25/11/2016

A visita

Tenho um amiga querida que sempre procura me visitar. Aqui, nesse novo viarejo onde me enterrei, ela já veio duas vezes.
Nao pode vir ao casório, mas assim que saí do hospital, ela deu um jeito na vida estressante dela e achou um domingo para vir ficar horas sentada numa poltronina ao lado do sofá onde eu me deitara e ficara a chorar infinitamente meus descontentamentos.
Tadinha da pessoa, pens num ser querido e generoso. Gastr horas em transitos da capital até aqui, dezenas de euros em custo e ainda traz um presente para os nervos. Voce, iluminada, é o presente divino.

27/10/2016

A querida

A Preta foi minha única amiga de fato naquela cidade rural infernal.
Na época, também andei suicida e ela cuidou de mim.
A filha dela, queridissima. louquinha,  me adora e na época achara a solucao perfeita.
      "Luz, tu mora aqui com a gente, ok? Nesse quarto vazio lá, ó! Essa cama grandona lá, tu gostas?"
Ah , Maria fofa, tu és tao querida do meu coracao.
Ontem liguei para ela e contei da gravidez ectópica e chorei as pitangas.
Ela gostaria tanto que eu estiivesse ali pertinho dela, para ela cuidar de mim.
Pensa numa pessoa querida? É a preta, minha amiga!

A pele

Dezoito pontos na barriga, que era linda e definida.
Agora carrega as marcas similares à de uma cesarea,
de um filho que nao quis nascer.
Dores dos pontos cirurgícos;
cólicas do sangramento -piores que as do aborto (as cólicas e o sangramento);
dores da alma maiores que todas anteriores,
vários sintomas de uma gripe inoportuna.
Quando tosse ou espirra, os pontos cirúrgicos dilaceram.
Menina como centenas de chocolates num minuto.
Descontente, vomita.

Menina recebe visitas que mal lhe perguntam como vai.
Falam de si.
Falam de si, per si, de si.
Menina se pergunta para que vieram.

Visitas trazem chocolates "Für die nerven".
Menina precisa mesmo de um antidoto para os nervos.
Devora mais uma caixa de chocolates em segundos.
Uma visita sem nocao comenta que pele de menina está bonita.
Menina vomita.
...
Irma de menina manda dessas mensagens cliches no whatsapp recomendando "Sorria sempre, o rosto nao precisa demonstrar o que lhe vai no coracao"
Vomitos, mais uma vez

A visita

"Frida Kahlo,minha amiga, sua mae me visitou anteontem, em sonho.
Estava eu a dormir o dia inteiro,  e, de repente, do nada,  me desperto: eis ela de pé, à frente da cama, me observando.
- Uai, Matilde, como entrou aqui?
- Tive de pedir a um rapaz que arrombasse a porta, comentou ela na maior naturalidade- que lhe é peculiar. 
- Mas gente, pra que isso, Matilde!
-Porque já vim aqui essa manha tres vezes, toquei a campanhia milhares de vezes, e, como voce nao abriu... Estava a passar esse jovem, contei-lhe minha preocupacao e ele arrombou a porta.
- Uai, Matilde, o marido vai ficar furioso. Ele odeia que eu estrague qualquer  coisinha nessa casa."

No sonho, menina nao teve coragem de perguntar à mae da amiga como ficou sabendo do estado de menina, uma vez que Frida e sua mae perderam o contato há mais de ano. Desde que Frida mudou para a cidade do México, os desentendimentos se tornaram grandes obstáculos. 
Menina também ficara curiosa em saber como mae da amiga sabia de seu endereco.
No quarto, a visita sentou-se ao lado da cama , numa poltrona que nem se tem.
Na noite anterior à visita, menina havia discutido com a própria mae, que continua, Frida Kahlo, daquele mesmo jeito.
Na manha do sonho, menina passara muito tempo delineando como se suicidará dessa vez.


23/10/2016

lonely long Tag

Outro dia, a BBC  lancou resultado de pesquisa onde entrevistados apontaram os 50 hábitos que confirmam ser a pessoa  de classe. Alguns itens nao fazem parte do mundo de menina.  Dos outros, ticou mais da metade, but the more essenciais...

Ainda que anos de Europa tenham promovido certa mudanca em menina, ainda lhe falta o alicerce da verdadeira classe: ser delicada e leve.
Visceral, menina é uma tempestade, um tufao, uma  nunca, nunca uma brisa ou uma flor.
Aprendeu a respeitar os outros. Há tempos aprendeu as regras de bom compartilhamento de ambientes. Desde as estadias em Hostels, o couchsurf, a vida a dois,  ao dividir um quarto, evita de ligar  a luz se a outra pessoa está dormindo, tenta falar baixo, procura as coisas devagar tentando ser o mais quiet possível. Evita todo o tempo de atender o telefone e prefere se comunicar por mensagens no whatsapp.
Ainda assim, a colega do quarto 3103, setor de Ginecologia, cansou de  menina e armou um teatro na estacao das enfermarias, porque essa aí nao dá um minuto de sossego.
E menina achava que estava se comportando bem: usava headfones ao celular ou no computador, atendia muito brevemente as ligacoes e avisava à amigas e irmas que nao podia telefonar, mas que se escrevessem.
Entrementes, a colega de enfermidade achou demais uma companheira que recebe seis visitas por dia, que lhe trazem dezenas de chocolates, frutas, salgadinhos brasileiros feitos especialmente para ela, amiga querida que aparece oito da noite, cansada depois de um dia de trabalho, e faz uma escova em cabelo de menina.
E ainda tem o marido que ouve como um anjo os caprichos de menina melindrosa - que quer café. quer esse e esse creme, quer a cortina assim e assado, "pede à enfermeira um travesseiro extra para meus joelhos, sim querido. Agora, por favoor, meu bem, voce pode enrolar esse travesseiro nessa cobertinha assim como se fosse um rolo? Isso, perfeito, agora, poe aqui debaixo dos joelhos. Obrigada, meu amor, voce é um anjo."
E o querido, queridamente faz tudo por menina. Enquanto colega nao recebe nenhuma visita, nem por skype, nem mesmo telefonemas.
Depois do teatro, a outra descontente foi removida. Contente ficou menina, com um quarto inteiro só para si, sem ter de pagar a mais.
Nesse domingo solitário, viu o doce filme "The wife´s Bishop" e, agora mesmo, se sente muito leve e solta ouvindo madeleine Peyroux em alto e bom som - o qual enche esse quarto branco de hospital de calor humano.
Menina até deu uma dancadinha quando se levantou para buscar um chá.
Um olhar astuto teria notado que menina teve um leve movimento como se também flertasse com Engel Dundley do filme.
Porque é isso: all she needs is love. And be yourself. E que apesar de tudo, life keeps going.

Longo lonely Tag

Impulsiva.
Impaciente.
Espalhafatosa.
Estabanada.
Barulhenta.
Inquieta.

Enfermeiras, auxiliares e médicos sao tao doceis, tao gentis.
Menina sente a dor de assim nao o ser.
Já fez até aulas de etiquetas. Pegou emprestado, sem pedir, livros sobre o tema (porque aqueles que os tinham jamais admitiriam que os tinham: encontrava-os bem escondidos nas casas alheias).
Certa vez, quando cuidava da filha daquele milionário juiz, empresário e presidente de sindicato, achou uma colecao desses livros pretensos a ensinar aos novos ricos como ter classe.
Leu-os todinhos, mas chegou a conclusao que também o Dr Cesar - apesar dos milhoes, da mesa de mármore esculpida sob medida e dos conselhos da Pascolato- nao tinha  aquela "cara de rico", ou seja uma classe natural.
Menina, assim que retornou da Europa e foi morar naquele vilarejo rural, ficou conhecida lá por ter "cara de rica".  Quando menina ouviu por acaso as amiguinhas da sobrinha comentarem isso "Sua tia tem dinheiro, né? Aqui,  tem tantas coisas legais, e ela tem cara e jeito de rica"
O lisonjeio nao pode deixar de ser pecaminosamente apreciado, pois que menina sempre teve crises horríves com seu complexo de vira lata. Sempre teve ódio da cara de pobre e nunca esqueceu as dores  correlatas de ser a maltrapilha da escola, filha da lixeira (gari), moradora da favela...
A própria família sempre a achara diferente e metida a besta, a comecar pelos verbos que usava. Nao conjugava os verbos redondinhos por exibicao, era puro resultado de ser uma rata de biblioteca e a paixao por gramática.
(anos de convivio om expatriadas simples e desgosto pelo mundo,  nao se interessa por nada, nao le, nao se importa com a falta de acentos do teclado estrangeiro e nem se deu ao trabalho de conferir as novas regras da gramática. Alías, por amor às baianas e outras nordestinas, tem cada vez mais criado um sotaque peculiar, pois que tem uma facilidade de assimilar o modo de falar).
Talvez fosse a delicada porcelana branca em que servia o bolo com café da tarde para as amiguinhas, ou a linda saia lápis que lhe caía como uma luva no corpo em plena forma. A habilidade de andar de saltos altissimos e permanecer o dia todos neles sem perder a compostura.
Desde a adolescencia, complexada com a baixa estatura, nao dispensava um salto nem para ir à piscina, abencoado fossem quem inventou as plantaformas de plásticos.

