30/03/2016

Ignorada

Estará menina ficando louca? Surtada já se sabe - ainda que o último surto tenha sido há tanto tempo que a família  volta àquele estágio de acreditar que menina é normal,  que "aquilo" passou...
Linda tarde primaveril nesse continente onde cada mudanca do tempo é por demais significativa. Depois de duas horas de  caminhas pelos campos e  vilinhas, "ah, que linda tarde ensolarada, sem jaqueta, com o pulover desabotoado, o colo tomando sol", menina encontra a varandda ensolarada, mas os móveis de jardins estao empilhados. Menina tenta tirar um banco da pilha, mas ele é pesado, sozinha nao dá conta.
Entra e prepara um iogurte natural com nozes e passas. Agorinha ele chega e vai ajeitar os móveis: ela vai poder se espreguicar maravilhosamente nesse sol de vinte graus dessa linda tarde de abril. Ele chega, eles desempilham os bancos, removem a mesa, instalam o carpete que simula gramado, limpam tudo por cima e por baixo. Enfim,menina tira a meia e levanta o top para tomar banho de sol na barriga e nos pezinhos tortos.
Ele olha para o lado,percebe a grama elefante, levanta, vai buscar a tesoura elétrica para aparar. Comeca a trabalhar, menina vai ajudá-lo. Chega um vizinho, comecam a conversar, ele a ignora, menina continua a trabalhar; depois, tenta cumprimentá-lo,  mas ele ignora o "olá". Se afastam para continuarem a conversa sobre uma alteracao na cerca verde que divide o quintal.
Menina se sente indignada de nao ter sido apresentada e pela má educacao do vizinho em ignorá-la. Ela tenta continuar aparando a grama elefante. Ve que precisa de uma luva e vai lá dentro pegar. No meio do caminho, sente compulsao por comer e vai procurar algo doce. Ve pela  janela da cozinha que os dois nao estao mais ao redor da cerca: agora conversam olhando as sacadas ou a parede desse lado da casa.
Ao perceberem menina, namorado e o vizinho dao automaticamente alguns passos para trás. Menina, faca no ar, desiste de cortar uma fatia do pao para comer com geléia, Sobe às pressas as escada, bate a porta do quarto, vai à janela, fecha o blackout e a cortina. Bate a porta do quarto com forca. Liga o som bem alto. 
Bem no dia em que ele vai ir esse velório sem ela. Menina sabe nao! Ou está enlouquecendo imaginando coisas ou tem algo de muito suspeito nele.

29/03/2016

Pela cozinha planejada

A jovem, loura, bonita e muito bem qualificada e bem sucedida secretária de estado  (do pequeno país de primeiríssimo mundo) anda preocupada com o crescente número de mulheres que estao abandonando a forca de trabalho, que contribuiu para a previdencia, para se tornarem donas de casa. Full time mum, descrevem de modo chique as bloqueiras que assim se ocupam.
Menina, que no momento se ocupa unicamente de manter a casa em ordem e o namorado muito bem alimentado, faz o mesmo.  Se engravidar desse namorado (nao estao usando nenhum método contraceptivo), vao se casar e ela vai ficar em casa cuidando da prole em tempo integral. Namorado já falou que nao quer que ela trabalhe, sem entrar em detalhes.
Mas menina sabe que ele está adorando chegar em casa e a comida maravilhosa está finalizada no perfeito momento dele se sentar à mesa. E menina gosta muito de elaborar seus pratos com ingredientes altamente frescos e temperos do mundo inteiro na cozinha lindamente planejada e equipada. Todos os amigos dele já estao ciente de como ela cozinha bem... E menina já avisou que quando trabalha fora nao cozinha: almoca em restaurante e de noite come iogurte natural com frutas e mel ou sanduiche de hummus e pao integral, já que dupla e tripla jornada é coisa para mulheres maravilhas como Romina, que passa roupa até as duas da manha e nao tem tempo para jogar conversa fora cinco minutos ao telefone....
Claro que uma pulga atrás da orelha vez ou outra se faz cocar. No festival de vinho ontem, menina conheceu mais um amigo do bem. Separou se depois de vinte anos, num relacionamento que parece ter sido bom:  contou com vivacidade de muitas das suas viagens, feitas em companhia da ex. Em vinte anos, um casal constrói muita coisa juntos. Na separacao do Jonas, ele ficou com a casa.
 "Ficou com a casa todinha, e a ex mulher? A casa era só dele porque ele a recebeu de heranca dos pais?" Quis saber a menina curiosa.
"Nao, a casa é só dele porque  ele era o que trabalhava, tudo que tinha lá foi ele que pagou por / comprou", respondeu o par. Era noite,  haviam provado diversos vinhos. Estavam naquela exata estradinha linda dentro de uma mata. A noite, esse caminho ornado pelo túnel árboreo consegue ser ainda mais lindo. 
Menina pensou várias coisas: que trabalho feito dentro de casa é trabalho e portanto deve ser remunerado. E que, quando uma mulher fica em casa, é um acordo tácito dos dois. Provavelmente, o homem nao sabe cozinhar, nao quer limpar, nao quer ajudar com as criancas e adora essa divisao altmodische de homem chefe de família, mulher rainha do lar.
E nesse pequeno país dos sonhos, por lei, o trabalho de dona de casa deve ser remunerado pelo marido: 40% do que sobra do salário, depois de pagas as contas de águas, luz, gás, seguros, hipoteca, supermercados, é por lei o pagamento que o marido deve fazer pelo servico de dona de casa. 
Tais pensamentos circularam aceleradamente pela mente da menina, mas nao disse nada. Suspirou e pensou na sogra e nas mulheres da geracao da sogra: nunca se divorciavam. Sem casa, sem profissao e velhas, como quer que fossem seus maridos, tais mulheres  nao  se separavam. Será que o sogro foi um bom marido? Será que esse namorado vai ser um bom pai e um bom marido? E se tiver de se separar de novo? Porque menina, quando descontente demais, sempre parte. Provavelmente sempre o fará. Daí menina concordou com a secretária de estado.
Mas, senhora secretária, escreve mentalmente a menina uma carta à administradora pública, para quem nao foi bem sucedida em ter uma carreira  brilhante e /ou ao menos muito bem remunerada, trabalhar fora pode ser bem frustrante. Ganhar o suficiente para pagar moradia, alimentacao e transporte carrega um sentimento de escravidao.
Menina é minimalista, contra o consumismo e sempre economiza independente de quanto ganha. Mas ter um emprego que se odeia, ter a permanente sensacao de que o dia a dia se resume a ganhar o pao, a sobreviver; sofrer estresse permanente pela pressao dos chefes, dos clientes, dos colegas de trabalho para no fim tudo somente resultar na sobrevivencia.
Sem contar que vida de mulher solteira é aquele drama: os homens que lhe alugam a casa cobram mais que de locatáriOs, mecanicos praticam extorsao endemica contra mulheres, etc. Sao tais condicoes, senhora ultra bem sucedida secretária, que fazem meninas descontentes encarnarem o papel de Stepford Wifes.

