29/05/2016

Noutra direção

Dorme mal.
Às vezes, nem dorme.
Pensa sempre na solidão.
Sente saudade de tudo.
Sente falta de tudo que não tem.
De tudo que teve e perdeu.
E,principalmente, saudade daquilo que devia lhe pertencer mas nunca nem existiu.
(pelo menos não no seu mundo).
Não se ama nem um pouco.
Na verdade, se odeia. 
Porque é uma fracassada.
Porque levou à destruição daquele casamento interessante.
Porque é uma neurótica.
Porque não fica contente com o que tem.
Porque está atormentando o namorado com suas infinitas neuroses.
Porque os outros são desorganizados.
Porque fica nervosa que os outros não mantenham a casa perfeitamente organizada.
É obcecada por ordem. 
Primeira coisa que faz quando levanta é arrumar a cama.
A cama é grande e vazia...

Segue noutra direção.
Ninguém a espera.
Em espiríto muitos a acompanham. 
Ou ela os persegue, Infinitamente. 
A mental stalker. 
Nunca consegue deixar.
Nunca abre mão daquilo que se foi.
Uma abstinencia colossal.
As misérias, as dores, as feridas, os insucessos, os erros, tudo se repete, se repete,se repete

28/05/2016

Arremeço

Fica sabendo que a sobrinha (dez anos, criada pela avó, e pela tia, quando essa mora com a mãe) jogou uma tesoura na amiguinha. Melhor amiga. Porque essa criticou as fotos da viagem ao litoral. Registros lindamente revelados num livro mais caro que as passagens aéreas. Foi a primeira vez que a sobrinha voou e a primeira vez que viu o mar.
Filho de peixe, peixinho é, diz a sabedoria popular: avó da menina sempre foi de arremessar coisas. Se chegasse em casa com a pá virada, jogava pratos e qualquer outra louça suja na menina e nos irmãos.
Um vez  jogou a tesoura no filho. Pegou de raspão na barriga dele e fez um corte raso na altura do fígado. Menina ficou chocada e desde aquele dia teve certeza de que a mãe era louca. 
O imão era louco também: vivia espancando menina, mais nova que ele. Uma vez trincou algumas costelas dela, o que a impediu de ir à aula porque não podia sentar-se. E a escola era tudo que a menina amava na vida. Nunca perdoou o irmão. Tão pouco a professora do pré alfabetizacção deve te-lo perdoado:  porque em 30 anos de sala de aula - às vesperas da aposentadoria- deve ter sido a primeira vez que ela teve um aluno capaz de lhe dar um soco no estomago. Um muleque maltrapilho, anêmico e mirrado enfrentar uma professora enorme de gorda, tamanho e personalidade.
E a tia? Já jogou tesoura também? Tesoura não, mas já perdeu a conta de quantos celulares já destruiu arremessando-os no par que a irrita ou desaponta, em suas muitas crises de ciúmes ou de carência. Depois de muita terapia, parou de jogar coisas nos outros, mas joga nas paredes, quebra as portas do quarto e do guarda-roupa, esmurra a janela até ferir-se.
Onde quer que habite, paredes são riscadas  e rasgadas por porta retratos, celulares, sapatos, livros, facas. Menina esfaqueia a parede quando tem impulso de se cortar. E martela móveis quando dos ímpetos de martelar a própria cabeça para aquietar as angústias monstruosas de auto-ódio e solidão.
Tadinha da sobrinha, compadece a tia dela, se aos dez anos já atira tesoura na amiguinha, vai ser o caso borderline mais grave da família. Menina chora. Menina tem feito tanto pela sobrinha. Quer poupá-la da doença mental-emocional que acomete a família. Mas como?
Diz a bíblia que as pragas e maldições duram até a quarta geração. Menina não acredita nem na bíblia nem em gnomos de jardins, (embora sinta espíritos obsessores ao seu redor: tais entidades são certamente partículas de sua própria essencia imaterial defragmentada, que o corpo petit não suporta).
Falando nisso, o gato, ah o gato a conhece. Nesses dias de defragmentação, ele a vê e sai correndo na velocidade  da luz.
E a quantas gerações essas doenças se transmitem? Menina não sabe ainda se é genético ou se é adquirida. Quem nasce, cresce e vive numa casa louca, louco  há de ser.
Menina especula se a doença se intensifica  ou ameniza a cada geração. Avô alcolatra matou mulher recém parida. Mãe não é de beber, mas no natal abre um garrafão de cinco litros de vinho barato e o bebe em poucas horas, fica alegrinha, alegrinha. Depois chora pelo filho que morreu, pela filha menina louquinha, pela miséria material que sobreviveram, chora porque a odeiam.
E, quando nas discussoes, filhas lamentam da miséria emocional que foi ser criada por uma mãe atormentada, essa revida gritando; " Sim, que mãe  horrível eu fui. Melhor era eu ter vivido de bar em bar, pouco me importanto se estivessem limpos e alimentados". Abster-se do alcool deve ter sido a suprema conquista da matriaca borderline.