22/10/2016

Oh boca

Volta e meia, depois do sexo, punha as pernas para cima, como recomendado por médicos -  ou pela sabedoria popular, nem sabe de onde vem isso e achava engracado.
Ultimamente vem fazendo várias coisas que achava sem sentiido.

Eis que um dia, marido notou (demora dias para notar um novo pijama) aquilo:

-Ioga?
- Ajudando o esperma a encontrar o óvulo.
-Hum
- Mas, por outro lado, se vence a corrida o favorecido pela lei da gravidade, estarei ajudando um tipo preguicosinho, sim? Porque deve vencer a corrida o mellhor. Contrariamos a lei da evolucao. 
-Hum
- Entao, nao sei ao certo se o ajudo ou deixo ao acaso... Mas eu já nao tenho 20 anos e voce 47. Fica a difícil escolha: kein Kind oder ein schwer lerner...
- Filho seu nao tem como ter dificuldade de aprendizado, Luz


-Aber ein lästig!
-Das ist sicher.
Devia ter ficado mais meia hora de perna para cima, porque o tal era mesmo preguicosinho e parou no meio do caminho, que pena. Preguicosinho ou nao já era tao amado.

21/10/2016

O crocodilo vingador

Desde o início, houveram muitissimas dores.
Vinha controlando os períodos férteis.E bem na data em que o abortado teria nascido, deu se provavelmente nova fecundacao 
Menstruacao atrasada, mas dois sucessivos testes de farmácia apontaram negativa. As dores vinham e se instalavam. Deviam ser  dores corriqueiras de TPM, atrasada pelas crises. Podia ser também mais uma gastrite, ou qualquer outra dor relacionada ao infinito estresse, 
Acostumada às diversas dores, menina foi ignorando mais essa no pé da barriga.
Até que na quarta feira, foi impossível.
Como se um crocodilinho tivesse ali se instalado e devorava entranhas de menina.
No meio da noite, foram para o hospital.
Pensaram ser uma apendicite, ou uma bexiga infecionda. Abriram menina e tanto apendice quanto bexiga e rins estavam intactos.
Cortaram mais a barriga para investigar. E foi entao que finalmente um ginecologista entrou na equipe e descobriu um embriao instalado na trompa esquerda.

"È um embriao já grande, talvez tenha de retirar o útero também, senhora descontente" - avisa a médica, indiferente ao turbilháo de choro e drama de menina.

"tu é quietinho mas me gerou um crocodilo voraz, hein maridinho" . O danado está a se vingar o outro e vai  levar toda e qualquer chance dela ser mae."

Menina pensou muito no abortado. Arrependeu-se desde sempre e nao lhe passou em branco a data que seria do nascimento.
Povo do norte nao lida com dramas e para tudo há remédio. Retirada a trompa, menina vem sendo medicada com calmantes e antidepressivos e tem consulta diaria com psicóloga.



14/10/2016

O que anda fazendo por aí


Apagou o facebook.

Meses atrás, fez uma faxina no famigerado site e excluiu toda pseudo-amizade com as quais nao houve qualquer contato há mais de seis meses.
Daí, do nada, uma pessoa solicita novamente amizade. Ao ser aceita, nem cumprimenta e já solta:
"por ande anda, menina".
 "voltei pra essa lado de cá"
" e o que andas fazendo por aí?"

Menina, mais enojada que descontente com abordagem pifia, ignora a pergunta.
Porque quem  indaga viu certamente as fotos do casamento, já sabe tudinho dos detalhes porque tem contato certo e continuo com amiga em comum de menina que está a par de tudo. 

Se ao menos a curiosa tivesse a desculpa de ser tímida e nao ser muito boa com comunicacao, mas qual, pessoa errou feio na abordagem. Porque é para isso que o facebook serve. para  exibir umavida pseudo perfeita e esculachar os outros. 
Poderia ter falado que ouviu e tem acompanhado aqui as novas aventuras, conta mais..." 





10/10/2016

A máquina de lavar

Dizem que o tempo apaga tudo. Mas a memória de menina, nao. Todo o passado, o presente, e imaginado futuro encontram-se lá. As dores correlatas rodam permanentemente na alma de menina. 
E menina tem o hábito de falar, falar, falar, falar como uma metralhadora, de tudo que se passa na cabeca. Fica remoendo de tal forma as desgracas que uma vez o ex marido, exausto de ouvir as ruminacoes, exclamou "por Deus, vc parece uma máquina de lavar em centrifucacao infinita"
Sim, a memória de menina é uma máquina de lavar com defeito,  que nao deixa retirar o que está lá dentro, mas sempre recebe mais e mais  load e fica tudo infinitamente lá dentro centrifugando. 
Girando louca e infinitamente, Tudo misturado, Todas os tipos, pesos, texturas, cores, os sabores, as dores e odores, tudo lá dentro rodando a mil.


Pane

No dia da casamento, durante a festa, uma crise de nervos. Choro que nao acabava mais.
(Deve ser o resultado do estresse estratosférico que foi cozinhar sozinha cum uma única santa amiga para cem pessoas; sozinhas mais o noivo cuidaram também da decoracao e da organizacao da recepcao informal com churrasco e buffet de salada. Sogra desgracada nao perguntou se menina precisava de ajuda nem pra fechar um zipper! No dia do casamento, menina teve de cuidar de vestir e arrumar o noivo ao invés de cuidar de si.  Sogra somente se limitava a abrir a boca  para criticar o absurdo da gastanca, onde ja se viu, festa pra uma multidao...).
Por eles, teria sido somente os noivos, os sogros, o cunhado e a namorada desse no restaurante depois do cartorio, sendo que noivo mal fala com irmao, e namorada do cunhado nunca nem tomou um café com menina.
Depois da festa, acordaram de madrugada para limpar tudo e devolver mesas, barril de chop, lanternas e luminárias, engradadados, copos, tacas, etc aos fornecedores antes de partirem para a lua de mel.
La de mel, foi tranquila, no adriático- agradável como sempre, apesar to tempo nublado. Até na hora da chuva deu-se para se relaxar na piscina aquecida do hotel. A nuvem interna dissolveu-se.
Depois da lua de mel, passou cinco dias limpando e organizando tudo. Arrependeu-se horrores de ter inventado o churrasco. Se ao menos marido nao tivesse sido muquirana e tivesse contratado os dois garcons que menina tanto queria para cuidarem do buffet. 
Buffet self service abandonado às boas ou más maneiras dos convidados: houve caos.  250 jogos de pratos e talheres descartaveis foram insuficientes para 100 pessoas, porque elas nao separavam direito. 
Quando vieram criticar menina do caos instalado, veio a crise. Depois de chorar escondida por horas no banheiro, menina voltou à festa e dancou para espantar os fantasmas do descontentamento. Tarde da noite, maioria do povo já partira, de tao bebado, houve caos, mas houve mais fartura que desordem, e todos sairam mais encharcados que o bob esponja se assim lhes apeteceu.

Desde entao, ao invés de estar feliz,  vive muito depressiva, com pensamentos suicidas.
O remedinho acabou mas nao tem como comprar mais pois nao tem receita e nao pode ainda ir ao médico. Nao tem plano de saude ainda porque estao à espera da burocracia que validará  os documentos para ser cossegurada com dignissimo esposo que a partir de agora, até que a morte os separe, assumiu astoicamente a responsabilidade pela vida da descontente.
....
Dignissimo esposo, que paga as contas, inclusive pode comprar qualquer coisa no supermercado e na loja de cosmético que ele faz questao de pagar. Apesar da fama de avarento, o esposo tem sido generoso. Nem dinheiro para os drinks e o cinema na lady night negou à menina.
Acontece que ele, esportista, introvertido  e com apatia social, nunca foi de ir ao cinema. mal bebe uma cerveja muito raramente e nao toma café. Assim, esse amor de menina descontente por cafeterias e cinemas  faz muito agrado nao ao dignissimo. 

Quando se conheceram, perguntou à menina " Que procura?" Sem titubear, ela respondeu que procurava um homem que a sustente, a ame, lhe de um filho e cuide dela, principalmente nas panes mecanicas de carro - nao quer nunca mais ser enganada por essa categoria nojenta de homens.

