23/06/2016

Despedida

- Vou sentir sua falta.
Eu, a sua... 
Desculpa ter contado várias coisas assim de supetão,  mas você sempre foi meu grande amigo e ficou esse gap na amizade. Sei lá, precisava muito lhe contar.
Naquele tempo, que a gente passava madrugadas na porta da sua casa,  eu deitada no seu colo, você tendo de ser meu grande amigo e conselheiro para assuntos masculinos....Você era tudo para mim naquela época. Talvez não do jeito que você o desejasse - nem  se contestava o  friendzone ainda  -  mas você não tem ideia de como me salvou muitas vezes. 
Eu morria de admiração pelo seu inglês cem por cento autodidata, mas eu que fui embora. 
Quando retornei, rasgada pela brutalidade em que se encerrou aquela etapa da minha vida estrangeira,  a gente ensaiou algo, mas não deu. Era a pior fase da minha vida...Tentei me reconciliar com o Brasil, com tudo, até lhe disse, lembra? 
Comentei, em tom de troça, que voltara para fazer as pazes: as coisas não deram certo por lá, porque, conforme os ensinamentos da Seicho no ie,  eu deveria me reconciliar: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra. Quando se efetivar a reconciliação com todas as coisas do céu e da terra, tudo será teu amigo." 

Eu  era a fera ferida em carne, e me apegava a esse mantra para não afogar na minha dor Queria reconstruir. Acreditei profundamente que se eu me reconciliasse com meu pai, minha mãe, meu bairro, meu complexo de vira lata, e aquela situação perfeitamente pontuada por Kurt Vonnegut: "I still catch myself feeling sad for things that dont matter anymore", ...
- Reconcilia-te comigo então! Você colocou just in time. E ensaiamos uns passinhos noutra esfera.
... Mas eu tenho um transtorno mental. Volta e meia sou incapaz de ter uma vida normal.  Até eletrochoques me deram naquela clínica de primeiro mundo. Meus relacionamentos são avassaladores. As pessoas saem feridas. Eu estou muito frágil. 
- Você não tem noção do quanto admiro a sua inteligencia!
Eu me desperdicei. Por conta dos surtos, eu perdi muitas chances. Eu me sinto fracassada. Eu gostava mais da outra eu.  Aquela que desbravava o próprio caminho. Não dessa que vai se casar por conveniencia, porque a vida não tem sentido, mas nunca pude deixar de ser e é melhor presentear alguém com minha existência, e além disso, porque às vezes é como uma menininha que precisa de alguém para tomar conta. Pensa, eu que era uma feminista quase extrema, super emancipada, que ía de motinha á noite para outra cidade pegando a BR 153! Eu mesma não acredito que essa eu e aquela possam ser a mesma pessoa. 
- Tenho certeza de que irá recuperar muita coisa ainda e terá bons resultados.
Eu só quero recuperar uma coisa: uma eu que devia ter sido e não foi. Não tenho mais aquela ambição de conhecer todos os países do mundo. Talvez eu nem viaje mais. Acredite, sou outra. Eu sempre fui a favor do aborto, mas eu nunca achei que chegaria o dia de fazer um, porque sempre me preveni. Tendo acontecido do jeito que foi, estou dilacerada.
-  Mas vai passar. Na vida, às vezes,  tomamos decisões ímpares,  mas está tudo certo. 
Sim, tem razão.
- Espero que um dia possa ir visitá-la.
Sim, claro, meu querido, que poderá ir sempre me visitar,  meu amigo.
- Sempre estarei aqui por você.
No, please dont! Não faça isso consigo.


05/06/2016

Analgésicos e soníferos

Naquele sábado de incomum quietude na rua, a cachorrinha veio do quintal gemendo de dor, nem conseguiu chegar até a casa: quedou-se no corredor em frente à janela de menina. Sem conseguir andar, tentava se arrastar, mas era paralisada por uma dor terrível e espasmos na altura do estômago. Uivava e latia pedindo socorro.
A mãe prendia bobes no cabelo de menina enquanto a irmã assistia à televisão.
-Corre lá, irmã. Acode que a titilzinha está em apuros.
Irmã é difícil de se levantar do sofá.
Mãe termina rápido de prender o último bobes e vão lá ver o que acontece.
A cadelinha parece ter sido envenenada. Encontram-na com a língua de fora, a babar, com os músculos do corpo tensos, toda ofegante, respiração muito alterada. Foi com certeza envenenada. Ou pela vizinha da direita, que é um demônio e está sempre aprontando. Ou pode ter sido a vizinha da esquerda, com quem houve uma briga recente, apesar da amizade.
Irmã acha que pode ter sido mordida de cobra. Quintal está cheio de mato e lixo. Além de cobra, também já se viram lacraias lá. E lacraias são tão venenosas quanto serpentes. Procuram pelo corpo inteiro uma mordida. Nada. Tadinha da cadelinha, tão magrinha. Com muito custo sarou da hepavirose.
Dinheiro para veterinário a família não tinha. Que essas coisas de petshop só lá mesmo em bairro nobre.
-Se deram veneno, bora fazer a lavagem gástrica nela.
-De que jeito, minha filha?
-Uai, igual faziam em mim quando tentei suicídio: enfiamos a mangueira, essa ali mesmo do jardim, na boca dela, ligamos a água e deixamos correr.
Assim fizeram, mas a cachorrinha não vomitou. Defecou, muito. Choro e latidos terríveis continuavam. Menina pede à irmã para ir atrás de carvão ativado. Enquanto isso, com uma seringa, dá mel para a cadelinha. Mel é um santo remédio. Há de proteger o estômago. Além disso, até aquele cara russo escapou de morrer envenenado porque uma overdose de açúcar deve ter neutralizado a estricnina.
Cachorrinha, no desespero. Menina e sua mãe atordoadas sem saber o que fazer. Ela vai morrer, pensam desoladas.
-Pega aqui, mãe, dá para ela.
-Que é isso?
-Esse é aquele analgésico superpotente que eu te dou de vez em quando, para aliviar a dor das costas. É o que há de mais forte no mundo. E esse aqui é dos seus remédios de dormir.
-Dormir?
Sim, mãe, ela dorme e não vê a dor, igual eu faço.
Exitante, mãe concorda. Amassam os comprimidos, diluem e com seringa o remédio desce goela adentro.
Irmã volta, sem o carvão ativado. Fica chocada com o que fizeram.
-Suas doidas? Remédio de gente no cachorro!
-Ora, eles testam remédios em animais.
-Em ratos!
-Sim, mas testam também em cães. Outro dia vi uma clínica fechada por ativistas lá nos EUA. 
O animal permanece gemendo fraquinho, ofegante; os espasmos diminuem a frequência, até que ela parece dormir. Os olhos, entretanto, nunca fecham.
Menina, chora, mãe de menina chora.
Duas horas depois os latidos silenciam e ela repousa.
Mãe acredita que ela amanhecerá morta.
Duas da manhã, menina acorda e vai dar uma olhada nela. Eis que o pequeno animal despertou, mudou de lugar. Ao ser chamada, veio andando, serelepe.