27/05/2016

A criolina

Sabe da admirada característica de parecer mais nova. Algo muito valorizado por todos, principalmente por ser mulher. Mas não que seja bonita. Não, não é bonita.
Tem o rosto cheio de cicatrizes. Rosto de menina que trabalhou na lavoura de tomate daquela grande fábrica de ketchup, que tinha como garota propaganda aquela famosa apresentadora loura de pernas muito compridas e shortinhos muito curtos.
Tem espinhas até hoje, com quase quarenta. E a cada espinha, um novo pontinho preto seguido de poros abertos para sempre. Disputam espaço com vulcões faciais.
Mais tarde, trabalhou de agente de pesquisa e nunca tinha ouvido falar de protetor solar. Ou, se ouvira, entrou por um ouvido e saiu por outro. Coisas que não fazem parte da vida da pessoa, são filtradas. Se não tivesse passado pelo filtro da ignorância, menina teria usado chapéu ou boné mais protetor solar fator máximo. Ou não, o fator 30 teria bastado: especialistas dizem que acima desse fator é somente saturação. Não adianta colocar dez colheres de açúcar no café. Depois de algumas, ele vai ficar com fundo de saturamento. Os fatores a mais do FPS seriam perda de dinheiro e ilusão.
Um dia, entrou correndo pelo quintal da amiga. Na véspera, a mãe dela tinha colocado um novo arame farpado para estender roupas e o fio rasgou a cara de menina em vários pedacinhos. Depois de anos, as cicatrizes dos cortes ainda estão ali.
Além de ter trabalhado ao sol, nadava tardes inteiras no córrego bosteirinho da fazenda Caveirinhas.
Nessa fazenda, morriam-se pessoas e coisas de modo curioso. Certa vez, caiu um raio que partiu um enorme árvore em pedaços e matou três jovens trabalhadores rurais que estavam a caminho de casa no fim do dia. Desde esse dia, menina tem medo de raio.
Depois, vieram as vacas mortas. O gado começou a morrer misteriosamente naquela propriedade que delimitava o meio rural e a expansão urbana na capital. Diziam que eram os espíritos das pessoas assassinadas a mando do fazendeiro. No conflito da invasão das terras dele por uma multidão desesperada de miseráveis que não tinham onde morar na capital.
Maioria dessas pessoas depois conseguiu um lote quando o governador regularizou a vila com finalidade de expurgo social. Fruto do extremo exido rural no começo dos anos oitenta do século vinte, essa população deveria manter a cara feia de famigerados longe do lindo centro planejado e de seu passeio público no Lago das Rosas.
O bairro já era um dos mais populosos da capital naquela época. Muita gente passava fome. Na casa de menina não faltava arroz e feijao. Tinha couve e mandioca no quintal.
fonte: google https://www.google.com.br/search?q=puxar+agua+no+sari&espv=2&biw=1366&bih=637&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj2-8-Q0_vMAhWGDJAKHUqYCJcQ_AUIBigB#imgrc=RGywknkWpnkqkM%3A
Puxava-se água da cisterna no braço, que dinheiro para uma bomba somente muitos anos depois. De vez em quando, a mãe comprava um pintinho na feira e se ele 
comesse formiguinhas suficientes e fosse esperto o bastante para não ser roubado, ele um dia viraria frango na panela, o que muito doía na menina, que se apegava aos pintinhos como animais de criação.
Para agravar o sofrimento da filha, ela matava a ave por estrangulamento, pegava o bichinho pelo pescoço e o rodopiava no ar infinitas vezes. Menina chorava de dó.
- Sai, pra lá menina, se ficar com pena, a galinha não morre.
- Tadinho, mãe!
- Quero ver se vai ficar com dó na hora de comer.
E menina esquecia. Porque carne era bom. 
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
O povo, entrementes, inclusive a menina e seus irmãos, foi correndo lá com carrinhos de pedreiros.  Acotuvelavam-se e se empurravam na tentativa de arrancar um narco daquela fartura para si. Aquela fartura que não servia nem para urubus.
- Mas mãe, a Dona Zefa falou que essa carne aí não presta, que tem um treco aí na vaca.
- Eu lavei com vinagre e bicabornato de sódio e marinei com bastante limão a noite toda. Depois, fritei muito bem. Pode comer, se quiser.

