27/08/2014

O padrasto

Entrou na vida da menina quando ela tinha nove anos.
Era uma tarde quente de um dia que talvez fosse de férias. Ou devia ser um fim de semana, pois a mãe estava em casa. Naquela exata tarde, a mãe foi tomar café na casa da vizinha. As amoreiras estavam carregadas. Cada criança tinha seu próprio pé de amora assim como outras árvores frutíferas, pois mãe trabalhava na superindencia de parques e jardins da cidade e trazia mudas. Um para a irmã mais velha, outro era do irmão e o mais bonito era o da menina, que sempre teve dedo verde.
Naquela tarde ensolarada, o irmão da menina subiu  no pé de amora que pertencia a ela. Sacudiu os galhos, ela ía recolhendo as frutinhas pretas que caíam no chão. Como o irmão era forte, umas poucas sacudidelas renderam bastante amorinhas para encher o copo do liquidificador. A menina estava muito contente: ia  pedir à mãe que fizesse um delicioso suco.
Mas irmão e irmã não concordaram com a idéia. Roubaram-lhe a jarra e foram distribuir as frutas entre a criançada da rua.
A menina, muito chateada foi procurar a mãe.
- Mãããããe, snif, ele, snif pegou as amoras do meu pé (de amora) e deu para os outros, Buá buá... eu queria tanto um suco,
- Menina, me deixa de  ser chata. Não posso ter um minuto de paz! Vá brincar. Deixa de criar caso por nada!
- Mas mãããããe! Eram minhas amoras. Buá.
- Minha filha, daqui a pouco vocês colhem outras amoras e eu faço um suco, tá bom?
- Tá bom nada, mãe. As amoras eram minhas, eu cuido tão bem do meu pé. Nunca deixo de  agoar, por isso minhas árvores dão muito mais frutas. Buá, eles roubaram tudo de mim.
-Oi, psiu. Disse o velho de cabeça branca, muito alto, de pele rosada. Tal feitura lhe rendeu o apelido de alemão. "Psiu, menina linda, chora, não, Vem cá no tio. Que foi?" 
A menina conta a estória aos prantos. Dramalhona que só ela.
- Pois acabou-se o motivo do choro. Toma aqui esse dinheiro, compre lá uns pacotinhos de suco, faça várias jarras e tome o que quiser com suas amiguinhas. 
O desconhecido enxuga as lágrimas da menina. Pronto, está contente agora? Vai lá. E o que sobrar de troco é seu, viu? Compre balinhas para adoçar essa carinha.
A menina vai.
Mais tarde, o alemão, como quem nao quer nada, dá uma passadinha para ver como vai a menina. Experimenta o suco. Toma assento. Conversa vai, conversa vem, fica para  jantar. Já está tarde, fica para dormir. Durante nove anos. Com a mãe e as filhas.

O padrasto

Entrou na vida da menina quando ela tinha nove anos.
Era uma tarde quente de um dia que talvez fosse de férias. Ou devia ser um fim de semana, pois a mãe estava em casa. Naquela exata tarde, a mãe foi tomar café na casa da vizinha. As amoreiras estavam carregadas. Cada criança tinha seu próprio pé de amora assim como outras árvores frutíferas, pois mãe trabalhava na superindencia de parques e jardins da cidade e trazia mudas. Um para a irmã mais velha, outro era do irmão e o mais bonito era o da menina, que sempre teve dedo verde.
Naquela tarde ensolarada, o irmão da menina subiu  no pé de amora que pertencia a ela. Sacudiu os galhos, ela ía recolhendo as frutinhas pretas que caíam no chão. Como o irmão era forte, umas poucas sacudidelas renderam bastante amorinhas para encher o copo do liquidificador. A menina estava muito contente: ia  pedir à mãe que fizesse um delicioso suco.
Mas irmão e irmã não concordaram com a idéia. Roubaram-lhe a jarra e foram distribuir as frutas entre a criançada da rua.
A menina, muito chateada foi procurar a mãe.
- Mãããããe, snif, ele, snif pegou as amoras do meu pé (de amora) e deu para os outros, Buá buá... eu queria tanto um suco,
- Menina, me deixa de  ser chata. Não posso ter um minuto de paz! Vá brincar. Deixa de criar caso por nada!
- Mas mãããããe! Eram minhas amoras. Buá.
- Minha filha, daqui a pouco vocês colhem outras amoras e eu faço um suco, tá bom?
- Tá bom nada, mãe. As amoras eram minhas, eu cuido tão bem do meu pé. Nunca deixo de  agoar, por isso minhas árvores dão muito mais frutas. Buá, eles roubaram tudo de mim.
-Oi, psiu. Disse o velho de cabeça branca, muito alto, de pele rosada. Tal feitura lhe rendeu o apelido de alemão. "Psiu, menina linda, chora, não, Vem cá no tio. Que foi?" 
A menina conta a estória aos prantos. Dramalhona que só ela.
- Pois acabou-se o motivo do choro. Toma aqui esse dinheiro, compre lá uns pacotinhos de suco, faça várias jarras e tome o que quiser com suas amiguinhas. 
O desconhecido enxuga as lágrimas da menina. Pronto, está contente agora? Vai lá. E o que sobrar de troco é seu, viu? Compre balinhas para adoçar essa carinha.
A menina vai.
Mais tarde, o alemão, como quem nao quer nada, dá uma passadinha para ver como vai a menina. Experimenta o suco. Toma assento. Conversa vai, conversa vem, fica para  jantar. Já está tarde, fica para dormir. Durante nove anos. Com a mãe e as filhas.