Casaram-se em tempo recorde para surpresa dos amigos, e desaforo à família.

16/08/2016

Portas

Na cabeceira da cama, um lindo cartão da adorável ex sogra: Desejo lhe que encontre portas que se abram, ainda que pareçam cerradas".

Todos os dias, antes de dormir, menina escreve no livro da gratidão (recomendado pela ex sogrinha, e, anos antes, pela psicóloga maravilha que teve no Caps) para criar um novo hábito de se concentrar no que deu certo e no que tem. Quando não há novidades, agradece por ter casa, saúde, família e todos estão bem.
Escreve também na agenda da reforma íntima.  Lê o cartão, e se lembra de tudo que viveu, das portas que se abriram.
E se permite sonhar com novas portas e caminhos.

a lavadeira

Noutra vida, com certeza, foi dessas escravas que lavavam roupa na beira do rio. Daquelas que quaravam a roupa até ficarem imensamente brancas.  Só pode ser isso, porque a única coisa que faz bem na vida é cuidar que a roupa esteja limpa. Infernizou os filhos e hoje inferniza a neta para que não suje a roupa demais, para não encardir.
Lava roupa todo dia, várias vezes. Faz questão  de lavar várias na mão para ter do que reclamar "to cansada, esfreguei a roupa toda na mão".
Esfregou porque quis, já que para isso existe máquina.
Na infância, esfregava roupa muito suja no nariz de menina, para que a criança aprendesse que uma roupa imaculada era mais importante que brincar e ser feliz naquela miséria extrema de bairro sem asfalto, casa sem piso, quintal de poeira esvoaçante, onde já se viu brincar sem sujar?

Além de se ocupar da lavanderia, outra habilidade excepcional é mandar gente embora.
" toda sexta feira, minha neta, melhor ir embora para a casa da sua mãe e me dá um pouco de paz"
No passado, era:  VOU SUMIR E DEIXAR VOCÊS AQUI POR CONTA DE SEU PAI. PODE PEGAR AS TROUXAS E IR LÁ PARA A CASA DELE"

SER MANDADA EMBORA SEMPRE FOI O INFERNO. Menina cresceu com esse sentimento infinito de não pertencimento, se ser tal qual um cão escorraçado.

Mas sempre voltava. Ia morar com namorado, com o pai, com a meio irmã, com o marido, mas sempre voltou. Nunca fechou as portas. Sempre voltou para esse não-lar ao qual nunca sentiu pertencimento.

Conselho sábio de amiga querida:

"pois é, tem que deixar essa bobagem de querer salvar os outros".

23/06/2016

Despedida

- Vou sentir sua falta.
Eu, a sua... 
Desculpa ter contado várias coisas assim de supetão,  mas você sempre foi meu grande amigo e ficou esse gap na amizade. Sei lá, precisava muito lhe contar.
Naquele tempo, que a gente passava madrugadas na porta da sua casa,  eu deitada no seu colo, você tendo de ser meu grande amigo e conselheiro para assuntos masculinos....Você era tudo para mim naquela época. Talvez não do jeito que você o desejasse - nem  se contestava o  friendzone ainda  -  mas você não tem ideia de como me salvou muitas vezes. 
Eu morria de admiração pelo seu inglês cem por cento autodidata, mas eu que fui embora. 
Quando retornei, rasgada pela brutalidade em que se encerrou aquela etapa da minha vida estrangeira,  a gente ensaiou algo, mas não deu. Era a pior fase da minha vida...Tentei me reconciliar com o Brasil, com tudo, até lhe disse, lembra? 
Comentei, em tom de troça, que voltara para fazer as pazes: as coisas não deram certo por lá, porque, conforme os ensinamentos da Seicho no ie,  eu deveria me reconciliar: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra. Quando se efetivar a reconciliação com todas as coisas do céu e da terra, tudo será teu amigo." 

Eu  era a fera ferida em carne, e me apegava a esse mantra para não afogar na minha dor Queria reconstruir. Acreditei profundamente que se eu me reconciliasse com meu pai, minha mãe, meu bairro, meu complexo de vira lata, e aquela situação perfeitamente pontuada por Kurt Vonnegut: "I still catch myself feeling sad for things that dont matter anymore", ...
- Reconcilia-te comigo então! Você colocou just in time. E ensaiamos uns passinhos noutra esfera.
... Mas eu tenho um transtorno mental. Volta e meia sou incapaz de ter uma vida normal.  Até eletrochoques me deram naquela clínica de primeiro mundo. Meus relacionamentos são avassaladores. As pessoas saem feridas. Eu estou muito frágil. 
- Você não tem noção do quanto admiro a sua inteligencia!
Eu me desperdicei. Por conta dos surtos, eu perdi muitas chances. Eu me sinto fracassada. Eu gostava mais da outra eu.  Aquela que desbravava o próprio caminho. Não dessa que vai se casar por conveniencia, porque a vida não tem sentido, mas nunca pude deixar de ser e é melhor presentear alguém com minha existência, e além disso, porque às vezes é como uma menininha que precisa de alguém para tomar conta. Pensa, eu que era uma feminista quase extrema, super emancipada, que ía de motinha á noite para outra cidade pegando a BR 153! Eu mesma não acredito que essa eu e aquela possam ser a mesma pessoa. 
- Tenho certeza de que irá recuperar muita coisa ainda e terá bons resultados.
Eu só quero recuperar uma coisa: uma eu que devia ter sido e não foi. Não tenho mais aquela ambição de conhecer todos os países do mundo. Talvez eu nem viaje mais. Acredite, sou outra. Eu sempre fui a favor do aborto, mas eu nunca achei que chegaria o dia de fazer um, porque sempre me preveni. Tendo acontecido do jeito que foi, estou dilacerada.
-  Mas vai passar. Na vida, às vezes,  tomamos decisões ímpares,  mas está tudo certo. 
Sim, tem razão.
- Espero que um dia possa ir visitá-la.
Sim, claro, meu querido, que poderá ir sempre me visitar,  meu amigo.
- Sempre estarei aqui por você.
No, please dont! Não faça isso consigo.


05/06/2016

Analgésicos e soníferos

Naquele sábado de incomum quietude na rua, a cachorrinha veio do quintal gemendo de dor, nem conseguiu chegar até a casa: quedou-se no corredor em frente à janela de menina. Sem conseguir andar, tentava se arrastar, mas era paralisada por uma dor terrível e espasmos na altura do estômago. Uivava e latia pedindo socorro.
A mãe prendia bobes no cabelo de menina enquanto a irmã assistia à televisão.
-Corre lá, irmã. Acode que a titilzinha está em apuros.
Irmã é difícil de se levantar do sofá.
Mãe termina rápido de prender o último bobes e vão lá ver o que acontece.
A cadelinha parece ter sido envenenada. Encontram-na com a língua de fora, a babar, com os músculos do corpo tensos, toda ofegante, respiração muito alterada. Foi com certeza envenenada. Ou pela vizinha da direita, que é um demônio e está sempre aprontando. Ou pode ter sido a vizinha da esquerda, com quem houve uma briga recente, apesar da amizade.
Irmã acha que pode ter sido mordida de cobra. Quintal está cheio de mato e lixo. Além de cobra, também já se viram lacraias lá. E lacraias são tão venenosas quanto serpentes. Procuram pelo corpo inteiro uma mordida. Nada. Tadinha da cadelinha, tão magrinha. Com muito custo sarou da hepavirose.
Dinheiro para veterinário a família não tinha. Que essas coisas de petshop só lá mesmo em bairro nobre.
-Se deram veneno, bora fazer a lavagem gástrica nela.
-De que jeito, minha filha?
-Uai, igual faziam em mim quando tentei suicídio: enfiamos a mangueira, essa ali mesmo do jardim, na boca dela, ligamos a água e deixamos correr.
Assim fizeram, mas a cachorrinha não vomitou. Defecou, muito. Choro e latidos terríveis continuavam. Menina pede à irmã para ir atrás de carvão ativado. Enquanto isso, com uma seringa, dá mel para a cadelinha. Mel é um santo remédio. Há de proteger o estômago. Além disso, até aquele cara russo escapou de morrer envenenado porque uma overdose de açúcar deve ter neutralizado a estricnina.
Cachorrinha, no desespero. Menina e sua mãe atordoadas sem saber o que fazer. Ela vai morrer, pensam desoladas.
-Pega aqui, mãe, dá para ela.
-Que é isso?
-Esse é aquele analgésico superpotente que eu te dou de vez em quando, para aliviar a dor das costas. É o que há de mais forte no mundo. E esse aqui é dos seus remédios de dormir.
-Dormir?
Sim, mãe, ela dorme e não vê a dor, igual eu faço.
Exitante, mãe concorda. Amassam os comprimidos, diluem e com seringa o remédio desce goela adentro.
Irmã volta, sem o carvão ativado. Fica chocada com o que fizeram.
-Suas doidas? Remédio de gente no cachorro!
-Ora, eles testam remédios em animais.
-Em ratos!
-Sim, mas testam também em cães. Outro dia vi uma clínica fechada por ativistas lá nos EUA. 
O animal permanece gemendo fraquinho, ofegante; os espasmos diminuem a frequência, até que ela parece dormir. Os olhos, entretanto, nunca fecham.
Menina, chora, mãe de menina chora.
Duas horas depois os latidos silenciam e ela repousa.
Mãe acredita que ela amanhecerá morta.
Duas da manhã, menina acorda e vai dar uma olhada nela. Eis que o pequeno animal despertou, mudou de lugar. Ao ser chamada, veio andando, serelepe.

