08/06/2013

Insonia

Tres noites sem dormir. Eu adormeco, lá pelas onze da noite; mas aí;  às duas ou tres da manhä, acordo e nao durmo mais.
Estou tentando fazer os exercícios de relaxamento e respiracao, tomo chá de camomila, mas nada adianta. Quero realmente dormir sem tomar remédios. Todas essas drogas estao destruíndo meu cérebro: outro dia, a chave sumiu. Nao se achava-a por nada, mas daí tres dias depois, foi encontrada dentro do freezer! Ou entao, ao desfazer a mesa do Café da manha, eu pego o leite aberto e guardo no armário de cereais, pego o vidro de adocante e guardo na geladeira.
E pego o Metro na direcao errada, quase todo dia. Aí eu desco e pego voltando.. E passo da parada e tenho de descer e pegar o Metro de volta de novo, de volta que eu preciso do dobro do tempo para ir a qualquer Lugar. Converso com a psiquiatra, ela meio que me ignora, me diz pra fazer as coisas mais devagar, rpa prestar atencao. "Ce nao tá me entendendo, doutora, é como se eu tivesse Alzheimer e eu só tenho 33!"
Ok, vamos diminuir a dose do Seroquel.
 

04/06/2013

O espalhamento e suas feridas

Quando erámos crianca, minha mae nao  teve por vezes condicoes de manter-nos. Era o auge da inflacao do final dos anos 80 e inicio dos 90, desempregada a fazer bicos, minha mae se viu em situacao de extrema miséria, por isso,  sendo obrigada a nos "espalhar": para termos o que comer.
 Minhas duas irmas ficaram em colégio interno, meu irmäo também foi mandado a um internato para meninos num escola agrária noutro municipio, mas ele fugiu de lá e voltou para casa de carona. Chegou dizendo que se o internassem de novo, ele fugiria paa sempre. Esse irmao se ocupou a infancia inteira de vender picolé e engraxar sapato.
Eu escapei de ir para o internato  (obras sociais espíritas onde meninas recebiam acomodacao, alimentacao e educacao de segunda a sexta, passando o fim de semana com a mae). Minhas irmäs até hoje se ressetem de terem sido internas. Uma diz que odiava, que chegara a dormir no chao...
Nao fui para o internato porque uma vizinha casou, teve o segundo filho, mudou de bairro e me levou pra morar com ela. Eu tinha nove anos, e esse foi meu primeiro trabalho doméstico infantil. Trabalhava sem remuneracao: ajudava com as criancas e arrumava a casa, lavava a loca, varri o Quintal, etc só pela comida e eventuais roupas e material escolar.
Em nenhum momento, eu culpo miha mae por isso. Depois desse primeiro emprego, fui à outro, nas mesmas condicoes, babá de menino de classe média em troca de comida e moradia, até os 12 anos; e dos 13 a 14, trabalhei de doméstica recebendo meio salário minimo certinho por meio período de trabalho. Depois fui ser telefonista/recepcionista no programa Menor Aprendiz.
Depois de sair do internato, minha Irma mais velha teve também de trabalhar como doméstica. Era a nossa realidade. Cujos efeitos até hoje doem. A dor da infancia perdida Sem uma familia estável.
Nao acho que esse "espalhamento dos filhos" a que fomos submetidos seja culpa de mamae. Tendo tido a oportunidade de morar nas casas da classe média, vi logo que se tratava de um problema no sistema: as famílias viviam bem e as empregadas domésticas (atividade que minnha mae exercia) eram seres miseráveis porque o salário minimo era desumano.
Um dia minha mae conseguiu um emprego estável como gari. Depois, mas tarde, ela conseguiu ir para a secretaria de educacao como merendeira em escola primária num regime de meio meríodo. A primeira coisa que ela fez foi tirar minha irmä mais nova do internato e a a cuidar da pequena ela mesma. A mais velha já se casara, eu e meu irmao trabalhávamos, de forma que a caculinha  teve a transicao da infancia pra adolescencia em melhores condicoes que todos nós. Ela pode somente estudar e teria até terminado o segundo grau e feito um curso técnico se quisesse...