26/03/2016

Da solidao

A solidao é o destino de menina. Lá no interior do Brasil,  ou  na casa materna, esteve descontente pela solidao amorosa. Agora, tem cobertor de orelha,  mas nao conhece ninguém mais na  vila. Fica dias sem falar com ninguém. De vez em quando visita a sogra, de vez em quando limpa a casa o dia inteiro. Outro dia, vários outros dias, dormira o dia inteiro. Nem olha facebook, nem navega  na internet. Quanto menos se usa as midias socias, menos sente falta delas.
Como alguém consegue dormir tanto, especula o namorado. Dorme mais que o gato.
Ah, o gato! Namorado tem um gato, que nao pode sair de dentro da casa. Coitado, gato de fazenda, ve os passarinhos e outros gatos no jardim lá fora, fica doido para escapulir, mas vive na prisao. Menina, que mes dias atrás nao sentia nem alegria nem tristeza, estava espantada de como andava serena com tamanha solidao. Pensa tanta coisa, mas nao as escreve, depois esquece tudo.

18/03/2016

Da comparacao descabida

Menina é, hoje, consciente de que costuma se concentrar nos problemas e nao  na solucao dos mesmos. Outro vicio de comportamento que contribui tremendamente para seu permanente descontentamento é isso: sempre compara o que tinha de bom com o que tem de ruim agora. 
No momento, tal habito se materializa na figura da sogra. Primeiros contatos com a nova sogra foram amigáveis e promissores. A sogra  demostrou simpatia e amabilidade. Agora, volta e meia tem uns humores, mal cumprimenta. Daí menina se lembra de como adora a ex sogra,de como se davam bem, andavam de maos dadas na rua. 
Menina até mesmo colocou como meta do aprimoramento individual se tornar como a ex sogra. Exemplo de docura, sabedoria, diplomacia e carinho. Quando assinou o divorcio, doeu-lhe tanto a perda do amor quanto o rompimento do parentesco com aquela, de quem gostaria  de ser filha.
Namorado tem o pavio curto com a mae. Costuma discutir por qualquer besteira.Menina ve aquilo e fica abismada, pois, nao é, como dizem "observe como o homem trata a mae e saiba que ele tratará a esposa do mesmo modo"? 
Aí menina se lembra de como o outro era doce, meigo, companheiro, filho adorado da mae, a quem aidolatrava. De como o outro era companheiro nos mínimos detalhes. Agora, na hora das compras, menina tem de colocar sozinha as  mercadorias no carrinho... 
E segue menina comparando... Esquece -se de que o outro nao era perfeito, pois foram pequenas falhas que somadas levaram à ruína de um relacionamento que um dia  fora um sonho.

