parenteses: (Aqui, imigrante boa é imigrante que vem pra faxinar. Na limpeza, nao falta trabalho. Na área de informática também, e manicures e emfermeiras também tem chances.... Pra quem quer ser técnica em emfermagem, há curso gratuito e bolsa de manutencao. Mas eu nao consigo ser enfermeira: eu tenho horror de sangue, e eu nao consigo ficar perto de doentes, porque eu sofro com eles, me dói o coracao ve gente sofrendo e eu fico paralizada.) Fim do parenteses.
Nunca recebi um retorno das candidaturas a emprego, E olhe que até em supermercado como repositora/caixa eu me candidatei.
Assim, sem perspectiva de trabalho, me vou. Nao que queira ir, mas vou porque já nao dá mais pra ficar. Quando me vim pra essa terra estrangeira, o fiz porque estava com o coracao partido, desesperada pra encontrar o amor. Hoje, encontro-me muito mais desesperada do que antes: ser desempregada e sem perspectivas, dependente de marido, acuada pelas limitacoes da falta de dinheiro, os conflitos com o marido advindos dessa falta... Tudo isso me enlouqecem mais que o desamor. Por isso, me vou.
Oh, mas como eu queria fica nessa cidade linda que eu amo de coracao. Adoro tudo aqui. Mas há tempos que sao pouquissimos os dias em que saio para aproveitar tudo o que a cidade oferece, porque estou mal e/ou nao tenho o dinheiro.
E porque nao trabalho de faxineira? Primeiro, porque odeio limpeza: minha casa deixa a desejar, eu odeio limpar casa, como faria isso profissionalmente? Além disso, essa desqualificacao pessoal haveria de intensificar minhas crises existenciais, afinal, pra ser faxineira, eu nao precisaria ter me esforcado a vida inteira conciliando trabalho e estudos numa jornada louca de pobre que rala. Pra eu ser faxineria, minha mae nao precisaria ter passado roupa até dez da noite em casas alheia pra pagar meu cursinho prévestibular. Pra ser faxineira, eu poderia ter me casado aos 15 com o vizinho e "terminado" meus estudos na 5 série, como fizeram muitas das meninas de meu bairro. Nao, eu nao construir as estradas por onde queria passar pra voltar ao ponto null.
Alguém querida me lembrou que eu também tinha depressao antes de vir. Sim, eu tinha. Na verdade, essa doenca me acompanha desde meus 17 anos, com períodos intercalados em maior ou menor intensidade. Tomar essa decisao drástica num período de intensa depressao seria arriscado. Mas nao tomar nenhuma decisao agora, pode significar o fim de minnha vida. Porque sou torturada pela minha angústia, nao vejo saída. Nao quero ir e correr o risco de perder me amor. Mas pequenas grandes adversidades cotidianas aqui estao me asfixiando.