29/05/2016

Noutra direção

Dorme mal.
Às vezes, nem dorme.
Pensa sempre na solidão.
Sente saudade de tudo.
Sente falta de tudo que não tem.
De tudo que teve e perdeu.
E,principalmente, saudade daquilo que devia lhe pertencer mas nunca nem existiu.
(pelo menos não no seu mundo).
Não se ama nem um pouco.
Na verdade, se odeia. 
Porque é uma fracassada.
Porque levou à destruição daquele casamento interessante.
Porque é uma neurótica.
Porque não fica contente com o que tem.
Porque está atormentando o namorado com suas infinitas neuroses.
Porque os outros são desorganizados.
Porque fica nervosa que os outros não mantenham a casa perfeitamente organizada.
É obcecada por ordem. 
Primeira coisa que faz quando levanta é arrumar a cama.
A cama é grande e vazia...

Segue noutra direção.
Ninguém a espera.
Em espiríto muitos a acompanham. 
Ou ela os persegue, Infinitamente. 
A mental stalker. 
Nunca consegue deixar.
Nunca abre mão daquilo que se foi.
Uma abstinencia colossal.
As misérias, as dores, as feridas, os insucessos, os erros, tudo se repete, se repete,se repete

28/05/2016

Arremeço

Fica sabendo que a sobrinha (dez anos, criada pela avó, e pela tia, quando essa mora com a mãe) jogou uma tesoura na amiguinha. Melhor amiga. Porque essa criticou as fotos da viagem ao litoral. Registros lindamente revelados num livro mais caro que as passagens aéreas. Foi a primeira vez que a sobrinha voou e a primeira vez que viu o mar.
Filho de peixe, peixinho é, diz a sabedoria popular: avó da menina sempre foi de arremessar coisas. Se chegasse em casa com a pá virada, jogava pratos e qualquer outra louça suja na menina e nos irmãos.
Um vez  jogou a tesoura no filho. Pegou de raspão na barriga dele e fez um corte raso na altura do fígado. Menina ficou chocada e desde aquele dia teve certeza de que a mãe era louca. 
O imão era louco também: vivia espancando menina, mais nova que ele. Uma vez trincou algumas costelas dela, o que a impediu de ir à aula porque não podia sentar-se. E a escola era tudo que a menina amava na vida. Nunca perdoou o irmão. Tão pouco a professora do pré alfabetizacção deve te-lo perdoado:  porque em 30 anos de sala de aula - às vesperas da aposentadoria- deve ter sido a primeira vez que ela teve um aluno capaz de lhe dar um soco no estomago. Um muleque maltrapilho, anêmico e mirrado enfrentar uma professora enorme de gorda, tamanho e personalidade.
E a tia? Já jogou tesoura também? Tesoura não, mas já perdeu a conta de quantos celulares já destruiu arremessando-os no par que a irrita ou desaponta, em suas muitas crises de ciúmes ou de carência. Depois de muita terapia, parou de jogar coisas nos outros, mas joga nas paredes, quebra as portas do quarto e do guarda-roupa, esmurra a janela até ferir-se.
Onde quer que habite, paredes são riscadas  e rasgadas por porta retratos, celulares, sapatos, livros, facas. Menina esfaqueia a parede quando tem impulso de se cortar. E martela móveis quando dos ímpetos de martelar a própria cabeça para aquietar as angústias monstruosas de auto-ódio e solidão.
Tadinha da sobrinha, compadece a tia dela, se aos dez anos já atira tesoura na amiguinha, vai ser o caso borderline mais grave da família. Menina chora. Menina tem feito tanto pela sobrinha. Quer poupá-la da doença mental-emocional que acomete a família. Mas como?
Diz a bíblia que as pragas e maldições duram até a quarta geração. Menina não acredita nem na bíblia nem em gnomos de jardins, (embora sinta espíritos obsessores ao seu redor: tais entidades são certamente partículas de sua própria essencia imaterial defragmentada, que o corpo petit não suporta).
Falando nisso, o gato, ah o gato a conhece. Nesses dias de defragmentação, ele a vê e sai correndo na velocidade  da luz.
E a quantas gerações essas doenças se transmitem? Menina não sabe ainda se é genético ou se é adquirida. Quem nasce, cresce e vive numa casa louca, louco  há de ser.
Menina especula se a doença se intensifica  ou ameniza a cada geração. Avô alcolatra matou mulher recém parida. Mãe não é de beber, mas no natal abre um garrafão de cinco litros de vinho barato e o bebe em poucas horas, fica alegrinha, alegrinha. Depois chora pelo filho que morreu, pela filha menina louquinha, pela miséria material que sobreviveram, chora porque a odeiam.
E, quando nas discussoes, filhas lamentam da miséria emocional que foi ser criada por uma mãe atormentada, essa revida gritando; " Sim, que mãe  horrível eu fui. Melhor era eu ter vivido de bar em bar, pouco me importanto se estivessem limpos e alimentados". Abster-se do alcool deve ter sido a suprema conquista da matriaca borderline.

27/05/2016

A criolina

Sabe da admirada característica de parecer mais nova. Algo muito valorizado por todos, principalmente por ser mulher. Mas não que seja bonita. Não, não é bonita.
Tem o rosto cheio de cicatrizes. Rosto de menina que trabalhou na lavoura de tomate daquela grande fábrica de ketchup, que tinha como garota propaganda aquela famosa apresentadora loura de pernas muito compridas e shortinhos muito curtos.
Tem espinhas até hoje, com quase quarenta. E a cada espinha, um novo pontinho preto seguido de poros abertos para sempre. Disputam espaço com vulcões faciais.
Mais tarde, trabalhou de agente de pesquisa e nunca tinha ouvido falar de protetor solar. Ou, se ouvira, entrou por um ouvido e saiu por outro. Coisas que não fazem parte da vida da pessoa, são filtradas. Se não tivesse passado pelo filtro da ignorância, menina teria usado chapéu ou boné mais protetor solar fator máximo. Ou não, o fator 30 teria bastado: especialistas dizem que acima desse fator é somente saturação. Não adianta colocar dez colheres de açúcar no café. Depois de algumas, ele vai ficar com fundo de saturamento. Os fatores a mais do FPS seriam perda de dinheiro e ilusão.
Um dia, entrou correndo pelo quintal da amiga. Na véspera, a mãe dela tinha colocado um novo arame farpado para estender roupas e o fio rasgou a cara de menina em vários pedacinhos. Depois de anos, as cicatrizes dos cortes ainda estão ali.
Além de ter trabalhado ao sol, nadava tardes inteiras no córrego bosteirinho da fazenda Caveirinhas.
Nessa fazenda, morriam-se pessoas e coisas de modo curioso. Certa vez, caiu um raio que partiu um enorme árvore em pedaços e matou três jovens trabalhadores rurais que estavam a caminho de casa no fim do dia. Desde esse dia, menina tem medo de raio.
Depois, vieram as vacas mortas. O gado começou a morrer misteriosamente naquela propriedade que delimitava o meio rural e a expansão urbana na capital. Diziam que eram os espíritos das pessoas assassinadas a mando do fazendeiro. No conflito da invasão das terras dele por uma multidão desesperada de miseráveis que não tinham onde morar na capital.
Maioria dessas pessoas depois conseguiu um lote quando o governador regularizou a vila com finalidade de expurgo social. Fruto do extremo exido rural no começo dos anos oitenta do século vinte, essa população deveria manter a cara feia de famigerados longe do lindo centro planejado e de seu passeio público no Lago das Rosas.
O bairro já era um dos mais populosos da capital naquela época. Muita gente passava fome. Na casa de menina não faltava arroz e feijao. Tinha couve e mandioca no quintal.
fonte: google https://www.google.com.br/search?q=puxar+agua+no+sari&espv=2&biw=1366&bih=637&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj2-8-Q0_vMAhWGDJAKHUqYCJcQ_AUIBigB#imgrc=RGywknkWpnkqkM%3A
Puxava-se água da cisterna no braço, que dinheiro para uma bomba somente muitos anos depois. De vez em quando, a mãe comprava um pintinho na feira e se ele 
comesse formiguinhas suficientes e fosse esperto o bastante para não ser roubado, ele um dia viraria frango na panela, o que muito doía na menina, que se apegava aos pintinhos como animais de criação.
Para agravar o sofrimento da filha, ela matava a ave por estrangulamento, pegava o bichinho pelo pescoço e o rodopiava no ar infinitas vezes. Menina chorava de dó.
- Sai, pra lá menina, se ficar com pena, a galinha não morre.
- Tadinho, mãe!
- Quero ver se vai ficar com dó na hora de comer.
E menina esquecia. Porque carne era bom. 
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
O povo, entrementes, inclusive a menina e seus irmãos, foi correndo lá com carrinhos de pedreiros.  Acotuvelavam-se e se empurravam na tentativa de arrancar um narco daquela fartura para si. Aquela fartura que não servia nem para urubus.
- Mas mãe, a Dona Zefa falou que essa carne aí não presta, que tem um treco aí na vaca.
- Eu lavei com vinagre e bicabornato de sódio e marinei com bastante limão a noite toda. Depois, fritei muito bem. Pode comer, se quiser.