26/08/2014

As primeiras quatro semanas

Teorias são lindas... Cheguei para fazer dessa fase de casulo o meu período "comer-rezar- dormir". 
Como poeiraland não tem nada, a vida se reumiria a: ir ao trabalho,  meditar,  fazer yoga e pilates (ganhei do ex uma banda elástica) e estudar. Logo que cheguei, fui ao centro espirita Kardecista que tem aqui. Apresentei-me, fiz amizade. A líder lá é pessoa simpaticíssima. Ficou encantada com a presença ilustre de uma irmã lá da capital.
Quanto as estudos, por que não um desses cursinhos on line para outros concursos ou mesmo uma pós a distancia? Achei uma pós de uma faculdade top.  Os olhos da cara. Nao cabe no orçamento...Cursinhos também são caros. Optei por rateio. Adquiri um dos concurseiros federais cujas aulas nunca consegui baixar. Frustrada, desisti e odiei os rateadores. 
Mas já não os culpo. Como a internet toda hora pára de funcionar, liguei na companhia telefonica para reclamar. Esquivando-se de explicar a má qualidade do serviço, o atendente achou de pronto o motivo pelo qual eu não consigo baixar as vídeo aulas: eu só tenho 1 Mega de internet.
Mas lá na mãe a internet é super boa, e ela paga só dez reais a mais. Atendente checa velocidade da mãe:  5 Megas. Segundo ele, para vídeo aulas eu preciso de no mínimo igual ao que a mãe tem. Como o contrato do telefone/ internet é da moça que divide casa comigo, não posso tomar a decisão de adquirir outro pacote, até porque não serão só dez reais - o desconto que mãe pegou não  está em oferta aqui. Além disso,  estou com impulso de ir embora. 
(Ou, se ficar, quero achar uma casinha pra eu morar sozinha. Imploro a todo mundo que conheço para procurarem casa para mim.  A co-moradora saiu de férias tão logo cheguei. Assim, esse é o primeiro mês da minha vida que moro absolutamente sozinha.  Espalho bolsas e papéis pela mesa, sapatos pela sala e acumulo louça na pia. Quem quererá morar comigo?)
Assim, desisti do curso, e passei a ir mais a academia. Desde o primeiro dia em que me mudei para cá, matriculara-me, pois estou quase alcançando a meta de ter o peso que tive aos dezoito anos. E o foco agora é endurecer o bumbum e o tríceps. Entretanto, relapsa, malhei duas vezes na primeira semana, nada na segunda e uma vez na terceira semana e quarta semana.
Passa tão rápido! Essa é minha quinta semana! Ontém malhei. Vejamos se eu sigo o cronograma: segunda/ quarta/ sexta.
E deletei o facebook. Quase não durmo. Voltei aos remédios. As vezes durmo demais. As vezes perco o sono e passo a noite planejando como acabar com minha vida sem sentido e muito menos sem propósito.