14/03/2016

Como seus pais

Pai da menina trabalhou quarenta anos naquela mega indústria com 7000 funcionários e nunca fez uma amizade lá. Pelo menos, nunca houve um colega de trabalho que viesse à casa comer, beber, visitar. Nem  mesmo às festas de natal no clube da firma a  menina nunca foi levada pelo pai - e nao era porque não morava com ele: as meias-irmãs também nunca tinham participado de nada.
Mais tarde, menina foi trabalhar na mesma firma e fez muitas amizades lá. Iam para a balada em grupos de 20. Para comer no dia a dia, seu grupo ocupava duas a tres mesas do restaurante perto  da sede. Fim de mês, contas vazias, turma se encontrava  na casa de um para beberem e jogarem War até de madrugada.
Certa vez, entretanto, foi levada pelo pai à festa de natal da firma. Ele já era aposentado há mais de década (aposentou jovem por tempo de servico, com medo da reforma da previdencia). Foi naqueles dias em que viajara a procura do irmao, cujo contato perdera desde a adolescencia. Pai voltara das Minas Gerais, onde somente encontrara a notícia de que o único irmão já estava morto. Deixara dois filhos já adultos os quais não se interessaram pelo tio desconhecido. Limitaram-se a lhe passar o contato de um primo que mora em São Paulo. Esse veio a Goiás ver as filhas do primo. Tomou na casa do pai uma cerveja barata e cochicou com a menina da conhecida avareza.
Meses depois, o pai retribuiu a  visita; voltou dizendo que ridiqueza se ver é por lá: faziam comida em panelinhas pequenas, tudo minguado, enquanto na casa do pai de menina, madrasta fazia panelões de arroz, feijão, macarrão, batata, carne,  e uma travessa enorme de salada. Madrasta de menina acha que lá se come pequenas porções divididas em entrada, prato principal e tal, pois pai comentou que tudo é chique, tem até copeira para servir o café e repor a mesa. 
(Na casa do pai, ninguém, exceto menina, tinha fome de manhã. A única que comia pão antes de ir à escola. E de tarde também. Mas pai, madrasta e irmãs só comiam almoço e janta, porções enormes. A Li aos 11 anos era tão magrela, como conseguia comer três pratadas de macarrão? Menina nunca entendeu. Todo mundo dizia que menina comia como passarinho. Até hoje.)
Naquela época, assim do nada, pai avisou às filhas para se arrumarem que iam sair. E foram à festa de Natal da firma. E que festa bacana. Como assim, tantos anos e nunca antes foram? Pai de menina é, como seu novo namorado, alheio às necessidades do ser humano de ter amizades. Toda vez que as via atender o telefone e ficar lá em pé ao lado da televisão,  observadas por todos que assistiam ao jornal, pai comentava incomodado para encerrar o bate papo adolescente: "...Mas essa caixinha de fofoca rende".
Caixinha de fofoca. Mãe da menina também não faz amizade. Mora há trinta anos na mesma casa, na mesma rua e nunca fez amizade com as vizinhas. Dizia que se esquivava para se manter livre das fofocas. Menina costumava achar que era porque ela era mãe solteira e isso era mal visto. Na infância, todas as outras crianças moravam com pai e mãe. Menina era  a única que tinha meias-irmãs, que moravam noutra casa com o pai e a madrasta.
Naqueles idos das décadas de 1980 e 1990, a virgindade, ser mãe sem ser casada, o divórcio, tudo ainda era tabu.
Mas  hoje menina sabe que a ela não faz amizade porque tem um temperamento intratável.
E ela, garotinha que sempre amou gente, sempre fez amizades com facilidades, faz como os pais agora, não tem amigas. A caixinha de fofoca  não rende mais.  Quase ninguém tem mais telefone fixo. Quem tem nem usa. Aqui, somente a sogra liga no fixo. Caixinha de fofoca da menina perdeu a função. Graças ao whatsapp, consegue mandar notícias diárias para a mãe  e as irmãs. Mas só.
Amiga que casou e mudou também não tem amigas e disse que não se faz amizade depois dos trinta. Ex colega de trabalho comentou sem perceber que realmente não cabe convidar amigas solteiras sem filhos para ir conviver na casa dela.  Menina sente falta de ter amigas. De fazer pão de queijo e ter visitas. De passar a tarde na  cafeteria com a Marta. Passar tardes  chuvosas na casa da Mei filosofando. De sua amada amiga M, com quem bobamente sente discutiu no face.
Como já não se tem mais  com quem compartilhar as quitandas, menina desandou na cozinha: conhecida por seus bolos perfeitos, ontem fez  um bolo de cenoura que não cozinhou no meio. Pode ser por causa do forno, que outro dia estava estragado. Pode ser. Menina faz bolo desde que tinha sete anos e foi a primeira vez que um bolo seu vai para o lixo. Menina ensinou a sobrinha fazer bolos perfeitos. Menina queria ensinar à linda pequena como fazer diferente.  Menina faz como seus pais.
O pai dela teve um problema sério do coração, gastou muito e se recuperou, só não vai sarar da angústia de que muitos de seus espalhados filhos e filha sentiram comoção zero da doença dele e não foram visitá-lo. Mãe de menina chora dias inteiros de solidão. Entope-se  remédios e dorme sem parar a fim de evitar a solidão.. Que a sobrinha possa fazer diferente.