O que não mata, fortalece. Diz o ditado. Até hoje menina não sabe para que jogaram criolina na carne. Tantos anos depois, ainda não sabe.
- Mãe, para que jogaram criolina naquela carne?
- Você está se lembrando disso para que, menina?
- Porque eu sempre me lembro, mãe. Lembro-me de que comemos uma carne imprópria até para os abutres.
Até hoje menina não sabe para que serve a criolina. Nem vai ao Google descobrir. Pode ser que servia para evitar a decomposição. Estará ainda hoje atuando em seu corpinho, agindo como mais um de seus anti-idade?




A criolina

Sabe da admirada característica de parecer mais nova. Algo muito valorizado por todos, principalmente por ser mulher. Mas não que seja bonita. Não, não é bonita.
Tem o rosto cheio de cicatrizes. Rosto de menina que trabalhou na lavoura de tomate daquela grande fábrica de ketchup, que tinha como garota propaganda aquela famosa apresentadora loura de pernas muito compridas e shortinhos muito curtos.
Tem espinhas até hoje, com quase quarenta. E a cada espinha, um novo pontinho preto seguido de poros abertos para sempre. Disputam espaço com vulcões faciais.
Mais tarde, trabalhou de agente de pesquisa e nunca tinha ouvido falar de protetor solar. Ou, se ouvira, entrou por um ouvido e saiu por outro. Coisas que não fazem parte da vida da pessoa, são filtradas. Se não tivesse passado pelo filtro da ignorância, menina teria usado chapéu ou boné mais protetor solar fator máximo. Ou não, o fator 30 teria bastado: especialistas dizem que acima desse fator é somente saturação. Não adianta colocar dez colheres de açúcar no café. Depois de algumas, ele vai ficar com fundo de saturamento. Os fatores a mais do FPS seriam perda de dinheiro e ilusão.
Um dia, entrou correndo pelo quintal da amiga. Na véspera, a mãe dela tinha colocado um novo arame farpado para estender roupas e o fio rasgou a cara de menina em vários pedacinhos. Depois de anos, as cicatrizes dos cortes ainda estão ali.
Além de ter trabalhado ao sol, nadava tardes inteiras no córrego bosteirinho da fazenda Caveirinhas.
Nessa fazenda, morriam-se pessoas e coisas de modo curioso. Certa vez, caiu um raio que partiu um enorme árvore em pedaços e matou três jovens trabalhadores rurais que estavam a caminho de casa no fim do dia. Desde esse dia, menina tem medo de raio.
Depois, vieram as vacas mortas. O gado começou a morrer misteriosamente naquela propriedade que delimitava o meio rural e a expansão urbana na capital. Diziam que eram os espíritos das pessoas assassinadas a mando do fazendeiro. No conflito da invasão das terras dele por uma multidão desesperada de miseráveis que não tinham onde morar na capital.
Maioria dessas pessoas depois conseguiu um lote quando o governador regularizou a vila com finalidade de expurgo social. Fruto do extremo exido rural no começo dos anos oitenta do século vinte, essa população deveria manter a cara feia de famigerados longe do lindo centro planejado e de seu passeio público no Lago das Rosas.
O bairro já era um dos mais populosos da capital naquela época. Muita gente passava fome. Na casa de menina não faltava arroz e feijao. Tinha couve e mandioca no quintal.
fonte: google https://www.google.com.br/search?q=puxar+agua+no+sari&espv=2&biw=1366&bih=637&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj2-8-Q0_vMAhWGDJAKHUqYCJcQ_AUIBigB#imgrc=RGywknkWpnkqkM%3A
Puxava-se água da cisterna no braço, que dinheiro para uma bomba somente muitos anos depois. De vez em quando, a mãe comprava um pintinho na feira e se ele 
comesse formiguinhas suficientes e fosse esperto o bastante para não ser roubado, ele um dia viraria frango na panela, o que muito doía na menina, que se apegava aos pintinhos como animais de criação.
Para agravar o sofrimento da filha, ela matava a ave por estrangulamento, pegava o bichinho pelo pescoço e o rodopiava no ar infinitas vezes. Menina chorava de dó.
- Sai, pra lá menina, se ficar com pena, a galinha não morre.
- Tadinho, mãe!
- Quero ver se vai ficar com dó na hora de comer.
E menina esquecia. Porque carne era bom. 
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
O povo, entrementes, inclusive a menina e seus irmãos, foi correndo lá com carrinhos de pedreiros.  Acotuvelavam-se e se empurravam na tentativa de arrancar um narco daquela fartura para si. Aquela fartura que não servia nem para urubus.
- Mas mãe, a Dona Zefa falou que essa carne aí não presta, que tem um treco aí na vaca.
- Eu lavei com vinagre e bicabornato de sódio e marinei com bastante limão a noite toda. Depois, fritei muito bem. Pode comer, se quiser.

O que não mata, fortalece. Diz o ditado. Até hoje menina não sabe para que jogaram criolina na carne. Tantos anos depois, ainda não sabe.
- Mãe, para que jogaram criolina naquela carne?
- Você está se lembrando disso para que, menina?
- Porque eu sempre me lembro, mãe. Lembro-me de que comemos uma carne imprópria até para os abutres.
Até hoje menina não sabe para que serve a criolina. Nem vai ao Google descobrir. Pode ser que servia para evitar a decomposição. Estará ainda hoje atuando em seu corpinho, agindo como mais um de seus anti-idade?




26/05/2016

Melindres mil

Mais uma vez emburrada. Menina houve vídeos no you tube indiferente se o volume afeta-o de assistir à TV. Ele aumenta o volume. Ela faz o mesmo. Ele vai deitar se com a cabeça aos pés da cama, para aproximar-se da televisão e para afastar-se, psicologicamente, da menina.
Ela decide colocar o fone de ouvido.  Ele, como sempre, adormece. 
Cansada da internet, decide acordá-lo. Mesmo com beliscões nao consegue.
Dá-lhe uns tapas na panturrilha e começa a chorar.
-Que  foi?
- Você me abandonou!
- Como assim?
- Buá, me abandonou sim. Me deixou aqui sozinha!
- Herrje,  eu estou bem aqui.
- Sim, mas me abandonou aqui sozinha. Você sabe que eu odeio TV no quarto. Casais sem o aparelho no quarto convivem muito mais.
- Mas  você que ligou o computador antes, na maior altura. Perguntei se você queria escolher um filme...
- Não queria filme nem computador. Queria você aqui comigo.
- Menina, menina, às vezes eu me pergunto se você tem 35 anos ou só cinco.
Ela cai num choro desesperado, o abraça, interrompe o soluço, mas não as lágrimas e lhe diz num lindo sorriso de criança mesmo:
- Exatamente! Você está começando a perceber a minha verdadeira essência.
Ele a envolve em seu abraço musculoso e peludinho, que ela ama seu peitoral cabeludinho. Ele lhe afaga os cabelos até ela adormecer.

