- Vou sentir sua falta.
Eu, a sua...
Desculpa ter contado várias coisas assim de supetão, mas você sempre foi meu grande amigo e ficou esse gap na amizade. Sei lá, precisava muito lhe contar.
Naquele tempo, que a gente passava madrugadas na porta da sua casa, eu deitada no seu colo, você tendo de ser meu grande amigo e conselheiro para assuntos masculinos....Você era tudo para mim naquela época. Talvez não do jeito que você o desejasse - nem se contestava o friendzone ainda - mas você não tem ideia de como me salvou muitas vezes.
Eu morria de admiração pelo seu inglês cem por cento autodidata, mas eu que fui embora.
Quando retornei, rasgada pela brutalidade em que se encerrou aquela etapa da minha vida estrangeira, a gente ensaiou algo, mas não deu. Era a pior fase da minha vida...Tentei me reconciliar com o Brasil, com tudo, até lhe disse, lembra?
Comentei, em tom de troça, que voltara para fazer as pazes: as coisas não deram certo por lá, porque, conforme os ensinamentos da Seicho no ie, eu deveria me reconciliar: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra. Quando se efetivar a reconciliação com todas as coisas do céu e da terra, tudo será teu amigo."
Eu era a fera ferida em carne, e me apegava a esse mantra para não afogar na minha dor Queria reconstruir. Acreditei profundamente que se eu me reconciliasse com meu pai, minha mãe, meu bairro, meu complexo de vira lata, e aquela situação perfeitamente pontuada por Kurt Vonnegut: "I still catch myself feeling sad for things that dont matter anymore", ...
- Reconcilia-te comigo então! Você colocou just in time. E ensaiamos uns passinhos noutra esfera.
... Mas eu tenho um transtorno mental. Volta e meia sou incapaz de ter uma vida normal. Até eletrochoques me deram naquela clínica de primeiro mundo. Meus relacionamentos são avassaladores. As pessoas saem feridas. Eu estou muito frágil.
- Você não tem noção do quanto admiro a sua inteligencia!
Eu me desperdicei. Por conta dos surtos, eu perdi muitas chances. Eu me sinto fracassada. Eu gostava mais da outra eu. Aquela que desbravava o próprio caminho. Não dessa que vai se casar por conveniencia, porque a vida não tem sentido, mas nunca pude deixar de ser e é melhor presentear alguém com minha existência, e além disso, porque às vezes é como uma menininha que precisa de alguém para tomar conta. Pensa, eu que era uma feminista quase extrema, super emancipada, que ía de motinha á noite para outra cidade pegando a BR 153! Eu mesma não acredito que essa eu e aquela possam ser a mesma pessoa.
- Tenho certeza de que irá recuperar muita coisa ainda e terá bons resultados.
Eu só quero recuperar uma coisa: uma eu que devia ter sido e não foi. Não tenho mais aquela ambição de conhecer todos os países do mundo. Talvez eu nem viaje mais. Acredite, sou outra. Eu sempre fui a favor do aborto, mas eu nunca achei que chegaria o dia de fazer um, porque sempre me preveni. Tendo acontecido do jeito que foi, estou dilacerada.
- Mas vai passar. Na vida, às vezes, tomamos decisões ímpares, mas está tudo certo.
Sim, tem razão.
- Espero que um dia possa ir visitá-la.
Sim, claro, meu querido, que poderá ir sempre me visitar, meu amigo.
- Sempre estarei aqui por você.
No, please dont! Não faça isso consigo.