Como seus pais

Pai da menina trabalhou quarenta anos naquela mega indústria com 7000 funcionários e nunca fez uma amizade lá. Pelo menos, nunca houve um colega de trabalho que viesse à casa comer, beber, visitar. Nem  mesmo às festas de natal no clube da firma a  menina nunca foi levada pelo pai - e nao era porque não morava com ele: as meias-irmãs também nunca tinham participado de nada.
Mais tarde, menina foi trabalhar na mesma firma e fez muitas amizades lá. Iam para a balada em grupos de 20. Para comer no dia a dia, seu grupo ocupava duas a tres mesas do restaurante perto  da sede. Fim de mês, contas vazias, turma se encontrava  na casa de um para beberem e jogarem War até de madrugada.
Certa vez, entretanto, foi levada pelo pai à festa de natal da firma. Ele já era aposentado há mais de década (aposentou jovem por tempo de servico, com medo da reforma da previdencia). Foi naqueles dias em que viajara a procura do irmao, cujo contato perdera desde a adolescencia. Pai voltara das Minas Gerais, onde somente encontrara a notícia de que o único irmão já estava morto. Deixara dois filhos já adultos os quais não se interessaram pelo tio desconhecido. Limitaram-se a lhe passar o contato de um primo que mora em São Paulo. Esse veio a Goiás ver as filhas do primo. Tomou na casa do pai uma cerveja barata e cochicou com a menina da conhecida avareza.
Meses depois, o pai retribuiu a  visita; voltou dizendo que ridiqueza se ver é por lá: faziam comida em panelinhas pequenas, tudo minguado, enquanto na casa do pai de menina, madrasta fazia panelões de arroz, feijão, macarrão, batata, carne,  e uma travessa enorme de salada. Madrasta de menina acha que lá se come pequenas porções divididas em entrada, prato principal e tal, pois pai comentou que tudo é chique, tem até copeira para servir o café e repor a mesa. 
(Na casa do pai, ninguém, exceto menina, tinha fome de manhã. A única que comia pão antes de ir à escola. E de tarde também. Mas pai, madrasta e irmãs só comiam almoço e janta, porções enormes. A Li aos 11 anos era tão magrela, como conseguia comer três pratadas de macarrão? Menina nunca entendeu. Todo mundo dizia que menina comia como passarinho. Até hoje.)
Naquela época, assim do nada, pai avisou às filhas para se arrumarem que iam sair. E foram à festa de Natal da firma. E que festa bacana. Como assim, tantos anos e nunca antes foram? Pai de menina é, como seu novo namorado, alheio às necessidades do ser humano de ter amizades. Toda vez que as via atender o telefone e ficar lá em pé ao lado da televisão,  observadas por todos que assistiam ao jornal, pai comentava incomodado para encerrar o bate papo adolescente: "...Mas essa caixinha de fofoca rende".
Caixinha de fofoca. Mãe da menina também não faz amizade. Mora há trinta anos na mesma casa, na mesma rua e nunca fez amizade com as vizinhas. Dizia que se esquivava para se manter livre das fofocas. Menina costumava achar que era porque ela era mãe solteira e isso era mal visto. Na infância, todas as outras crianças moravam com pai e mãe. Menina era  a única que tinha meias-irmãs, que moravam noutra casa com o pai e a madrasta.
Naqueles idos das décadas de 1980 e 1990, a virgindade, ser mãe sem ser casada, o divórcio, tudo ainda era tabu.
Mas  hoje menina sabe que a ela não faz amizade porque tem um temperamento intratável.
E ela, garotinha que sempre amou gente, sempre fez amizades com facilidades, faz como os pais agora, não tem amigas. A caixinha de fofoca  não rende mais.  Quase ninguém tem mais telefone fixo. Quem tem nem usa. Aqui, somente a sogra liga no fixo. Caixinha de fofoca da menina perdeu a função. Graças ao whatsapp, consegue mandar notícias diárias para a mãe  e as irmãs. Mas só.
Amiga que casou e mudou também não tem amigas e disse que não se faz amizade depois dos trinta. Ex colega de trabalho comentou sem perceber que realmente não cabe convidar amigas solteiras sem filhos para ir conviver na casa dela.  Menina sente falta de ter amigas. De fazer pão de queijo e ter visitas. De passar a tarde na  cafeteria com a Marta. Passar tardes  chuvosas na casa da Mei filosofando. De sua amada amiga M, com quem bobamente sente discutiu no face.
Como já não se tem mais  com quem compartilhar as quitandas, menina desandou na cozinha: conhecida por seus bolos perfeitos, ontem fez  um bolo de cenoura que não cozinhou no meio. Pode ser por causa do forno, que outro dia estava estragado. Pode ser. Menina faz bolo desde que tinha sete anos e foi a primeira vez que um bolo seu vai para o lixo. Menina ensinou a sobrinha fazer bolos perfeitos. Menina queria ensinar à linda pequena como fazer diferente.  Menina faz como seus pais.
O pai dela teve um problema sério do coração, gastou muito e se recuperou, só não vai sarar da angústia de que muitos de seus espalhados filhos e filha sentiram comoção zero da doença dele e não foram visitá-lo. Mãe de menina chora dias inteiros de solidão. Entope-se  remédios e dorme sem parar a fim de evitar a solidão.. Que a sobrinha possa fazer diferente.

