Noutra vida, com certeza, foi dessas escravas que lavavam roupa na beira do rio. Daquelas que quaravam a roupa até ficarem imensamente brancas. Só pode ser isso, porque a única coisa que faz bem na vida é cuidar que a roupa esteja limpa. Infernizou os filhos e hoje inferniza a neta para que não suje a roupa demais, para não encardir.
Lava roupa todo dia, várias vezes. Faz questão de lavar várias na mão para ter do que reclamar "to cansada, esfreguei a roupa toda na mão".
Esfregou porque quis, já que para isso existe máquina.
Na infância, esfregava roupa muito suja no nariz de menina, para que a criança aprendesse que uma roupa imaculada era mais importante que brincar e ser feliz naquela miséria extrema de bairro sem asfalto, casa sem piso, quintal de poeira esvoaçante, onde já se viu brincar sem sujar?
Além de se ocupar da lavanderia, outra habilidade excepcional é mandar gente embora.
" toda sexta feira, minha neta, melhor ir embora para a casa da sua mãe e me dá um pouco de paz"
No passado, era: VOU SUMIR E DEIXAR VOCÊS AQUI POR CONTA DE SEU PAI. PODE PEGAR AS TROUXAS E IR LÁ PARA A CASA DELE"
SER MANDADA EMBORA SEMPRE FOI O INFERNO. Menina cresceu com esse sentimento infinito de não pertencimento, se ser tal qual um cão escorraçado.
Mas sempre voltava. Ia morar com namorado, com o pai, com a meio irmã, com o marido, mas sempre voltou. Nunca fechou as portas. Sempre voltou para esse não-lar ao qual nunca sentiu pertencimento.