O quarto de emburrar

Namorou cinco anos com um cabeludo barbudo gostoso de viver. Ele, hiper dependente químico, super alternativo. Mas  ela nunca nem mesmo experimentou da maconha que exalava pela casa o dia todo.
Ele era poeta, escritor, compositor, dançarino profissional, fisiculturista e ator. Entrara até num grupo de teatro com bons contatos. Como nada disso dava dinheiro, devido a dependencia química (ou porque  nunca pertencera ao sistema capitalista) nem terminara o ensino fundamental. Vivia da boa vontade financeira do pai, empresário rico que formara médicos três filhos e o quarto preferiu ser o engenheiro. Ah, o fumador  foi pai adolescente. A família pegou o menino e faz dele o que o pai recusou: formou se mais um médico. Estudou na universidade de  Brasília, mora, talvez, com o tio neurocirurgião, de quem recebe teto e o modelo: um dia se tornará como o tio, top de carreira, diplomas internacionais... Se sentirá mais filho desse que do outro? Quem sabe, um dia, o pai desapareça  e se possa esvainecer a vergonha que tem do tal. Ou nao. Os genes persistem, embora um fenotipo disfarcado, ainda que tenha se inserido direitinho no sistema, ama e adora o pai. Talvez se torne um especialista para entender porque o amado pai nascera e morrerá dependente quimico.
Entrementes, o filho nunca foi conhecido da menina. O mundo dos dois somente aos dois pertencia. Nunca a apresentara a qualquer parente. Nem quis conhecer a familia dela. Eram só os dois. E ele era a unica pessoa do mundo que a entendia. Embora ele sumisse às vezes- nunca soube porque, fora o primeiro na vida que a aceitava como era. Com os surtos emocionais. A montanha russa de emoções que sempre fora e sempre será.
Quando juntaram as escovas de dentes, ele teve uma idéia: criar o quarto do emburrar. Porque ninguém é obrigado a aguentar chatice alheia de gente surtada que tem aguras emotivas.
O quarto de emburrar teria tatame, e paredes acusticamente isoladas com cartelas de ovos vazias, e um bastao de  beisebol- para que se pudesse espancar paredes e coisas, tais como o saco de boxe. O isolamento acústico seria para que se pudesse gritar o quanto quisesse, sem incomodar os vizinhos e o outro.
O quarto também  teria servido para se fazer meditação. Nunca fora usado. Nunca passara de uma ideia. Naquela vida  a dois que durou poucas dezenas de dias. Se a menina descontente tivesse ficado contente com o projeto e o tivesse posto em pratica... Se a menina fosse naquele tempo quem é hoje, o quarto de emburrar teria existido. E teria se emburrado menos e seguido menos descontente na vida.

25/08/2014

Life sucks

Enquanto isso, no presente: assumi o novo emprego. Para tanto, tive de me mudar para uma cidade minúscula, poeirenta, cheia da fuligem das queimadas dos canaviais. Cidade horrososa. Não tem um clube, uma pracinha decente. Parece um  cenário abandonado de filme de faroeste.
E há um deficit de moradia fenomenal. Os preços das casas aqui são estratosféricos e ainda assim não se encontra casa para alugar. Tive de me contentar em dividir a casa com uma colega de trabalho.
( por R$ 580, reais a amiga aluga um apartamento lindo em Pirenópolis, no centro pertiho de tudo, com rio ao fundo, ao lado do sesc). 
Por R$ 750 aluga-se essa casa em Poeiraland. Uma casa nos fundos,  cujo custo da eletricidade consumida pelas inúmeras lâmpadas do quintal gigantesco incide sobre a minha conta, embora os proprietários deixem as luzes do quintal ligadas a noite toda. Uma casa nos fundos, sem nenhuma privacidade. O dono da casa, que mora no sobrado na frente, estaciona a mitsubisch dele bem na nossa janela da cozinha. Privacidade zero: também não temos interfone, que o único que existe é o da casa senhoril, e nossos visitantes- que não conseguem ligar no nosso celular pois a rede aqui é uma ineficiencia em estado de arte - precisam se apresentar ao senhor feudal. 
Se não bastasse, a casa, embora com acabamento de primeira, está infestada de barata. Depois de muito faxinar e litros de inseticida, que vão matar primeiros seus pulmões, achei o ninho! Melhor, digo, pior: os inúmeros ninhos das baratas são as gavetas do armário. Onde ficam as colheres grandes, os panos de prato, o mixer.
Há dois dia não como, pois tentei desinfetar as gavetas, mas o asco é tão imenso que vomitei por horas. E então joguei tudo o que havia de comer fora, nem vou mais à cozinha. Comer fora também não é uma opção, pois todo mundo sabe que lá fora a porqueira é muito maior que comida caseira. E isso é porque a colega disse que tem uma moça que duas vezes por mês faxina a casa pra gente por R$ 50,00 cada.
Assim, a nova cidade tem poeira demais, baratas demais, nenhum lazer e, como desgraça pouca é bobagem, o emprego é horrível. Ulcer maker job. Aff. O que fará a menina descontente?
De acordo com Pollyanna, a menina do jogo do contente: agora está bom, pois se gosta de reclamar, o prato está cheio.