13/03/2016

Exílio

Nao, nao largou tudo e foi embora para buscar a felicidade. Até porque, há muito TEMPO, já perdera a esperanca de que uma dia seria feliz.

Partiu, simplesmente. 
Fugir, talvez...
Tediosa vida que vinha levando. 
Vivendo emocoes nenhuma.
Menina sempre parte. 
Incomodada se sentiu, partiu. 
Queria nao ter partido das outras vezes. 
Perdeu tanto, outroras 
Mas dessa vez, tinha nada para perder. 
Livre como um passarinho, partiu.
Em busca de novos veroes.

Quanto ao novo namorado, bem, se uma dia disse à irma que ía sem nenhum sentimento, expressou-se mal: nunca haviam transado, mas tinham ficado e houvera a química.
Menina nao dorme com ninguém se nao houver essa misteriosa química. "Mas e os sentimentos?" insiste a irma em saber.
"Amor?" Bem, irma, menina desconfia que ela nem saiba o que é o amor. Os dois únicos longos e duradouras relacionamentos que teve foram pautados por paixoes avassaladoras. E menina anda mais calma agora, menos surtada. E essa mesma forca que a faz surtar é que a faz amar loucamente. Menina nao sabe se viverá outra paixao avassaladora.
Ele é diferente de tudo que já viveu. Ele é hiperintrovertido, praticamente nao tem quaisquer amizade, exceto os companheiros para as práticas de seus esportes e hobbies: o esqui, o ciclismo e o motocross. Tem uma oficina completa e passa horas lá remontando as motos que compra. Tem 45 anos e nunca morou com namorada. Há dez anos, construiu essa casa enorme para casar, mas descobriu que era traído e desistiu do matrimonio. Saiu da casa dos pais mesmo assim. Há uma década, deixa toda a roupa limpa amontoada no sofá, ignorando guarda-roupas e comodas nos tres quartos e corredores. Deve ser um choque para ele ter o modo de vida ultraindividualista invadido assim de repente. E repensar a questao do matrimonio - já disse à mae, que se for com menina, já mudou de idéia: pretende novamente se casar.
Ele está gostando da menina. Já havia se apaixonado à primeira vista. Agora está  encantado. Quer que menina goste dele, e da casa, o bastante para ficar. Porém, como socializar nao é com ele, e o relacionamento com os vizinhos se resume a um  educado cumprimento ao passarem uns pelos outros, menina até agora nao foi apresentada a ninguém. Só saem de casa para ir ao supermercado, ou à casa da sogra para tomar café e comer bolo ou almocar. Nisso, ele aproveita para ler o jornal que o pai assina.
Ah, outro dia foram ao Happy hour do pessoal do motocross.  E na sexta passada  tinha uma convencao de esportes. Foram ver se tinha uma bicicleta em conta para a menina. Mas, ele ficou mesmo interessado  em comprar aquela motinha cross para ela. 85cc. Porque ele, na descida com a bicicleta, faz mais de 100km/h... Como é que menina vai acompanhá-lo? Melhor mesmo é ela curtir a motocross ao lado dele na bike...Menina tem carteira AB. Mas nunca pilotou nada que nao fossem motonetas.
Menina nao  está feliz, mas, estranhamente, nao está infeliz! Essa ausencia de um sentimento é algo extraordinário e novo na vida da menina descontente. Borderlines habitam mundos de extremos: ou está tudo ótimo ou está tudo desesperador. Agora, nem um nem outro.  Nao está tomando antidepressivos, nem mesmos os comprimidos de Grifonia, raiz africana tida como antidepressivo natural. Mas tem feito ioga e meditacao. Dia ou outro se lembra dos comprimidos de Omega 3/6/9 . E se disciplina a comer  fruta em cada refeicao.
E, acima de tudo, curte cozinhar. E nunca, mas nunca, sente saudade do trabalho ou daquela vida sem carinhos e beijinhos, e sexo, muito sexo, e amassos, e massagens e banhos e banheira a dois e assistir à TV esfregando os pés uns nos outros, tomando um vinho perfeito.

08/03/2016

O aborto com citotec

De súbito, grávida.