O que não mata, fortalece. Diz o ditado. Até hoje menina não sabe para que jogaram criolina na carne. Tantos anos depois, ainda não sabe.
- Mãe, para que jogaram criolina naquela carne?
- Você está se lembrando disso para que, menina?
- Porque eu sempre me lembro, mãe. Lembro-me de que comemos uma carne imprópria até para os abutres.
Até hoje menina não sabe para que serve a criolina. Nem vai ao Google descobrir. Pode ser que servia para evitar a decomposição. Estará ainda hoje atuando em seu corpinho, agindo como mais um de seus anti-idade?




A criolina

Sabe da admirada característica de parecer mais nova. Algo muito valorizado por todos, principalmente por ser mulher. Mas não que seja bonita. Não, não é bonita.
Tem o rosto cheio de cicatrizes. Rosto de menina que trabalhou na lavoura de tomate daquela grande fábrica de ketchup, que tinha como garota propaganda aquela famosa apresentadora loura de pernas muito compridas e shortinhos muito curtos.
Tem espinhas até hoje, com quase quarenta. E a cada espinha, um novo pontinho preto seguido de poros abertos para sempre. Disputam espaço com vulcões faciais.
Mais tarde, trabalhou de agente de pesquisa e nunca tinha ouvido falar de protetor solar. Ou, se ouvira, entrou por um ouvido e saiu por outro. Coisas que não fazem parte da vida da pessoa, são filtradas. Se não tivesse passado pelo filtro da ignorância, menina teria usado chapéu ou boné mais protetor solar fator máximo. Ou não, o fator 30 teria bastado: especialistas dizem que acima desse fator é somente saturação. Não adianta colocar dez colheres de açúcar no café. Depois de algumas, ele vai ficar com fundo de saturamento. Os fatores a mais do FPS seriam perda de dinheiro e ilusão.
Um dia, entrou correndo pelo quintal da amiga. Na véspera, a mãe dela tinha colocado um novo arame farpado para estender roupas e o fio rasgou a cara de menina em vários pedacinhos. Depois de anos, as cicatrizes dos cortes ainda estão ali.
Além de ter trabalhado ao sol, nadava tardes inteiras no córrego bosteirinho da fazenda Caveirinhas.
Nessa fazenda, morriam-se pessoas e coisas de modo curioso. Certa vez, caiu um raio que partiu um enorme árvore em pedaços e matou três jovens trabalhadores rurais que estavam a caminho de casa no fim do dia. Desde esse dia, menina tem medo de raio.
Depois, vieram as vacas mortas. O gado começou a morrer misteriosamente naquela propriedade que delimitava o meio rural e a expansão urbana na capital. Diziam que eram os espíritos das pessoas assassinadas a mando do fazendeiro. No conflito da invasão das terras dele por uma multidão desesperada de miseráveis que não tinham onde morar na capital.
Maioria dessas pessoas depois conseguiu um lote quando o governador regularizou a vila com finalidade de expurgo social. Fruto do extremo exido rural no começo dos anos oitenta do século vinte, essa população deveria manter a cara feia de famigerados longe do lindo centro planejado e de seu passeio público no Lago das Rosas.
O bairro já era um dos mais populosos da capital naquela época. Muita gente passava fome. Na casa de menina não faltava arroz e feijao. Tinha couve e mandioca no quintal.
fonte: google https://www.google.com.br/search?q=puxar+agua+no+sari&espv=2&biw=1366&bih=637&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj2-8-Q0_vMAhWGDJAKHUqYCJcQ_AUIBigB#imgrc=RGywknkWpnkqkM%3A
Puxava-se água da cisterna no braço, que dinheiro para uma bomba somente muitos anos depois. De vez em quando, a mãe comprava um pintinho na feira e se ele 
comesse formiguinhas suficientes e fosse esperto o bastante para não ser roubado, ele um dia viraria frango na panela, o que muito doía na menina, que se apegava aos pintinhos como animais de criação.
Para agravar o sofrimento da filha, ela matava a ave por estrangulamento, pegava o bichinho pelo pescoço e o rodopiava no ar infinitas vezes. Menina chorava de dó.
- Sai, pra lá menina, se ficar com pena, a galinha não morre.
- Tadinho, mãe!
- Quero ver se vai ficar com dó na hora de comer.
E menina esquecia. Porque carne era bom. 
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
O povo, entrementes, inclusive a menina e seus irmãos, foi correndo lá com carrinhos de pedreiros.  Acotuvelavam-se e se empurravam na tentativa de arrancar um narco daquela fartura para si. Aquela fartura que não servia nem para urubus.
- Mas mãe, a Dona Zefa falou que essa carne aí não presta, que tem um treco aí na vaca.
- Eu lavei com vinagre e bicabornato de sódio e marinei com bastante limão a noite toda. Depois, fritei muito bem. Pode comer, se quiser.