A vidente

Aos treze anos, a menina fora com a amiga e colega de escola à uma vidente. Era uma vidente tão verdadeira que não cobrava nada, nem mesmo aceitava qualquer agrado. Se muito quisessem, poderiam doar alimentos ao asilo mantido pelo centro espírita do bairro.
Nessa idade puberil, a vidente sabia de antemão o que as garotas queriam: desvender o futuro amoroso. Já naquela época, a menina desconte perdera a fé ou qualquer religião- se é que algum dia a tivesse, embora a escola primária cardecista com doutrinamento semanal.
Enfim, embora descrente, ali se encontrava a menina frente à sábia mulher. Era um fim de tarde de uma terça feira de agosto. Metade do ano já se passara e André, o menino lindo de cabelos louros muitos longos, ainda não tinha notado a existencia da menina magrela, anêmica devido à desnutrição inerente à pobreza que caracterizara a infância da pobre criatura. Coisa perfeita aquele menino louro dos cabelos longos esvoaçantes. E tocava. E andava de skate. A cara da rebeldia.  A vidente não dissera, mas esse tipo  cabelo nada convencional virou pra sempre tipo da garota. A vidente também nada dissera se ele um dia teria olhos para a menina.
Ele não teve. Nunca. Embora um dia, alguns anos depois, malhada, cabelo na química bem tratado, a menina  se achara digna de passar na porta da casa dele e dizer um oi. Quem sabe agora. Mas não.
O que a vidente dissera, de outro modo, era o seguinte: haveriam três.
O primeiro teria o cabelo muito preto. A menina se perderia de amores. Acharia que era esse. Mas não era.
Daí haveria um segundo, bem branquelo. Tudo muito sereno. Ele acharia que ela era essa. Mas não, ainda não.
Daí, haveria um terceiro. Era esse.
- Um de cabelo louro, dona?
- Não, não vejo cabelo louro algum.
- De que cor então?
- Não dá para ver, só sei que não é o louro.
Descontente, menina segue pra casa. Bem sabia que Deus não existia. Quando é que um menino lindo desse iria ter olhos para essa menina feia e mirrada, tão magra que se venta forte tem de se segurar no poste para não ser levada junto com as folhas.

29/06/2014

Bem que se quis
Depois de tudo
Ainda ser feliz
Mas já não há
Caminhos pra voltar
O que que a vida fez
Da nossa vida?
O que que a gente
Não faz por amor?
Mas tanto faz
Já me esqueci
De te esquecer porque
O teu desejo
É meu melhor prazer
E o meu destino
É querer sempre mais
A minha estrada corre
Pro seu mar
Agora vem pra perto, vem
Vem depressa, vem sem fim
Dentro de mim
Que eu quero sentir
O teu corpo pesando
Vem, Sobre o meumeu amor, vem pra mim
Me abraça devagar
Me beija e me faz esquecer
Bem que se quis
Depois de tudo
Ainda ser feliz
Mas já não há
Caminhos pra voltar
O que que a vida fez
Da nossa vida?
O que que a gente
Não faz por amor?
Mas tanto faz
Já me esqueci
De te esquecer porque
O teu desejo
É meu melhor prazer
E o meu destino
É querer sempre mais
A minha estrada corre
Pro seu mar

Bloqueio

Alguns bons reais na conta.
Carro com a manutenção em dia. "Tá jóinha seu carrinho", diz o cunhado, que voluntaria de motorista quando não tenho condições de dirigir.
Jovem (dizem as amigas e as irmãs).
Magra. (Entrou e ficou deslumbrante no vestido verde esmeralda-  Viva os resultados da tortura na academia!  70 minutos de ergometria, 40 de musculação e localizada, credo).
Determinada. Ontém o corpo quebrado. Foi mesmo assim.
Sem filhos.
Bom emprego garantido para breve.
Sou tudo o que minhas irmãs gostariam de ser: livre e poderosa. Tenho tudo, segundo elas.
Hoje! Dia de sair da bolha.
Assim que acabar o jogo, saio e pego aquela sessão vespertina da Malévola.
Adoro a Angelina Jolie. Ela é linda, poderosa, talentosa e só faz filme bom.
Jogo prorrogado. Será que nos eliminaremos da copa?
Vai mesmo pro penalty. Sofrimento.
Último segundo. Neymar e Julio Cesar nos salvam. Alívio.
Ih! Já está tarde. Não vai dar pra pegar a sessão. A próxima só mais tarde. De noite
E o medo, de voltar pra casa, sozinha?!
Mas tem de tentar.
Entra no carro. Gira a chave.
Pés travam. Qual marcha mesmo está engatada? E se  arremeçar esse carro contra a parede, igual  a B. fez?
Um minuto.
Cinco minutos.
Dez minutos.
Não, mãe, não precisa vir me ajudar. Deixe o portão fechado como está. Não vou sair. Não consigo.