"Na Suiça, o aborto funciona assim: clínicas privadas oferecem o serviço. Basta ligar e marcar o horário.
Chegando lá, o médico faz uma ultrasonografia vaginal para verificar quantas semanas. Até 63 dias de gravidez, o aborto pode ser medicamentoso. Após o ultrassom, o médico explica o processo: ali mesmo na frente dele, toma-se o primeiro medicamento, Mifegyne, que alterará o nível de alguns hormonios da gravidez a níveis ótimos para acao do ciprostol (citotec).
(Caso a paciente seja do grupo sanguineo fator Rhesus negativo, vai tomar uma injecao para evitar a eristolastose fetal numa segunda gravidez)
Paciente vai para casa com 4 comprimidos do Ciprostol. 48 horas depois, ela  tomará dois comprimidos de um remédio para dor (que nao pode ser de acao antiespasmódica, pois sao as contracoes do ultero que vao expelir o feto).

Uma hora depois de tomar o analgésico, inserem-se dois comprimidos do Citotec na vagina.  Se, em até duas horas,   nao comecar um sangramento como uma menstruacao forte, deve-se ingerir os dois outros comprimidos. Dentro de quatro horas, deve-se concretizar o aborto, um sangramento tipo menstruacao vai durar de uma a duas semanas. Em caso de qualquer imprevisto, deve-se ligar na clinica. Em caso de necessidade, a curetagem será feita pela clínica, sem custo  extra.
Se houver um sangramento absurdo (do tipo que encharque um absorvente max em uma hora, deve-se ir  a um hospital ou procurar a clinica)."

Menina sempre foi a favor do aborto, mas só agora percebe que nunca tinha cogitado que chegaria o dia de fazer um. Afinal, sempre se preveniu. Além disso, aos 35, já se acreditava infértil: em anos anteriores, o relógio biológico apitou. Tentou engravidar seguindo tabelinha e pondo pernas para cima após a transa - sem sucesso.  Acreditava-se portanto, infértil nessa altura da vida.

Menina, mais descontente do que nunca nessa vida, sai do consultório. Liga pelo whatsapp para a irma - quem sabe se o Zé mudou de idéia e ligou para dar notícias. Aproveita o sábado para fazer compras e algumas visitas que nao poderao ser feitas na semana seguinte. Mas, depois de ingerir o mifegyne não se pode mais desistir do aborto.


Domingo, nove horas. Toma o analgésico. Nao pensa em nada. Em uma hora, esse comprimido vai aliviar parcialmente a dor quando ela comecar.
Passadas duas horas, nada de sangramento. Toma os outros dois comprimidos. Vomita em seguida. Procura a folha com as orientacoes e o celular do médico. Terá ir à clínica buscar mais dois compridos. Comeca a se arrumar para sair de casa.  No banho, um sangramento enorme escorre pelas pernas.  Corre para o vaso. Fica lá meia hora. ( ao invés de ingerir,descobre depois que o melhor é colocar os comprimidos embaixo da língua e deixar dissolver).
Contracoes.
Vomitos.
Muito sangue.
Liga de novo para o médico.
Nao precisará mais dos outros dois comprimidos. Ficar de olho para confirmar se o saco aminiótico sai.
Contracoes.  Sangue. Muito sangue. Dor na parte de baixo da barriga. Parecem cólicas.
Sempre teve cólicas horríveis. Sempre evita de tomar remédio. A menos que esteja no trabalho. A dor daquele emprego odioso já bastava.
Uma dor tipo cólica menstrual. Bolsa térmica ajuda. Deitar de brucos com travesseiro na barriga aumenta a cólica, mas favorece a evolucao das contracoes, e portanto, elimina mais rápido o sangue.
Deveria tomar mais um analgésico. Borderlines acompanham a dor como se nao fosse neles. Muitos se cortam. Menina descontente muitas vezes puxa o próprio cabelo, bate na própria cara, se belisca, se morde, até quase sangrar. Vive azulada. Nao toma o Parkemed. Sente a dor com extrema imparcialidade. Sempre foi de ficar acompanhando as cólicas.
Levanta-se e comeca a desempacotar as malas. Abaixa e levanta. Deve ser bom para acelerar os movimentos de expulsao do saco aminiótico.
Menina nao sente nada. Leu bastante: muitas sentem alívio pela interrupco de uma gravidez indesejada. Outras sentem culpas. Milhares de sites estúpidos fazem   terrorismo psicológico com fotos de embrioes multilados. Menina nao sente nada. Absolutatmente nada. O vazio profundo é um sentimento recorrente nos Borderlines. Mais que isso, alienar-se da realidade é o mecanismo de sobrevivencia mais eficaz para os portadores desse transtorno mental. Porque os sentimentos e reacao impulsiva podem ser por demais insuportáveis.
Nao sente nada nesse momento sanguinolento. Mas antes, entre o analgésico e a insercao vaginal, pensou e sentiu muitas coisas. Quando Zé desligou o telefone dizendo que nao tem dinheiro nem para comer, menina pensou que ir surtar. Um surto único e final. Queria que ele tivesse aberto a porta para conversarem. Queria ter sabido da gravidez antes de pedir demissao. Capaz que ia ter essa crianca mesmo sozinha.
Mais meia hora sentada no vaso.
Aborto efeituado com sucesso. No meio de tanto sangue, essa coisinha rosa, diferente. Deve ser o feto dentro do saco aminiótico. Saiu inteiro e intacto. Pega-o, enxagua, fotografa e envia ao médico para confirmar. Nada de pedacinhos humanos dilacerados. Entao é isso. Volta para cama e nao pensa em nada.
Mas, outro dia, nao estava a ler  um blog de uma borderline que decidiu ser mae e está tudo muito dramático? Poor woman. Poor Baby. E mais uma vez se arraigara ao Machado de Assis: " Nao tive filhos. Nao deixei a ninguém o legado de nossa miséria".