A cachoeira

Um dia, a tediosa rotina mudou um pouquinho. Nao fora para a capital mas nao se entupiu de remedios para dormir e portanto estava acordada quando Maria, a  faxineira do banco, a unica pessoa do  ambiente de trabalho com quem efetivamente puderam estabelecer amizade, apesar da estranheza dos colegas, devido a uma separacao clara das classes ali. 
Mas, voltando, a menina e a  Maria se fizeram amigas.  No dia em que a descontente tentara mais uma vez o suicidio engolindo uma overdose de paracetamol, Maria cuidara dela como uma mae ultra zelosa. Desde entao a amizade se fortaleceu e se visitam mutuamente. E Maria vivia pensando em como ajudar a amiga a sair dessa fossa profunda.
Ai, naquele dia que a menina permancera na cidade, Maria ligou e a convidou para ir a cachoeira. Ali na currutela ao lado, horinha e meia de viagem. E foram. Ah, como ficara contente a menina. Adora mato e cachoeira, e sair de casa, e a amiga, e a filhinha da amiga. Que domingo bom que seria.
E foram, e nadaram. A sobrinha estava aqui com a tia. As quatro se divertiam muito na agua. O marido da amiga nao entrara na agua, so as observava, e tirava foto.

25/05/2016

O dia que se salvou

Amanheceu muito  triste em seu trigésimo sexto aniversário. Não que se preocupasse que agora esteja mais para quarenta do que para trinta, Mesmo porque, curioso mistério, parece no mínimo dez anos mais nova. Talvez pareça tão jovem porque não teve filhos, nunca teve de ficar acordada noites inteiras pelas enfermidades ou desconfortos infantis. Volta e meia não trabalha, dorme 20 horas diárias. Queda-se dias inteiros sem sair da casa e não recebe um único raio de sol. Mas chora copiosamente-  até mesmo por qualquer besteira, melindrosa que é. Será que suas lágrimas tem alguma substancia com poder rejuvenecedor?
Ou pode ser que a cara jovem seja reflexo da alma imatura aliada à boa alimentação e dos exercícios que pratica intensamente nas fases positivas. Além disso,  não toma refrigerantes nem sucos industrializados, tampouco come salgadinhos ou frituras. Adora peixes e frutos do mar: é requisitadíssima para preparar aquela Paella. Duas vezes por semana não come carne para dar um descanso ao estômago. Nao deixa escapar uma oportunidade de comer japonês.  Adora comidas do mundo inteiro: aprendeu a fazer deliciosos pratos árabes, indianos, tailandeses, chineses, mexicanos, mediterraneos, italianos, norte europeu, brasileiros, etc. A infinidade de ingredientes a faz sentir uma bruxa quando tem de escolher alguns de seus diversos temperos e vai jogando na panela assim por experimentação, sem receita; ama misturar canela, paprika e curry com tudo. Com certeza essa miscelania traz uma variedade eficiente de nutrientes e minerais.
Pratica religiosamente  home spa  - com coisas simples - da cabeça aos pés: faz máscara de argila verde com leite de magnezia e azeite de oliva para desencardir o rosto, hidrata com aquela famosa pomada antiassaduras adicionada de  glicerina e bepantenol, aplica máscara de iogurte natural ou coalhada no rosto, corpo e cabelo, toma litros de chá sem açúcar para substituir a compulsão por comida. Exceto chocolate,  devora-os aos quilos quando muito triste, dando preferencia para os de mais cacau e menos leite e acúcar, mas volta e meia  come um bolo inteiro.
Retira maquiagem com extra virgem óleo de coco ou azeite de oliva, aplica óléo de argan, glicerina e pantenol puro em quase tudo, nao usa produtos com sulfatos, silicones e parafina, esfolia a face com mel, açúcar, borra de café no sabonete glicerinado caseiro feito por ela mesma. 
Aplica ainda rodelas de tomate embebidos no leite, ou pepinos ou bolsinhas de chá de camomila nas olheiras. Usa tres camadas de protetor solar:  um creme pra remover manchas constantes que aparecem, um protetor solar fator 70 com cor que serve de prime, e uma leve maquiagem sempre com protetor solar.
Tais camadas de protetor solar refletem tão efetivamente a luz que nas fotos mais parece fantasiada de gueixa. Uma gueixa singular com a cara branca  e braços e pernas morenas à mostra. Nenhuma foto da adorável noite de seu aniversário se salvou, todas com cara branca, mas não apagou nenhuma, pois serão lembranças de um dia que que salvou tão singelamente.
Apesar de ter amanhecido muito triste, de ter brigado por qualquer coisa, de ter chorado horas porque não tem mais nenhuma amiga, porque o namorado esqueceu da data e não lhe desejou  nada até a hora do almoço quando foi alertado pela mãe,  apesar de tudo, menina esteve contente.
Passou a tarde no shopping presenteando se com cosméticos, distraiu-se e se esqueceu das crises existencias.  Ajudou a mãe a lhe presentear com aquele perfume  quase barato de nome e aparencia glamourousos que todo mundo adora nela. Chegaram em casa exaustas de baterem perna. Nem deu tempo de tomar banho, a irmã mais velha apareceu de surpresa. Nâo havia preparado nada, nem ia jantar. Resolveu abrir aquele vinho especial e pediu uma pizza família. Irmã mais nova, ao saber da pizza, avisou que estava a caminho.
E assim, foi um dos aniversários mais gostosos, bem cozy. Tão diferente daqueles tantos outros marcados por mais uma tentativa de suicídio.



24/05/2016

Espiral


Diz-se que errar não é estupidez.
 Estupidez é não aprender com os erros.
E ainda mais estúpido é repetir o erro.
E de novo. E de novo, E mais uma vez.
Assim, menina se sabe muito estúpida.
Porque não aprende com os erros.
Só aprende com a experiencia extrema mesma. Tem de sair ferida realmente, para mudar algo. Talvez. E apenas temporariamente.

Então tudo se repete. Tudo se repete.
 A cabeça gira, menina sente vertigens.
Nada metafórico. Sua alma vive dentro de uma espiral tridimensional que gira, gira, gira.
Tudo se repete. E isso é muito chato.
Os mesmos dramas e excessos.
Nada que traga surpresas.
Principalmente a ela mesma.

Finalmente ela se empenha. De se dar algo novo. Até que esse novo se torne entediante também.
E então tudo começa de novo. Novamente. Mais uma vez. E de novo.

Tempo borderline

Foi o inverno mais quente dos últimos 250 anos. 
A primavera mais fria desde o início dos registros climatológicos. 

Anunciam os jornais. O tempo tem se mostrado borderline  também.
Logo no início da primavera, adoráveis dias quentes! Apelidados de mini verão. 
Depois de três longos tristes e sedentários anos,  a menina  vestiu a roupa de ciclista  e deu umas pedaladas para conhecer a região.
Animou-se tanto que  retomou também as escaladas.  Alcançou três picos dos Alpes. Subidas amenas, para iniciantes, Subiram num ritmo vagaroso demais para o namorado alpinista. Teria alcançado um quarto pico, mas no dia anterior o clima borderline fez cair neve pesada em pleno maio. À medida que subiam,  os floquinhos enregelantes se exibiam. Por demais sensível, influenciável, o pique dela esvaía-se como a concentração do oxigênio nas alturas. Quanto mais frio, mais devagar se movia, e mais entediado e mais rápido seguia o parceiro montanha acima. Menina desiste. Senta-se num cantinho com vista panorâmica para o lindo lago. Bem profundo. Um dia foi mar.  Desistir de chegar ao pico não faz parte dos planos dele. Ainda mais que essa montanhazinha aqui de 1930m ele nunca escalou, porque cabra montanhesa que é, nunca se interessou por rotas amadoras.  
Ela pára. ele aproveita para mostrar todos os picos a que já chegou. e detalha um roteiro de quais os dos vão escalar juntos nesse verão. Insiste que ela tem de pegar firme porque está nada fit.
  - Vá sozinho. Eu o espero aqui. 
Num  piscar de olhos, ele subiu e desceu os últimos 200 metros.  Ela teria conseguido. se ele tivesse paciência de descansarem uma hora ou duas. Menina teria revigorado a coragem. Ela gosta tanto de chegar ao topo. Adora escaladas. Planeja que vai subir aquele morro perto de casa todos os dias,  para entrar em forma e ser capaz de acompanhá-lo. 
Entrementes, dia seguinte a temperatura volta a cair vertiginosamente. Neve até nas planícies. As hortinhas semeadas dias antes perecem todas.
Mês transcorre ora com dias frios entrecortados por um dia quentíssimo ou o contrário.  Menina enlouquece. E seu corpo já não consegue mais se adaptar a tantas oscilações. O cliclo repetitivo de doenças recomeça: enxaqueca. pressão baixa, sinusite, rinite, gastrite, esofagite, pensamentos suicidas. Mal humor constante, Brigas constantes. Melindres mil.
Descontentíssima, não sai mais de casa. Não sai nem mesmo da cama por dias inteiros. Instabilidade em carne, necessita de ambiente estável. Rotação e translação ao mesmo tempo não garante à menina o tripé necessário para ficar de pé.
Se extremamente requisitada, vai, emburrada, buscar a  a bota revestida de lã e a jaquela térmica já guardados no porão.  