05/06/2014

Se Madalena eu fosse

Se pudesse perdoar... Porque o amor que sinto ainda é o mesmo, senão mais forte, pois que  a perda aumenta o valor. Mas paralelo ao desejo de perdoar: a angústia de ceder, de aceitar, e de acreditar que sem a devida lição ele faria o mesmo sempre. Como os rios que não se misturam. Sentimentos da mesma substancia, mas tao distintos que não se podem fundir.
Porque a vida inteira critiquei as mulheres que fazem papel de bobas, que se deixam enganar e perdoam infinitamente... Ah, mas eu as entendo agora, pois também só queria perdoá-lo. Parti para dar-lhe a lição, mas a pena maior quem recebe sou eu.  Se pudesse, faria como Madalena, que perdoa sempre. 
Na tela da poltrona a frente, no meu voo de volta a casa, assisto a um filme muito emocionante. Anjos e demonios, (Winters Tale). Cada um teria um milagre aqui na terra. E o narrador do filme me esclarece: amamos para salvar.
Para salvar. Não foi esse meu amor com ele o salvamento maior meu e dele de nossas respectivas carencias e solidão? Não temos nós dois exatamente uma capacidade infinita de amar o outro? Deus, como o amei e como fui lindamente amada.
Ah, se borderline eu não fosse e pudesse ter controle sobre minhas emoções. A fúria de ter sido enganada, o ódio de mim mesma por não ter percebido. E, ao mesmo tempo, da mesma substância, mas comos os rio negro e solimões, correndo paralelamente,  o sentimento de verdeiramente amor: eu o entendo, abandonei-o várias vezes- fora as inúmeras ameaças de ir embora; ele sozinho, coração partido pelo abandono, buscou refúgio.

Eu mesma não agia assim antigamente com F? Era M.A. partir, eu me sentia arrazada pelo abandono e me lançava em braços de Chico. Oh Querido, eu o entendo e o perdoo. Não pude ficar, pois a dor de ir contra meus princípios é de uma agonia infinita. E minhas crises de ciúmes me tornavam cada dia mais insuportável. 
Eu não tenho paciência com pessoas insuportáveis.

23/05/2014

Amor nos tempos do whatsapp

Perdida a experança, ficam, entrementes, as divagações. Se um dia, embora pois, tentar um novo relacionamento, como há de ser? Haverá de o parceiro ter de se submeter ao controle comum das ciumentas que proíbem que ele saia um minuto sem ela? Até mesmo o futebol haverá de ser proíbido para o par? É assim que fazem as amigas e irmãs que sempre alertam do perigo de ser uma mulher liberal? Oh queridas mulheres sábias do mundo, estou aberta a lições. Eu, maior tola de todos os tempos, reconheço finalmente a importância de me submeter ao vosso ensinamento e aprender a sabedoria popular.
Mas, todo controle é tonto, pura ilusão. Ganha-se acesso à senha do skype, promente que nem  vai olhar, só de a ter já se garante a segurança. Porém, saibam que é tão fácil fazer outras contas do skype, nem precisa de outro email; com esse já sob supervisão conjugal, cria-se novo perfil, nova senha, tudo muito seguro para a pulada de cerca virtual.
Num perfil  verdadeiramente será  de um europeu, no segundo se declara australiano e, num terceiro, ainda há de se passar por americano. Oh mulheres desesperadas para casar do mundo subdesenvolvido que procuram o amor em terras promissoras com homens diferentes dos machistas da terra pátria, eis no menu um moço bonito, alto, louro de olhos verdes amendoados, simpático, dedicado, presenteador, apaixonado. Que lhes prometerá mundos e fundos. Em troca, inconsciente, forneçam uma pornografia virtual gratuita, maqueada em forma de amor à distancia. Tempos modernos. Sexo virtual. Gratuito. Cam girl pra que? Como é esperto o cibernauta. E o whatsapp, como se há de controlar? Ó céus. Melhor desistir do amor. Ou aceitar essa tremenda e prática ideia do relacionamento aberto.
 A vizinha da minha mãe, loirinha linda de 18 anos, se prostitui. Na porta da casa dela tem fila de carros. A hora do almoço é a hora mais cheia. Maridos diversos de  diversas outras mulheres - fiéis, romanticas, dedicadas? Uns de carrões, outros de carros bem velho. Um carro é tão  velho! Assim como o dono,  em condições visíveis de uma  aposentadoria compulsória. Esse velho do carro velho é cliente assíduo ao meio dia, de segunda a sexta. A hora da vizinha deve incluir refeição (e tinha até wifi  grátis, roubada da minha mãe, que a danada da jovem pediu à minha sobrinha a senha do wifi). 
Mas, voltando, esse senhorzinho libidinoso ao meio dia,  terá talvez uma boa esposa que aprecia a austeridade dele de chegar em casa todos os dias na hora certinha, vindo direto do trabalho, sem nem mesmo parar no bar para uma bebida...Ela, a esposa contente com a vida simples de um bom maridinho pobre mas trabalhador, deve fazer esforços pra ser a boa esposa economica, que aprecia o valor imaterial de seu homem. Talvez, até se mostre orgulhosa ao mundo que dinheiro não é importante, mas sim o companheirismo.
Enquanto ele, justificado pela volúpia que seria inerente ao macho de nossa espécia, gasta o  parco dinheirinho no suador  dos prazeres compráveis da juventude de certa moça.

