Naquele sábado de incomum quietude na rua, a cachorrinha veio do quintal gemendo de dor, nem conseguiu chegar até
a casa: quedou-se no corredor em frente à janela de menina. Sem
conseguir andar, tentava se arrastar, mas era paralisada por uma dor
terrível e espasmos na altura do estômago. Uivava e latia pedindo
socorro.
A mãe
prendia bobes no cabelo de menina enquanto a irmã assistia à televisão.
-Corre
lá, irmã. Acode que a titilzinha
está em apuros.
Irmã
é difícil de se levantar do sofá.
Mãe
termina rápido de prender o último bobes e vão lá ver o que
acontece.
A
cadelinha parece ter sido envenenada. Encontram-na com a língua de fora, a babar,
com os músculos do corpo tensos, toda ofegante, respiração muito
alterada. Foi com certeza envenenada. Ou pela vizinha da direita, que
é um demônio e está sempre aprontando. Ou pode ter sido a
vizinha da esquerda, com quem houve uma briga recente, apesar da
amizade.
Irmã
acha que pode ter sido mordida de cobra. Quintal está cheio de mato e
lixo. Além de cobra, também já se viram lacraias lá. E lacraias
são tão venenosas quanto serpentes. Procuram pelo corpo inteiro uma mordida. Nada. Tadinha da cadelinha, tão magrinha. Com
muito custo sarou da hepavirose.
Dinheiro
para veterinário a família não tinha. Que essas coisas de petshop
só lá mesmo em bairro nobre.
-Se
deram veneno, bora fazer a lavagem gástrica nela.
-De
que jeito, minha filha?
-Uai,
igual faziam em mim quando tentei suicídio: enfiamos a mangueira,
essa ali mesmo do jardim, na boca dela, ligamos a água e deixamos correr.
Assim
fizeram, mas a cachorrinha não vomitou. Defecou, muito. Choro e
latidos terríveis continuavam. Menina pede à irmã para ir atrás
de carvão ativado. Enquanto isso, com uma seringa, dá mel para a
cadelinha. Mel é um santo remédio. Há de proteger o estômago.
Além disso, até aquele cara russo escapou de morrer envenenado porque
uma overdose de açúcar deve ter neutralizado a estricnina.
Cachorrinha, no desespero. Menina e sua mãe atordoadas sem saber o que fazer. Ela
vai morrer, pensam desoladas.
-Pega
aqui, mãe, dá para ela.
-Que
é isso?
-Esse
é aquele analgésico superpotente que eu te dou de vez em quando,
para aliviar a dor das costas. É o que há de mais forte no mundo. E
esse aqui é dos seus remédios de dormir.
-Dormir?
Sim,
mãe, ela dorme e não vê a dor, igual eu faço.
Exitante,
mãe concorda. Amassam os comprimidos, diluem e com seringa o remédio desce goela adentro.
Irmã
volta, sem o carvão ativado. Fica chocada com o que fizeram.
-Suas
doidas? Remédio de gente no cachorro!
-Ora,
eles testam remédios em animais.
-Em
ratos!
-Sim,
mas testam também em cães. Outro dia vi uma clínica fechada por
ativistas lá nos EUA.
O
animal permanece gemendo fraquinho, ofegante; os espasmos diminuem a
frequência, até que ela parece dormir. Os olhos, entretanto, nunca
fecham.
Menina,
chora, mãe de menina chora.
Duas
horas depois os latidos silenciam e ela repousa.
Mãe
acredita que ela amanhecerá morta.
Duas
da manhã, menina acorda e vai dar uma olhada nela. Eis que o
pequeno animal despertou, mudou de lugar. Ao ser chamada, veio andando, serelepe.