11/04/2016

Da perda

Casa da sogra. A nova sogra. Mulher mais esquisita. Gente chega na casa dela e ela comeca a arrumar as coisas. Filho e a namorada estao a tomar café. Ela  pega o leite: "vai beber mais? Posso guardar?" E comeca a arrumar a mesa, cria um desconforto na menina, que decide que nao vai mais ali.
Povo esquisito. Mal se cumprimentam. Quando menina chega e pergunta "como vai voce" ficam tao mal humorados que é como se ela tivesse perguntado "e esse cancer".
Pessoas normais respondem:  "vou bem, obrigada, e voce", ou entao "na mesma",  ou, ainda " melhor que ontem", "como Deus quer", etc. Há tantas maneiras de se responder a esse básico cumprimento. Mas nessa família ninguém parece ter aprendido isso.
Menina comeca a se remoer por dentro. Contem dentro de si uma bufada enorme, desiste de tentar focar na leitura da revista semanal, e passa a observar profundamente o namorado e a mae dele. Pensamentoss  que lhe passam pela cabeca: "Eles nao tem um relacionamento bom?" "Mas ela é mesmo complicada, será que pessoas do trabalham o acham simpático", "Será que ele vai ser um bom marido e companheiro?", "Será que ele vai ser um bom pai?"

Menina comeca a gemer de saudade da ex sogra e do ex marido adorável. Como sofre daquela separacao. Será que nunca mais vai esquecer? Essa dor de perda tao tamanha vai acompanhá-la para sempre?
Mas deve haver um jeito. Como vivem as pessoas normais? Porque menina cresceu revoltada e indignada com a família disfuncional que tinha. Seus relacionamentos tinham como alicerce a seguinte estrutura: que o homem fosse o oposto de seu pai, ou seja, meigo, gentil cuidador, carinhoso, sociável.
Nao foi que se apaixonou e soube que se casaria com o  louro naquela dia em que ele , sabendo que ela contudira o joelho  e nao podendo ir ve-la por conta do trabaho, comprou uma pomada e mandou um taxista entregar na casa dela do outro lado da cidade.
No pacote estava escrito: from your angel. Naquele dia menina soube que encontrara seu par.
Anjo desgracadamente desastrado cujas estabanacoes associadas às muitas da menina levaram ao fim daquele casamento dos sonhos.
Hoje, no meio de um livro de receita, apareceu uma foto deles abracados e felizes. Um lindo casal que já nao existe mais.

09/04/2016

Da liberdade

Tem gente que mesmo atrás das grades é livre. 
Tem gente que sempre foi e sempre será livre.
Liberdade, essa danada! 
Na nova residencia há mais de cinco meios de sair dela.
Passa dias e dias sem pisar lá fora. Tem carro, motos e bicicletas à disposicao.
Embora more no meio do nada, em frente a um lindo bosque, a casa da sogra, o mercado e a vila nao ficam longe. Poderia ir a pé, se o cárcere fosse somente consequencia dos ataques esporádicos de panico que a impedem de dirigir.
Propósito existe: sair ao ar livre pelo menos meia hora por dia, e mais dez minutos na sala de ginástica. Só isso basta pra manter o lindo corpinho aliado à alimentacao saudável.
(nem mesmo precisa de um plano para compensar os ataques de TPM- quando o consumo de uma barra inteira de chocolate se faz necessário - trilhas e montanhismos presentes no estilo da vida dao cabo do excesso de caloria).
Até hoje nao olhou o vídeo dos exercícios da máquina fantástica para aducao e cintura.

Senta na escada. O gato. Esse, prisioneiro de fato, deixa de miar à porta e vem sentar se ao colo de menina, que o acaricia: "Conforme-se meu gatinho, voce é meu companheirinho aqui. Ficaremos juntinhos aqui para sempre. Voce, porque foi escolhido para ser um pet limpinho, que nao conhece o mundo lá fora. E eu, bem, fico aqui porque já estou morta mesmo para o mundo".

O gato percebe a morbidez e se afasta, 
Menina volta a se lembrar das cólicas menstruais. Toma ou nao o Buscopam?  Afinal, sao dias de absoluto vazio interior. Nao sente nada. Sentir a cólica é melhor que esse vacum na alma.
Sobe lentamente as escadas. Ao entrar no quarto, é retida pela vista da porta larqa da sacada, na qual ela nunca nem pisou.
A rua está tao parada. O tempo nublado,  mas sem valor, nem feio nem bonito. Nenhum crianca, nenhum vizinho. Nem  um pássaro. Um vazio absoluto lá fora. Tanto quanto dentro dela. 
Namorado notou que há dias nao tem ninguém na casa da vizinha. Provavelmente o filho doente dela teve outro ataque e está hospitalizado.
Menina está menstruada. Nao está, portanto, grávida. Mas triste, enquanto namorado parece aliviado. Tem medo de ter filho doente. Teme ser responsável por gerar alguem no mundo para sofrer na provável terceira guerra mundial que se anuncia.
(Ah! Essa crise de refuigiados... Essa venda infinita de armas dos americanos e russos e europeus para o oriente médio. A necessidade de controle das reservas de petróleo.)
Essa vida sem sentido algum onde nem exerce seu direito garantidissimo de ir e vir. Às vezes, menina só pensa em ir embora para a terra do nunca. Deixar de ser.  
Mas outro dia colega colocou como status do whatsapp " Quem disse que a sua vida é só sua".
E menina se apega à esperanca de que a maternidade pode lhe salvar. Que dando sua vida a uma linda criaturinha, a vida deixará de ser sua e ela  de uma vez por todas nao terá mais de deliberar sobre ser ou nao ser.

05/04/2016

Arisca

Fez um almoço tirado do livro de receitas Michelin. Coisa rara: depois de pronto ficou bonito e apetitoso como na foto do livro de receitas. Mas o namorado nao gostou de tudo. Achou que o repolho deve ser cozido em muito mais vinagre, também considerou que maçãs  carameladas é puro consumo desnecessário de açúcar e manteiga. "Você nao vive dizendo que essa combinacao é a pior de todas" Lembrou ele à namorada. Elogios, ele nao teceu nenhum. Menina levantou da mesa furiosa. 
Foi para a cozinha emburrada. Fechou a porta e tomou isolada seu café. Amargo café. Menina azeda. Arrepedida de ser um animal arisco. Como reagiria uma mulher elegante nessa situacao? Menina delibera que esse papel de dona de casa perfeita nao lhe cai bem. Onde já se viu, todo o sentido do dia e da vida se resumir a fazer um jantar perfeito e ser elogiada por isso. Chato isso! Uma vida paradoxal -todo mundo acha menina estudada, qualificada, culta, mas menina nao é nada nessa vida. Nao escolheu a profissao certa para si, nao fez, portanto qualquer carreira, nao arrumou um emprego decente que lhe trouxesse realizacao. Menina é um fracasso. E se odeia. E quanto mais ódio a si mesma e às situacoes dessa vida descontente, mais menina se mostra arisca.
Aos treze anos, menina foi trabalhar de doméstica para uma família de temperamento sereno, pessoas calmas. Eles tinham uma fazenda, pertencente às quatro irmas que, quinzenalmente ou mensalmente, se reuniam todas lá no campo com suas respectivas famílias-  para descansarem da cidade grande, respirarem ar puro, verem o por do sol, admirar o céu estrelado infinito, subir o morro "para que mesmo?", indagava ela aos patroezinhos pouco mais velhos que ela. "Ora, para chegar ao topo". E menina gostou da sensacao alegre de vencer a subida e da vista linda lá de cima.
Faziam também pamonhas, queijos e requeijao, molhos de tomates e muitas outras coisas caseiras e organicas, que eles eram todos adeptos da alimentacao organica e macrobiótica. Foi lá que menina aprendeu a comer verdura e a apreciar alimentos integrais, assim como ervas medicinais. O patrao, farmaceutico de formacao, pareceu-lhe a princípio muquirana ao recusar comprar qualquer comprimidinho diante das constantes dores de cabeca e mal estar estomacal da menina; ele a tratava com chá de alegrim e outros.8
Menina notou que naquela casa ninguem sofria dos constantes mal-estar presentes na casa dela... Além disso, naquela casa nunca se comprava refrigerantes ou bolachas, que eram luxos inexistentes na casa da menina pobre e um dos extras pelas quais elas se resignava a ser uma garota miserável explorada no trabalho doméstico infantil. E ainda ficava livre do padastro pedófilo.
Só nao ficava livre do temperamento resultante das condicoes da vida. Sempre que a família empregadora a apresentava a outros, diziam discretamente. "arisca", e piscavam.
Treze anos tinha a menina. Se miserável nao fosse, estaria ainda a brincar de bonecas ou a ler as revistas Capricho para aprender a ser consumista e sedutora.  Mas nao, ela fora destinada a ser uma mini adulta capaz de preparar um jantar para 20 pessoas nessa idade. Um enteado de um dos cunhados da patroa parecia, entrementes, ter sido seduzido pela arisques da menina, pois que nao lhe incomadava seu jeito de ser e sempre que a via de folga la no campo, a convidava a ir andar no mato, subir o morro, jogar bola. 
" Voce é legal. Ao contrário do que dizem, nao acho voce arisca. Mas voce tem uma coisa diferente."
" Diferente como?"
" Sei lá, volta e meia voce parece estar bem longe, noutro lugar. Seu olhar fica bem focado em nada, bem longe mesmo"
"Sério?"
....
"....Agora, por exemplo, em que voce está pensando?" 
"?"
" É que voce acabou de fazer aquilo de novo. Digo, de ter a cabeca noutro lugar"
"Ah, sei lá. Esquece! Bora correr até lá na mina?"