04/03/2016

Background

Nem quando vida era o caos em carne, menina engravidara. Borderline, já teve fases de compulsao afetivo-sexual em que tinha tres namorados e ou ficantes ao mesmo tempo.
Aos 20 anos, dias houveram em que acordou na casa de um (o que insistia que nao se tratava de namoro, apesar da constancia dos encontros e  de ele frequentar  a casa dela como verdadeiro e único oficial), almocou com o adolescente peralta que aparecia de surpresa para o almoco lhe trazendo uma rosa vermelha - que sobrevivera ao vento na motoneta; e,  no meio da noite, o motorista de onibus chegava da viagem e ligava avisando: vem, to doido aqui,vem me aliviar. Esse só queria sexo mesmo, era tudo muito claro e absolutamente delicioso.
Acontece que os homens, pelo menos naquela época, pareciam tacitamente estabelecerem para si a regra  de que ve a namorada ou ficante por duas vezes na semana lhes bastava. Entrementes, menina borderline tinha necessidade absoluta de estar com alguem no mínimo seis dias na semana. Um dia de solidao na semana já era uma tortura. O sentimento desesperador do abandono só conseguia ser aplacado com a substituicao compulsiva do par amoroso.
Por isso, no inicio da idade adulta, essa necessidade pendular de vários relacionamentos, que ocasionalmente quase colidiam. De vez em quando todo mundo sumia. tinha vários e nao tinha nenhum.
Fora um condiloma de um namorado evasivo, tratado rapidamente por uma medica muito eficiente, nunca lhe ocorreu nenhum problema dessa promiscuidade. Tomava remédio constinuamente e nunca engravidou, usava camisinha.
As vezes, surtava  sumia no meio da noite. Acontecia quando nao estava namorando ficando com ningúem. Daí acontecia de acordar na casa de alguém ou em algum hotel,  com cartinha e telefone de cara que comeu e apaixonou.
Menina nunca sofreu da sindrome feminina de ficar ao lado do telefone esperando que um cara ligasse depois de um encontro. Nunca alguém deixou de a procurar depois de experimentá-la...
Quinze anos depois, sanidade mental-emocional sob controle com medicacao adequada, menina nao surta mais. Na verdade, muitos dos sintomas Borderline desapareceram. Nem sai mais de casa,  fora dois encontros fortuitos através do Tinder, nao tem se relacionado com ninguém.

03/03/2016

Da decisao

Vida besta mesmo. Aos 20 anos, namorara o poeta por uma eternidade, com infinitas idas e vindas. Sempre, nas separacoes, a certeza: um relacionameto sem futuro. Uma borderline e um dependente químico poeta, compositor, artista de teatro amador e dancarino de salao com aparencia esquisita, esquivo a qualquer norma social. Absolutamente incapaz de lidar com o ciume doentio dela. As crises, os surtos. Sem chance.
Quando moraram juntos, menina tinha a idéia de que nao quereria ser mae. Como anticoncepcionais nao combinam com antidepressivos e estabilizadores de humor, sugeriu a ele que pedisse a um de seus irmaos médicos que a operassem. Porque menina nao preenchia os requisitos legais para ser esterilizada ( dois filhos vivos e ter mais de 25 anos), cogitaram  uma vasectomia para ele. 
O irmao neurocientista falara: " Zé, voce ama essa menina e quer  ficar com ela para sempre, certo?Toda mulher quer uma hora ou outra ser mae. O relógio biológico é infalível, e, quando ele apitar, se nao for com  voce, ela  vai providenciar uma gravidez de qualquer forma.

Menina, nao dorme. Menina grávida chora convulsivamente por horas.
Grávida. Desempregada. Sozinha.
Entao engravidar é assim? Nao se  sente absolutamente nada nas primeiras semanas?
 Como nao percebeu a gravidez? Jamais teria pedido demissao. 
Coisa mais louca.