Amor nos tempos do whatsapp

Perdida a experança, ficam, entrementes, as divagações. Se um dia, embora pois, tentar um novo relacionamento, como há de ser? Haverá de o parceiro ter de se submeter ao controle comum das ciumentas que proíbem que ele saia um minuto sem ela? Até mesmo o futebol haverá de ser proíbido para o par? É assim que fazem as amigas e irmãs que sempre alertam do perigo de ser uma mulher liberal? Oh queridas mulheres sábias do mundo, estou aberta a lições. Eu, maior tola de todos os tempos, reconheço finalmente a importância de me submeter ao vosso ensinamento e aprender a sabedoria popular.
Mas, todo controle é tonto, pura ilusão. Ganha-se acesso à senha do skype, promente que nem  vai olhar, só de a ter já se garante a segurança. Porém, saibam que é tão fácil fazer outras contas do skype, nem precisa de outro email; com esse já sob supervisão conjugal, cria-se novo perfil, nova senha, tudo muito seguro para a pulada de cerca virtual.
Num perfil  verdadeiramente será  de um europeu, no segundo se declara australiano e, num terceiro, ainda há de se passar por americano. Oh mulheres desesperadas para casar do mundo subdesenvolvido que procuram o amor em terras promissoras com homens diferentes dos machistas da terra pátria, eis no menu um moço bonito, alto, louro de olhos verdes amendoados, simpático, dedicado, presenteador, apaixonado. Que lhes prometerá mundos e fundos. Em troca, inconsciente, forneçam uma pornografia virtual gratuita, maqueada em forma de amor à distancia. Tempos modernos. Sexo virtual. Gratuito. Cam girl pra que? Como é esperto o cibernauta. E o whatsapp, como se há de controlar? Ó céus. Melhor desistir do amor. Ou aceitar essa tremenda e prática ideia do relacionamento aberto.
 A vizinha da minha mãe, loirinha linda de 18 anos, se prostitui. Na porta da casa dela tem fila de carros. A hora do almoço é a hora mais cheia. Maridos diversos de  diversas outras mulheres - fiéis, romanticas, dedicadas? Uns de carrões, outros de carros bem velho. Um carro é tão  velho! Assim como o dono,  em condições visíveis de uma  aposentadoria compulsória. Esse velho do carro velho é cliente assíduo ao meio dia, de segunda a sexta. A hora da vizinha deve incluir refeição (e tinha até wifi  grátis, roubada da minha mãe, que a danada da jovem pediu à minha sobrinha a senha do wifi). 
Mas, voltando, esse senhorzinho libidinoso ao meio dia,  terá talvez uma boa esposa que aprecia a austeridade dele de chegar em casa todos os dias na hora certinha, vindo direto do trabalho, sem nem mesmo parar no bar para uma bebida...Ela, a esposa contente com a vida simples de um bom maridinho pobre mas trabalhador, deve fazer esforços pra ser a boa esposa economica, que aprecia o valor imaterial de seu homem. Talvez, até se mostre orgulhosa ao mundo que dinheiro não é importante, mas sim o companheirismo.
Enquanto ele, justificado pela volúpia que seria inerente ao macho de nossa espécia, gasta o  parco dinheirinho no suador  dos prazeres compráveis da juventude de certa moça.

