16/08/2016

Portas

Na cabeceira da cama, um lindo cartão da adorável ex sogra: Desejo lhe que encontre portas que se abram, ainda que pareçam cerradas".

Todos os dias, antes de dormir, menina escreve no livro da gratidão (recomendado pela ex sogrinha, e, anos antes, pela psicóloga maravilha que teve no Caps) para criar um novo hábito de se concentrar no que deu certo e no que tem. Quando não há novidades, agradece por ter casa, saúde, família e todos estão bem.
Escreve também na agenda da reforma íntima.  Lê o cartão, e se lembra de tudo que viveu, das portas que se abriram.
E se permite sonhar com novas portas e caminhos.

a lavadeira

Noutra vida, com certeza, foi dessas escravas que lavavam roupa na beira do rio. Daquelas que quaravam a roupa até ficarem imensamente brancas.  Só pode ser isso, porque a única coisa que faz bem na vida é cuidar que a roupa esteja limpa. Infernizou os filhos e hoje inferniza a neta para que não suje a roupa demais, para não encardir.
Lava roupa todo dia, várias vezes. Faz questão  de lavar várias na mão para ter do que reclamar "to cansada, esfreguei a roupa toda na mão".
Esfregou porque quis, já que para isso existe máquina.
Na infância, esfregava roupa muito suja no nariz de menina, para que a criança aprendesse que uma roupa imaculada era mais importante que brincar e ser feliz naquela miséria extrema de bairro sem asfalto, casa sem piso, quintal de poeira esvoaçante, onde já se viu brincar sem sujar?

Além de se ocupar da lavanderia, outra habilidade excepcional é mandar gente embora.
" toda sexta feira, minha neta, melhor ir embora para a casa da sua mãe e me dá um pouco de paz"
No passado, era:  VOU SUMIR E DEIXAR VOCÊS AQUI POR CONTA DE SEU PAI. PODE PEGAR AS TROUXAS E IR LÁ PARA A CASA DELE"

SER MANDADA EMBORA SEMPRE FOI O INFERNO. Menina cresceu com esse sentimento infinito de não pertencimento, se ser tal qual um cão escorraçado.

Mas sempre voltava. Ia morar com namorado, com o pai, com a meio irmã, com o marido, mas sempre voltou. Nunca fechou as portas. Sempre voltou para esse não-lar ao qual nunca sentiu pertencimento.

Conselho sábio de amiga querida:

"pois é, tem que deixar essa bobagem de querer salvar os outros".