„Minha filha, o que está acontecendo?“
„ Acontece, mae, uma desgraca: estou grávida e nao poderei partir!“
„ Como assim, grávida, menina, voce nem sai de casa, nao ve ninguém há meses.“
„ Pois é, mas mes passado, uma única vez, revi o Zé. E agora que lhe comuniquei, ele desligou o telefone, quer nem saber“
„ Minha filha, vai lá na firma, pede seu emprego de volta, desiste de ir para fora de novo, fica aqui. Aqui cabe seu filho também!“
„ Ora, mae, voce sabe o que eu acho de criancas virem ao mundo sem serem desejadas e num ambiente nao planejado para elas. Nao quero parir alguém para ser infeliz, para sofrer as angústias de uma família disfuncional, as neuroses que temos nessa família.  Nunca quis deixar a ninguém o legado de nossa miséria emocional. Eu odeio minha vida, como poderia obrigar  isso ao meu filho. Além disso, meu acerto já saiu, a demissao já foi homologada, sem  chance de reaver meu emprego. Se ao menos ele, o cara, quisesse, eu ia querer. Eu sempre o adorei, embora drogado e no mundo da lua, tenho certeza de que se sairia bem.“


Segunda-feira de madrugada.
Quase amanhecendo. 
Nem terminou de fazer as malas
Nem sabe se vai.
Voo parte amanha às 12h30. Quarta feira na mesma hora estarei chegando na Suíca.
O aborto lá é permitido.
se nao tivesse pedido demissao de emprego.
Por que, por que essa gravidez passou despercebida?
Se o Zé  ao menos  atendesse ao telefone. 
Ele sabe que parto amanha para a Suica.
Se ele atendesse ao telefone. Se ele ao menos ligasse.

A Julia já fez um aborto em Zurich.  Corre no facebook: "Julia, como funciona o aborto aí na capital da Suica?"

"Norwegenplatz. €650,00" responde a amiga, com quem já nao tem mais qualquer contato.

Do resultado

Mais nove meses e desistiu da capital e da casa da mae. Demitiu-se do odioso emprego para partir mais uma vez.
Como pouco drama é bobagem na vida da  menina descontente, dois dias antes da partida, descobriu-se grávida.
Grávida. 35 anos, desempregada, sozinha. 
Gravida. Há mais de mes. Como assim? Nem desconfiou? Nunca nem lhe passara pela cabeca, afinal, tomara a pílula do dia seguinte, na manha seguinte, imediata àquele único encontro.
Aquele único encontro. Com ele: o passado. Avassalador. O passado avassalador vem avassalar um presente nada estável.
Desde que voltara,  telefonemas esporádicos houveram, mas ele nunca mostrara disposicao para um encontro.Ele gostava de ligar para menina depois da meia noite. Conversavam por longas horas. Ultimamente, compartilhava suas mais novas composicoes musicais.
Naquela noite, o dia mais fértil do mes anterior,  estava muitissimo libidinosa, sedenta de amor, amargando uma carencia afetiva e sexual colossal há meses...Como quem nao quer nada, mandou uma mensagem aleatória: " última chamada, para uma noite inesquecível".
Uma noite inesquecível. Hotel de luxo, pago pela menina, que o cara continua irremediavelmente duro como sempre. 
Uma noite inesquecível. Foi tao fluída e envolvente. Como se dez anos tivessem sido menos de uma semana. Assim que apareceu na frente dele, foi beijada como se  tivessem se visto no dia anterior.  
" Voce tá igualzinha!"
...A noite foi maravilhosa. Manha seguinte, menina estava serenamente contente e satisfeita. Queria prolongar esse sentimento que há muito nao sentia.
" Vamos para Pirenópolis?!"
" Tenho de passar em casa, pegar protetor solar"
Quando já estavam perto da casa dele: " Escuta, menina, deixemos essa vagem para o próximo fim de semana. Eu tenho de pensar isso tudo, esse encontro."
Nunca mais se viram.
Cinco semanas depois, como nao parava de vomitar, apesar de acreditar tratar-se de mais uma gastrite nervosa, menina compra um teste de gravidez de farmácia.
Casa da irma, depois do almoco, pessoal foi lá para a varanda. Menina corre ao banheiro, urina rápido no micro copinho provido no pacote do teste. 
Positivo.
Aos gritos, menina liga para ele.
" Eu nao tenho dinheiro nem para comer" diz ele, e desliga.
Menina corre para casa.  No caminho,  para na farmáca e compra mais dois testes. Diferentes marcas. Resultados identicos: positivo. 
My gosh, com que rapidez a segunda linha se forma. Os tres testes mandam esperar  minutos para fazer a leitura, mas em segundos a linha bombástica se forma, basta introduzir a fita na urina e lá está ela. A comprovacao do improvável. Do inadimissível: grávida. 
Entra no carro e sai  em busca dele. Sabe que  está la. Chama milhares de vezes ao portao, manda mensagens. Vizinhos aparecem curiosos, espera tres horas lá na porta da casa dele. Ele nunca abre.