O que não mata, fortalece. Diz o ditado. Até hoje menina não sabe para que jogaram criolina na carne. Tantos anos depois, ainda não sabe.
- Mãe, para que jogaram criolina naquela carne?
- Você está se lembrando disso para que, menina?
- Porque eu sempre me lembro, mãe. Lembro-me de que comemos uma carne imprópria até para os abutres.
Até hoje menina não sabe para que serve a criolina. Nem vai ao Google descobrir. Pode ser que servia para evitar a decomposição. Estará ainda hoje atuando em seu corpinho, agindo como mais um de seus anti-idade?




26/05/2016

Melindres mil

Mais uma vez emburrada. Menina houve vídeos no you tube indiferente se o volume afeta-o de assistir à TV. Ele aumenta o volume. Ela faz o mesmo. Ele vai deitar se com a cabeça aos pés da cama, para aproximar-se da televisão e para afastar-se, psicologicamente, da menina.
Ela decide colocar o fone de ouvido.  Ele, como sempre, adormece. 
Cansada da internet, decide acordá-lo. Mesmo com beliscões nao consegue.
Dá-lhe uns tapas na panturrilha e começa a chorar.
-Que  foi?
- Você me abandonou!
- Como assim?
- Buá, me abandonou sim. Me deixou aqui sozinha!
- Herrje,  eu estou bem aqui.
- Sim, mas me abandonou aqui sozinha. Você sabe que eu odeio TV no quarto. Casais sem o aparelho no quarto convivem muito mais.
- Mas  você que ligou o computador antes, na maior altura. Perguntei se você queria escolher um filme...
- Não queria filme nem computador. Queria você aqui comigo.
- Menina, menina, às vezes eu me pergunto se você tem 35 anos ou só cinco.
Ela cai num choro desesperado, o abraça, interrompe o soluço, mas não as lágrimas e lhe diz num lindo sorriso de criança mesmo:
- Exatamente! Você está começando a perceber a minha verdadeira essência.
Ele a envolve em seu abraço musculoso e peludinho, que ela ama seu peitoral cabeludinho. Ele lhe afaga os cabelos até ela adormecer.

A cachoeira

Um dia, a tediosa rotina mudou um pouquinho. Nao fora para a capital mas nao se entupiu de remedios para dormir e portanto estava acordada quando Maria, a  faxineira do banco, a unica pessoa do  ambiente de trabalho com quem efetivamente puderam estabelecer amizade, apesar da estranheza dos colegas, devido a uma separacao clara das classes ali. 
Mas, voltando, a menina e a  Maria se fizeram amigas.  No dia em que a descontente tentara mais uma vez o suicidio engolindo uma overdose de paracetamol, Maria cuidara dela como uma mae ultra zelosa. Desde entao a amizade se fortaleceu e se visitam mutuamente. E Maria vivia pensando em como ajudar a amiga a sair dessa fossa profunda.
Ai, naquele dia que a menina permancera na cidade, Maria ligou e a convidou para ir a cachoeira. Ali na currutela ao lado, horinha e meia de viagem. E foram. Ah, como ficara contente a menina. Adora mato e cachoeira, e sair de casa, e a amiga, e a filhinha da amiga. Que domingo bom que seria.
E foram, e nadaram. A sobrinha estava aqui com a tia. As quatro se divertiam muito na agua. O marido da amiga nao entrara na agua, so as observava, e tirava foto.