03/06/2013

Da crise e do curso

 
Passei o fim de semana inteiro deitada na cama, a desejar a morte. A chorar. A me odiar e a odiar o mundo inteiro. Estou perdendo a luta. Estou  certa de que nao viverei. Viver pra que? Minha vida é essa angústia, apatia infinita. Uma dor de existir!
Atravesso a rua sem olhar  se vem carro, ando bem devagarinho, quem sabe um carro me pega.
Na noite de sábado para domingo nao dormi. Lá pelas quatro da manha, levantei-me e ía para a estacao  de trem me lancar na frente de um. Marido acordou, suspeito e desorientado, se pos a chorar também.  Tomei tres comprimidos de Truxal e dormi 23 Horas seguidas:(
Se eu me jogar na frente do trem, de acordo com as leis desse país, ele será obrigado a pagar os custos subsequentes à tragédia de meu suicídio. Na crise há dois meses, quando somente andava a esmo  nos trilhos na madrugada esperando um trem passar, meus sogros chamaram a polícia para ajudar a  me encontrar, semanas depois chegou em casa a intimacao para ir ao forum onde seria decretada a multa e custos relativos: Hora da polícia, gasolina do carro da polícia, alerta e pessoal da estacao de trem, transporte de ambulancia da estacao para o Hospital..
Coitado do meu marido, melhor eu poupá-lo de mais prejuízos. Mas como ei de me matar entao? Moro no primeiro andar de um prédio de quatro, por mais que eu quisesse me jogar lá do últmo, nao ia dar resultado mortal.
Toda hora morre gente subindo montanhas. Quem sabe.
E se eu me matasse junto à minha família brasileira, nem quero pensar, coitada da minha mae.
Talvez eu compre uma passagem para um cruzeiro (quando descolar um dinheiro, porque estou quebrada) e me lance ao mar no meio da noite, de forma que ninguém vai ter de lidar com o desgosto e trabalho de me enterrar.
 
Nisso, comecou, o curso coping skill no qual se aprende estratégias de lidar com os sintomas e crises Borderline. Eu comecei o curso no meio de uma crise, o que nao é bom, né? Ja viu que bombeiro aprende a apagar o fogo Antes de un incendio! Mas nao vai dar pra esperar sair da crise, pq se eu perder essa turma, a outra somente daqui a quatro meses. A coisa comica do curso é que todo mundo lá parece super  bem. Exercicios de respiracao e concentracao todos declaram que fazem Sem problema, no final, todo mundo fala como tá se sentindo, e todos se declaram super de Boa. Aí eu penso: "cara, e estao aqui por que?" Porque eu quero mais é dizer: "olha, to achando uma merda, viu, esseas técnicas aí parecem bonitinhas, mas quero ver eu no meio de uma crise de desespero parar pra me concentrar no corpo inteiro".
 
 

Do equilibrio

01/06/2013

Da falta de oportunidades

Entrei no Google para pesquisar "nunca tive oportunidade na vida" e no momento exato em que o digitei, veio o esclarecimento: só de estar aqui a digitar isso, já é uma prova em contrário: eu tenho oportunidade de acessar Internet, eu tenho Internet barata e de qualidade no conforto da minha casa, eu tive oportunidade de aprender a ler e escrever, estou saudável nesse momento em que me sento aqui pra desabafar da minha falta de oportunidade na vida.. Uma pessoa que nao tem oportunidades na  vida nao estaria aqui escrevendo, sim? Estaria por aí exercendo trabalho escravo, morrendo de fome, etc.
Mas esse insight do óbvio nao dura muito, porque afinal , fúteis ou näo, faltam-me  as oportunidades no momento pra viver no sentido pleno dessa palavra. Digo viver, porque sobreviver eu já tenho feito desde que nasci. E as oportunidades que me faltam destroem me lentamente. E eu nao quero mais sobreviver, quero viver feliz, gostando de viver.
Céus, quando penso na miséria social, emocional efinanceira em que vim ao mundo.
Se eu nao tivesse tido de trabalhar desde os 9 anos de idade, se eu pudesse ter feit o curso que queria na faculdade, nao um no noturno porque tinha de trabalhar e estudar, se eu nao tiivesse passado minha vida inteira com problemas de auto-estima sem poder fazer nada contra essa pele manchada pelas espinhas e pelo sol,  dentes amarelos e tortos. Se por causa dessa minha aparencia de pobre eu nao tivesse sofrido preconceito e rejeicao.
Se eu nao tivesse passado minha adolescencia e inicio da vida adulta desesperada em arrumar um marido, Sem o qual o mundo me dizia ser a mulher um fracasso, um ser sem valor (vai ficar pra beata, coitada, nunca soube como arrumar alguém). Aff, se as oportunidades tivessem sido outras...