21/05/2014

O ilusionista se retira do palco

Vim pra ficar. Muito. Muito pouco tempo. Quanto, não sei. Mas se dias, semanas ou meses:  tanto faz! Somente para os felizes o tempo não passa. Ou passa, e não se apercebia. Quanto não estamos a nos entreter com tolices imaginárias, o tempo passa tão rápido. Nem acredito que há mais de nove meses parti. Pra nunca mais voltar. Se havia dúvidas, e sonhos e até a esperança, quem diria, acabou-se. Bem vinda, minha nova eu.
 Todo dia olho o site pra ver se já começaram as convocações. Vontade de recomeçar essa nova fase de minha vida. Essa outra eu. Nem pareço  a mesma. A dor do fim do amor, amor que outrora me fez acreditar que a vida pode ser bonita como um perfeito filme frances rodado na paisagem magnífica do sul. Mas qual. O que era especial, já não o é. E, não sendo mais eu a mesma, também não é aquele que me cativou. Assim, tanto faz se vem as cinco ou as seis. Que pena do pequeno príncipe.
Se um sonho houve, era o do amor. Mas era mentira, e se acabou.
Um documentário alerta:
os publicitários são, na verdade, olhai bem, ilusionistas. 
A fazerem com que fiquemos tristes. 
Pois que os tristes compram mais. 
Para alcançar. 
Ela, 
a ilusão. 
Nunca fui de comprar. Minimal, sou eu. Mas agora, que sou triste, mas dessas tristezas alegres, ou antes, serenas porque perenas, não tenho vontade alguma de comprar. Nem mesmo se pudesse comprar a capacidade de ilusão de outrora eu a buscaria. Acho que estou a gostar de mim assim, triste - bem.
Enquanto não me chamam, vou curtir o verão dessa cidade linda. Minha cidade é feia e, pra quem não tem dinheiro, como eu,  é uma cidade morta. Ali não se faz nada sem dinheiro.
Tenho consulta com a advogada. E ele, embora volta e meia diz que não fará acordo nenhum, que eu deixe de besteira porque a única coisa que vou conseguir é ser esmagada pelo advogado dele... Mas qual, ele volta e meia diz outra coisa: hora quer reatar, pede que eu esqueça as mentiras horrorosas dele. Ora admite pra si mesmo que o game is over e que eu coloque os termos do acordo pra fazer um divórcio consensual, pois de outra forma não saíria por menos de 20mil só de honorários advocaticíos.

Nove meses depois

Nove  meses inteiros sem remédios e sem crises me deram uma certeza: Boderline eu não sou. Também estou mais consciente de que manter-me extremamente ocupada é ótimo para bloquear/ evitar novas crises.
Passei meses  om a bunda amassada na cadeira da sala de aula ou na da sala de estudos. Resultando que passei em oitavo lugar para um dos concursos que fiz.

.......
De volta a casa do "Marido"- como não tenho nada a fazer, fico com tédio mortal. Depressão às portas. Tomara que me convoquem logo.

......
Muita gente reclama que casamento é uma prisão e eu sempre fui muito criticada por ser bastante liberal nos meus relacionamentos, o que significava que tanto eu quanto par poderia fazer coisas individuais, inclusive viajar. Sou a única mulher que faz isso.
Dizem que ficar muitos dias longe do marido faz com que a solidão dele, tadinho, o leve a procurar outra. Besteira. Muito ou poucos dias, é a mulher sair, que a outra já está batendo  a porta.
Entao, embora eu não tenha resisitido emraquear algumas contas e printar algumas telas que venham a me faorecer no acordo do divórcio,  está tudo muito claro: esse relacionamento acabou, eu entendo, agora, porque minha irmã e uma de minha melhores amigas não permitem que maridos tenham contas de redes virtuais, nunca possam sair sozinhos, e ela nunca iriam sozinhas me visitar- porque significaria deixar o marido a merce da infidelidade "natural"mente adquirida e encorajada pela sociedade.
Da crise do ano passado, embora tenha tido que rompera com a amante virtual/fantasma do passado, ele nunca cortara a comunicação, muitissimo previlegiada pelo advento do whats app o qual eu deconhecia e só vim a ter um há dez dias. Foi eu embarcar, a outra chegou.
Porque diabos então esse ser que um dia me fez acreditar no amor de vida inteira permaneceu em contato comigo, dizendo me amar eternamente, me convidando acalentadoramente a vir ficar aqui com eles, sob seu suporte financeiro até que seja contratada?
E qual é a da mulher que se sujeita a vir ter aqui, ocupar meu lugar ainda nao oficialmente desapropriado, e fica a espera do dia em que eu parta?
Embora, a  dor, porque nesse tempo que ficamos longe e a saudade tão grande nos faz esquecer todos as dores do caminho, e as constantes afirmativas dele de que tentariamos de novo, volta  e meia tinha planos pra ir se instalar na minha futura cidade. Pois, assim, vim.