25/05/2016

O dia que se salvou

Amanheceu muito  triste em seu trigésimo sexto aniversário. Não que se preocupasse que agora esteja mais para quarenta do que para trinta, Mesmo porque, curioso mistério, parece no mínimo dez anos mais nova. Talvez pareça tão jovem porque não teve filhos, nunca teve de ficar acordada noites inteiras pelas enfermidades ou desconfortos infantis. Volta e meia não trabalha, dorme 20 horas diárias. Queda-se dias inteiros sem sair da casa e não recebe um único raio de sol. Mas chora copiosamente-  até mesmo por qualquer besteira, melindrosa que é. Será que suas lágrimas tem alguma substancia com poder rejuvenecedor?
Ou pode ser que a cara jovem seja reflexo da alma imatura aliada à boa alimentação e dos exercícios que pratica intensamente nas fases positivas. Além disso,  não toma refrigerantes nem sucos industrializados, tampouco come salgadinhos ou frituras. Adora peixes e frutos do mar: é requisitadíssima para preparar aquela Paella. Duas vezes por semana não come carne para dar um descanso ao estômago. Nao deixa escapar uma oportunidade de comer japonês.  Adora comidas do mundo inteiro: aprendeu a fazer deliciosos pratos árabes, indianos, tailandeses, chineses, mexicanos, mediterraneos, italianos, norte europeu, brasileiros, etc. A infinidade de ingredientes a faz sentir uma bruxa quando tem de escolher alguns de seus diversos temperos e vai jogando na panela assim por experimentação, sem receita; ama misturar canela, paprika e curry com tudo. Com certeza essa miscelania traz uma variedade eficiente de nutrientes e minerais.
Pratica religiosamente  home spa  - com coisas simples - da cabeça aos pés: faz máscara de argila verde com leite de magnezia e azeite de oliva para desencardir o rosto, hidrata com aquela famosa pomada antiassaduras adicionada de  glicerina e bepantenol, aplica máscara de iogurte natural ou coalhada no rosto, corpo e cabelo, toma litros de chá sem açúcar para substituir a compulsão por comida. Exceto chocolate,  devora-os aos quilos quando muito triste, dando preferencia para os de mais cacau e menos leite e acúcar, mas volta e meia  come um bolo inteiro.
Retira maquiagem com extra virgem óleo de coco ou azeite de oliva, aplica óléo de argan, glicerina e pantenol puro em quase tudo, nao usa produtos com sulfatos, silicones e parafina, esfolia a face com mel, açúcar, borra de café no sabonete glicerinado caseiro feito por ela mesma. 
Aplica ainda rodelas de tomate embebidos no leite, ou pepinos ou bolsinhas de chá de camomila nas olheiras. Usa tres camadas de protetor solar:  um creme pra remover manchas constantes que aparecem, um protetor solar fator 70 com cor que serve de prime, e uma leve maquiagem sempre com protetor solar.
Tais camadas de protetor solar refletem tão efetivamente a luz que nas fotos mais parece fantasiada de gueixa. Uma gueixa singular com a cara branca  e braços e pernas morenas à mostra. Nenhuma foto da adorável noite de seu aniversário se salvou, todas com cara branca, mas não apagou nenhuma, pois serão lembranças de um dia que que salvou tão singelamente.
Apesar de ter amanhecido muito triste, de ter brigado por qualquer coisa, de ter chorado horas porque não tem mais nenhuma amiga, porque o namorado esqueceu da data e não lhe desejou  nada até a hora do almoço quando foi alertado pela mãe,  apesar de tudo, menina esteve contente.
Passou a tarde no shopping presenteando se com cosméticos, distraiu-se e se esqueceu das crises existencias.  Ajudou a mãe a lhe presentear com aquele perfume  quase barato de nome e aparencia glamourousos que todo mundo adora nela. Chegaram em casa exaustas de baterem perna. Nem deu tempo de tomar banho, a irmã mais velha apareceu de surpresa. Nâo havia preparado nada, nem ia jantar. Resolveu abrir aquele vinho especial e pediu uma pizza família. Irmã mais nova, ao saber da pizza, avisou que estava a caminho.
E assim, foi um dos aniversários mais gostosos, bem cozy. Tão diferente daqueles tantos outros marcados por mais uma tentativa de suicídio.



