Fica sabendo que a sobrinha (dez anos, criada pela avó, e pela tia, quando essa mora com a mãe) jogou uma tesoura na amiguinha. Melhor amiga. Porque essa criticou as fotos da viagem ao litoral. Registros lindamente revelados num livro mais caro que as passagens aéreas. Foi a primeira vez que a sobrinha voou e a primeira vez que viu o mar.
Filho de peixe, peixinho é, diz a sabedoria popular: avó da menina sempre foi de arremessar coisas. Se chegasse em casa com a pá virada, jogava pratos e qualquer outra louça suja na menina e nos irmãos.
Um vez jogou a tesoura no filho. Pegou de raspão na barriga dele e fez um corte raso na altura do fígado. Menina ficou chocada e desde aquele dia teve certeza de que a mãe era louca.
O imão era louco também: vivia espancando menina, mais nova que ele. Uma vez trincou algumas costelas dela, o que a impediu de ir à aula porque não podia sentar-se. E a escola era tudo que a menina amava na vida. Nunca perdoou o irmão. Tão pouco a professora do pré alfabetizacção deve te-lo perdoado: porque em 30 anos de sala de aula - às vesperas da aposentadoria- deve ter sido a primeira vez que ela teve um aluno capaz de lhe dar um soco no estomago. Um muleque maltrapilho, anêmico e mirrado enfrentar uma professora enorme de gorda, tamanho e personalidade.
E a tia? Já jogou tesoura também? Tesoura não, mas já perdeu a conta de quantos celulares já destruiu arremessando-os no par que a irrita ou desaponta, em suas muitas crises de ciúmes ou de carência. Depois de muita terapia, parou de jogar coisas nos outros, mas joga nas paredes, quebra as portas do quarto e do guarda-roupa, esmurra a janela até ferir-se.
Onde quer que habite, paredes são riscadas e rasgadas por porta retratos, celulares, sapatos, livros, facas. Menina esfaqueia a parede quando tem impulso de se cortar. E martela móveis quando dos ímpetos de martelar a própria cabeça para aquietar as angústias monstruosas de auto-ódio e solidão.
Tadinha da sobrinha, compadece a tia dela, se aos dez anos já atira tesoura na amiguinha, vai ser o caso borderline mais grave da família. Menina chora. Menina tem feito tanto pela sobrinha. Quer poupá-la da doença mental-emocional que acomete a família. Mas como?
Diz a bíblia que as pragas e maldições duram até a quarta geração. Menina não acredita nem na bíblia nem em gnomos de jardins, (embora sinta espíritos obsessores ao seu redor: tais entidades são certamente partículas de sua própria essencia imaterial defragmentada, que o corpo petit não suporta).
Falando nisso, o gato, ah o gato a conhece. Nesses dias de defragmentação, ele a vê e sai correndo na velocidade da luz.
E a quantas gerações essas doenças se transmitem? Menina não sabe ainda se é genético ou se é adquirida. Quem nasce, cresce e vive numa casa louca, louco há de ser.
Menina especula se a doença se intensifica ou ameniza a cada geração. Avô alcolatra matou mulher recém parida. Mãe não é de beber, mas no natal abre um garrafão de cinco litros de vinho barato e o bebe em poucas horas, fica alegrinha, alegrinha. Depois chora pelo filho que morreu, pela filha menina louquinha, pela miséria material que sobreviveram, chora porque a odeiam.
E, quando nas discussoes, filhas lamentam da miséria emocional que foi ser criada por uma mãe atormentada, essa revida gritando; " Sim, que mãe horrível eu fui. Melhor era eu ter vivido de bar em bar, pouco me importanto se estivessem limpos e alimentados". Abster-se do alcool deve ter sido a suprema conquista da matriaca borderline.