28/04/2014

Ansiedade

Ansiedade. Não durmo. Ou durmo mal. Passo os dias cansada e preocupada com o futuro.
Passei no concurso, para outra cidade. Daí, depois de ver o resultado provisório, fui pequisar mais sobre o lugar  e o resultado disso me fez arrepender de tê-la  escolhido. 
Ociosa, passo horas pesquisando moradia lá. Sou consumida pela angústia de como aluguel lá é caro. Como assim? Meu dinheiro não vai dar pra nada. E eu não tenho nem mesmo um pano de prato nem uma xícara, nem dinheiro no banco, como vou começar minha vida? Terei de ir para uma república, viver  super economicamente até ir comprando as coisas aos poucos. Tem um jogo de talheres de ótima qualidade que marido deu pra mãe, ela nunca usou e mo dará. Também posso levar meu guarda-roupa, minha cômoda e minha escrivaninha,  a cafeteira e a mesinha dela. Tapetes que a mãe faz tem alguns pra mim. 
Se eu permanecer nessa dieta de passarinho, nem vou precisar cozinhar, então, não deveria me preocupar com ausência de cozinha decente ou mesmo de qualquer uma
Mas, pesquisar para que? Pra que? Nem vão chamar por agora, não é mesmo? Tem copa e  eleição. Provavelmente vão demorar meses para me  chamar. Por isso volto para meu marido.
Quer dizer, tecnicamente ainda somos casados, e somos amigos. Talvez até mais que antes. Nos falamos todos os dias. Falo dos detalhes insórdidos dessa vidinha aqui, com os perrengues familiares de sempre. Sem romance. Outro dia, ele até disse que seus sentimentos esfriaram. O tempo encarregou-se de o livrar da dor da minha falta? Algum dia ele me amou de verdade? Claro que sim, mas quão profundo?
Entretanto, meu dinheiro acabou, minha relação com minha mãe nunca foi acertada. Marido se dispõe a me acolher e sustentar até eu ser chamada para trabalhar. Dele não recebo nada, quem mandou casar com pobrezinho sem juízo financeiro?
Assim, me vou para ele. Mais uma vez. Irmã e cunhado acham que reataremos. Onde já se viu, um marido e mulher se reunirem assim unicamente na base da amizade e necessidade? Se o amor  houvesse mesmo perecido, eu nem ía pensar em ir ter com ele, nem ele me aceitaria depois de tanto tempo.

19/04/2014

Tempo de remedicar

Oito meses desde que voltei. De agosto a dezembro, vivi a tristeza da volta naquelas condições- Ainda assim, consegui visitar amigas, passear  por duas cidades turísticas em Goiás, fui a Minas Gerais para o Ano Novo e tal, reaproximei das irmãs (na medida do possível).
Depois, ocupei-me plenamente com estudar para concurso público.  De outubro até fevereiro fiz curso preparatório e passava as tardes na biblioteca resolvendo exercícios e simulado, de modo que passei em oitavo lugar num pra nível médio nesse primeiro concurso. Depois, para um segundo, tive pouco tempo de estudo e  saí muito mal-Que pena. Tristeza me define. Esse outro era para cargo de nível superior na minha área, cuja lotação é o sonho de minha vida: ser analista ambiental numa UC na Amazônia, mas não foi dessa vez. Fiz um terceiro, sem estudar nada, só por fazer. E haveria um quarto para o qual estou inscrita, mas não estudei e nem vou fazer a prova.

Assim, de concreto, conseguirei uma vaga, mas pra quando é uma incógnita. O resultado sai dia 29 de abril. Há um concurso ainda válido até maio. Segue-se a Copa e as eleições, de modo que acho que entrementes a colocação, nao serei chamada para breve. E como tenho passagem de volta pra Europa para o dia 6 de maio, é provável que eu embarque e me deixe lá ficar até ser chamada. Ainda sou tecnicamente casada, e marido disse no problem, volto e fico lá.

Oito meses, sem remédio. Desde que começara a estudar, andava super bem. Agora, há 13 dias que  parei de estudar e voltei a sofrer de ansiedade e impulsos suicidas. Vejo o noticiário- mulheres dão à luz em porta de maternidades na Bahia e em São Luís, argh, que horror. No bairro, um é morto bem ali. Na TV, cenas chocantes de um faxineiro de lotérica em serviço sendo morto por assaltantes. Acho terrível isso, como pode esse país? Desespero de ter de morar aqui de novo. O caos nacional desperta meu caos interior e tenho vontade de morrer. Desanimo mesmo de viver.
O concurso para o qual passei: fiz a escolha da vaga não na minha cidade, mas para uma cidade do interior, de porte médio. Só depois que saiu o resultado, fui pesquisar sobre a cidade e veio o choque: o custo de vida lá é mais caro do que na minha cidade! A cidade cresceu significativamente e há um déficit imobiliário que fez explodir o preço dos aluguéis.Onde já se viu, uma kitnette por R$900, oo? Minha amiga mora numa das cidades turísticas mais charmosas e badaladas do estado e paga por uma apto gracinha R$580, 00! Eu bem que queria escolher concorrer às vagas na cidade dela, perdi ao optar por outra. E fiquei tão bem colocada que teria passado até mesmo aqui na capital. Triste. Desmotivada. Será o meu salário o bastante pra viver com dignidade?
Sozinha hoje em casa. Uma solidão.Crises à vista. Vou retormar a medicação.