24/05/2016

Espiral


Diz-se que errar não é estupidez.
 Estupidez é não aprender com os erros.
E ainda mais estúpido é repetir o erro.
E de novo. E de novo, E mais uma vez.
Assim, menina se sabe muito estúpida.
Porque não aprende com os erros.
Só aprende com a experiencia extrema mesma. Tem de sair ferida realmente, para mudar algo. Talvez. E apenas temporariamente.

Então tudo se repete. Tudo se repete.
 A cabeça gira, menina sente vertigens.
Nada metafórico. Sua alma vive dentro de uma espiral tridimensional que gira, gira, gira.
Tudo se repete. E isso é muito chato.
Os mesmos dramas e excessos.
Nada que traga surpresas.
Principalmente a ela mesma.

Finalmente ela se empenha. De se dar algo novo. Até que esse novo se torne entediante também.
E então tudo começa de novo. Novamente. Mais uma vez. E de novo.

Tempo borderline

Foi o inverno mais quente dos últimos 250 anos. 
A primavera mais fria desde o início dos registros climatológicos. 

Anunciam os jornais. O tempo tem se mostrado borderline  também.
Logo no início da primavera, adoráveis dias quentes! Apelidados de mini verão. 
Depois de três longos tristes e sedentários anos,  a menina  vestiu a roupa de ciclista  e deu umas pedaladas para conhecer a região.
Animou-se tanto que  retomou também as escaladas.  Alcançou três picos dos Alpes. Subidas amenas, para iniciantes, Subiram num ritmo vagaroso demais para o namorado alpinista. Teria alcançado um quarto pico, mas no dia anterior o clima borderline fez cair neve pesada em pleno maio. À medida que subiam,  os floquinhos enregelantes se exibiam. Por demais sensível, influenciável, o pique dela esvaía-se como a concentração do oxigênio nas alturas. Quanto mais frio, mais devagar se movia, e mais entediado e mais rápido seguia o parceiro montanha acima. Menina desiste. Senta-se num cantinho com vista panorâmica para o lindo lago. Bem profundo. Um dia foi mar.  Desistir de chegar ao pico não faz parte dos planos dele. Ainda mais que essa montanhazinha aqui de 1930m ele nunca escalou, porque cabra montanhesa que é, nunca se interessou por rotas amadoras.  
Ela pára. ele aproveita para mostrar todos os picos a que já chegou. e detalha um roteiro de quais os dos vão escalar juntos nesse verão. Insiste que ela tem de pegar firme porque está nada fit.
  - Vá sozinho. Eu o espero aqui. 
Num  piscar de olhos, ele subiu e desceu os últimos 200 metros.  Ela teria conseguido. se ele tivesse paciência de descansarem uma hora ou duas. Menina teria revigorado a coragem. Ela gosta tanto de chegar ao topo. Adora escaladas. Planeja que vai subir aquele morro perto de casa todos os dias,  para entrar em forma e ser capaz de acompanhá-lo. 
Entrementes, dia seguinte a temperatura volta a cair vertiginosamente. Neve até nas planícies. As hortinhas semeadas dias antes perecem todas.
Mês transcorre ora com dias frios entrecortados por um dia quentíssimo ou o contrário.  Menina enlouquece. E seu corpo já não consegue mais se adaptar a tantas oscilações. O cliclo repetitivo de doenças recomeça: enxaqueca. pressão baixa, sinusite, rinite, gastrite, esofagite, pensamentos suicidas. Mal humor constante, Brigas constantes. Melindres mil.
Descontentíssima, não sai mais de casa. Não sai nem mesmo da cama por dias inteiros. Instabilidade em carne, necessita de ambiente estável. Rotação e translação ao mesmo tempo não garante à menina o tripé necessário para ficar de pé.
Se extremamente requisitada, vai, emburrada, buscar a  a bota revestida de lã e a jaquela térmica já guardados no porão.