Anos depois, vários surtos, anos até achar o diagnóstico e saber que essa alienacao é o recurso de sobrevivencia mais sintomático no transtorno borderline dela. E menina se lembra que já na escola primária outro coleguinha notara a mesma coisa: que menina volta e meia dava umas viajadas.
Nenhuma adulto  entretanto percebera nada. Menina era invisível para os adultos. Como nota o pequeno príncepe " os adultos na veem nada, só números".

30/03/2016

Ignorada

Estará menina ficando louca? Surtada já se sabe - ainda que o último surto tenha sido há tanto tempo que a família  volta àquele estágio de acreditar que menina é normal,  que "aquilo" passou...
Linda tarde primaveril nesse continente onde cada mudanca do tempo é por demais significativa. Depois de duas horas de  caminhas pelos campos e  vilinhas, "ah, que linda tarde ensolarada, sem jaqueta, com o pulover desabotoado, o colo tomando sol", menina encontra a varandda ensolarada, mas os móveis de jardins estao empilhados. Menina tenta tirar um banco da pilha, mas ele é pesado, sozinha nao dá conta.
Entra e prepara um iogurte natural com nozes e passas. Agorinha ele chega e vai ajeitar os móveis: ela vai poder se espreguicar maravilhosamente nesse sol de vinte graus dessa linda tarde de abril. Ele chega, eles desempilham os bancos, removem a mesa, instalam o carpete que simula gramado, limpam tudo por cima e por baixo. Enfim,menina tira a meia e levanta o top para tomar banho de sol na barriga e nos pezinhos tortos.
Ele olha para o lado,percebe a grama elefante, levanta, vai buscar a tesoura elétrica para aparar. Comeca a trabalhar, menina vai ajudá-lo. Chega um vizinho, comecam a conversar, ele a ignora, menina continua a trabalhar; depois, tenta cumprimentá-lo,  mas ele ignora o "olá". Se afastam para continuarem a conversa sobre uma alteracao na cerca verde que divide o quintal.
Menina se sente indignada de nao ter sido apresentada e pela má educacao do vizinho em ignorá-la. Ela tenta continuar aparando a grama elefante. Ve que precisa de uma luva e vai lá dentro pegar. No meio do caminho, sente compulsao por comer e vai procurar algo doce. Ve pela  janela da cozinha que os dois nao estao mais ao redor da cerca: agora conversam olhando as sacadas ou a parede desse lado da casa.
Ao perceberem menina, namorado e o vizinho dao automaticamente alguns passos para trás. Menina, faca no ar, desiste de cortar uma fatia do pao para comer com geléia, Sobe às pressas as escada, bate a porta do quarto, vai à janela, fecha o blackout e a cortina. Bate a porta do quarto com forca. Liga o som bem alto. 
Bem no dia em que ele vai ir esse velório sem ela. Menina sabe nao! Ou está enlouquecendo imaginando coisas ou tem algo de muito suspeito nele.

29/03/2016

Pela cozinha planejada

A jovem, loura, bonita e muito bem qualificada e bem sucedida secretária de estado  (do pequeno país de primeiríssimo mundo) anda preocupada com o crescente número de mulheres que estao abandonando a forca de trabalho, que contribuiu para a previdencia, para se tornarem donas de casa. Full time mum, descrevem de modo chique as bloqueiras que assim se ocupam.
Menina, que no momento se ocupa unicamente de manter a casa em ordem e o namorado muito bem alimentado, faz o mesmo.  Se engravidar desse namorado (nao estao usando nenhum método contraceptivo), vao se casar e ela vai ficar em casa cuidando da prole em tempo integral. Namorado já falou que nao quer que ela trabalhe, sem entrar em detalhes.
Mas menina sabe que ele está adorando chegar em casa e a comida maravilhosa está finalizada no perfeito momento dele se sentar à mesa. E menina gosta muito de elaborar seus pratos com ingredientes altamente frescos e temperos do mundo inteiro na cozinha lindamente planejada e equipada. Todos os amigos dele já estao ciente de como ela cozinha bem... E menina já avisou que quando trabalha fora nao cozinha: almoca em restaurante e de noite come iogurte natural com frutas e mel ou sanduiche de hummus e pao integral, já que dupla e tripla jornada é coisa para mulheres maravilhas como Romina, que passa roupa até as duas da manha e nao tem tempo para jogar conversa fora cinco minutos ao telefone....
Claro que uma pulga atrás da orelha vez ou outra se faz cocar. No festival de vinho ontem, menina conheceu mais um amigo do bem. Separou se depois de vinte anos, num relacionamento que parece ter sido bom:  contou com vivacidade de muitas das suas viagens, feitas em companhia da ex. Em vinte anos, um casal constrói muita coisa juntos. Na separacao do Jonas, ele ficou com a casa.
 "Ficou com a casa todinha, e a ex mulher? A casa era só dele porque ele a recebeu de heranca dos pais?" Quis saber a menina curiosa.
"Nao, a casa é só dele porque  ele era o que trabalhava, tudo que tinha lá foi ele que pagou por / comprou", respondeu o par. Era noite,  haviam provado diversos vinhos. Estavam naquela exata estradinha linda dentro de uma mata. A noite, esse caminho ornado pelo túnel árboreo consegue ser ainda mais lindo. 
Menina pensou várias coisas: que trabalho feito dentro de casa é trabalho e portanto deve ser remunerado. E que, quando uma mulher fica em casa, é um acordo tácito dos dois. Provavelmente, o homem nao sabe cozinhar, nao quer limpar, nao quer ajudar com as criancas e adora essa divisao altmodische de homem chefe de família, mulher rainha do lar.
E nesse pequeno país dos sonhos, por lei, o trabalho de dona de casa deve ser remunerado pelo marido: 40% do que sobra do salário, depois de pagas as contas de águas, luz, gás, seguros, hipoteca, supermercados, é por lei o pagamento que o marido deve fazer pelo servico de dona de casa. 
Tais pensamentos circularam aceleradamente pela mente da menina, mas nao disse nada. Suspirou e pensou na sogra e nas mulheres da geracao da sogra: nunca se divorciavam. Sem casa, sem profissao e velhas, como quer que fossem seus maridos, tais mulheres  nao  se separavam. Será que o sogro foi um bom marido? Será que esse namorado vai ser um bom pai e um bom marido? E se tiver de se separar de novo? Porque menina, quando descontente demais, sempre parte. Provavelmente sempre o fará. Daí menina concordou com a secretária de estado.
Mas, senhora secretária, escreve mentalmente a menina uma carta à administradora pública, para quem nao foi bem sucedida em ter uma carreira  brilhante e /ou ao menos muito bem remunerada, trabalhar fora pode ser bem frustrante. Ganhar o suficiente para pagar moradia, alimentacao e transporte carrega um sentimento de escravidao.
Menina é minimalista, contra o consumismo e sempre economiza independente de quanto ganha. Mas ter um emprego que se odeia, ter a permanente sensacao de que o dia a dia se resume a ganhar o pao, a sobreviver; sofrer estresse permanente pela pressao dos chefes, dos clientes, dos colegas de trabalho para no fim tudo somente resultar na sobrevivencia.
Sem contar que vida de mulher solteira é aquele drama: os homens que lhe alugam a casa cobram mais que de locatáriOs, mecanicos praticam extorsao endemica contra mulheres, etc. Sao tais condicoes, senhora ultra bem sucedida secretária, que fazem meninas descontentes encarnarem o papel de Stepford Wifes.