27/08/2014

O padrasto

Entrou na vida da menina quando ela tinha nove anos.
Era uma tarde quente de um dia que talvez fosse de férias. Ou devia ser um fim de semana, pois a mãe estava em casa. Naquela exata tarde, a mãe foi tomar café na casa da vizinha. As amoreiras estavam carregadas. Cada criança tinha seu próprio pé de amora assim como outras árvores frutíferas, pois mãe trabalhava na superindencia de parques e jardins da cidade e trazia mudas. Um para a irmã mais velha, outro era do irmão e o mais bonito era o da menina, que sempre teve dedo verde.
Naquela tarde ensolarada, o irmão da menina subiu  no pé de amora que pertencia a ela. Sacudiu os galhos, ela ía recolhendo as frutinhas pretas que caíam no chão. Como o irmão era forte, umas poucas sacudidelas renderam bastante amorinhas para encher o copo do liquidificador. A menina estava muito contente: ia  pedir à mãe que fizesse um delicioso suco.
Mas irmão e irmã não concordaram com a idéia. Roubaram-lhe a jarra e foram distribuir as frutas entre a criançada da rua.
A menina, muito chateada foi procurar a mãe.
- Mãããããe, snif, ele, snif pegou as amoras do meu pé (de amora) e deu para os outros, Buá buá... eu queria tanto um suco,
- Menina, me deixa de  ser chata. Não posso ter um minuto de paz! Vá brincar. Deixa de criar caso por nada!
- Mas mãããããe! Eram minhas amoras. Buá.
- Minha filha, daqui a pouco vocês colhem outras amoras e eu faço um suco, tá bom?
- Tá bom nada, mãe. As amoras eram minhas, eu cuido tão bem do meu pé. Nunca deixo de  agoar, por isso minhas árvores dão muito mais frutas. Buá, eles roubaram tudo de mim.
-Oi, psiu. Disse o velho de cabeça branca, muito alto, de pele rosada. Tal feitura lhe rendeu o apelido de alemão. "Psiu, menina linda, chora, não, Vem cá no tio. Que foi?" 
A menina conta a estória aos prantos. Dramalhona que só ela.
- Pois acabou-se o motivo do choro. Toma aqui esse dinheiro, compre lá uns pacotinhos de suco, faça várias jarras e tome o que quiser com suas amiguinhas. 
O desconhecido enxuga as lágrimas da menina. Pronto, está contente agora? Vai lá. E o que sobrar de troco é seu, viu? Compre balinhas para adoçar essa carinha.
A menina vai.
Mais tarde, o alemão, como quem nao quer nada, dá uma passadinha para ver como vai a menina. Experimenta o suco. Toma assento. Conversa vai, conversa vem, fica para  jantar. Já está tarde, fica para dormir. Durante nove anos. Com a mãe e as filhas.

O padrasto

Entrou na vida da menina quando ela tinha nove anos.
Era uma tarde quente de um dia que talvez fosse de férias. Ou devia ser um fim de semana, pois a mãe estava em casa. Naquela exata tarde, a mãe foi tomar café na casa da vizinha. As amoreiras estavam carregadas. Cada criança tinha seu próprio pé de amora assim como outras árvores frutíferas, pois mãe trabalhava na superindencia de parques e jardins da cidade e trazia mudas. Um para a irmã mais velha, outro era do irmão e o mais bonito era o da menina, que sempre teve dedo verde.
Naquela tarde ensolarada, o irmão da menina subiu  no pé de amora que pertencia a ela. Sacudiu os galhos, ela ía recolhendo as frutinhas pretas que caíam no chão. Como o irmão era forte, umas poucas sacudidelas renderam bastante amorinhas para encher o copo do liquidificador. A menina estava muito contente: ia  pedir à mãe que fizesse um delicioso suco.
Mas irmão e irmã não concordaram com a idéia. Roubaram-lhe a jarra e foram distribuir as frutas entre a criançada da rua.
A menina, muito chateada foi procurar a mãe.
- Mãããããe, snif, ele, snif pegou as amoras do meu pé (de amora) e deu para os outros, Buá buá... eu queria tanto um suco,
- Menina, me deixa de  ser chata. Não posso ter um minuto de paz! Vá brincar. Deixa de criar caso por nada!
- Mas mãããããe! Eram minhas amoras. Buá.
- Minha filha, daqui a pouco vocês colhem outras amoras e eu faço um suco, tá bom?
- Tá bom nada, mãe. As amoras eram minhas, eu cuido tão bem do meu pé. Nunca deixo de  agoar, por isso minhas árvores dão muito mais frutas. Buá, eles roubaram tudo de mim.
-Oi, psiu. Disse o velho de cabeça branca, muito alto, de pele rosada. Tal feitura lhe rendeu o apelido de alemão. "Psiu, menina linda, chora, não, Vem cá no tio. Que foi?" 
A menina conta a estória aos prantos. Dramalhona que só ela.
- Pois acabou-se o motivo do choro. Toma aqui esse dinheiro, compre lá uns pacotinhos de suco, faça várias jarras e tome o que quiser com suas amiguinhas. 
O desconhecido enxuga as lágrimas da menina. Pronto, está contente agora? Vai lá. E o que sobrar de troco é seu, viu? Compre balinhas para adoçar essa carinha.
A menina vai.
Mais tarde, o alemão, como quem nao quer nada, dá uma passadinha para ver como vai a menina. Experimenta o suco. Toma assento. Conversa vai, conversa vem, fica para  jantar. Já está tarde, fica para dormir. Durante nove anos. Com a mãe e as filhas.

26/08/2014

As primeiras quatro semanas

Teorias são lindas... Cheguei para fazer dessa fase de casulo o meu período "comer-rezar- dormir". 
Como poeiraland não tem nada, a vida se reumiria a: ir ao trabalho,  meditar,  fazer yoga e pilates (ganhei do ex uma banda elástica) e estudar. Logo que cheguei, fui ao centro espirita Kardecista que tem aqui. Apresentei-me, fiz amizade. A líder lá é pessoa simpaticíssima. Ficou encantada com a presença ilustre de uma irmã lá da capital.
Quanto as estudos, por que não um desses cursinhos on line para outros concursos ou mesmo uma pós a distancia? Achei uma pós de uma faculdade top.  Os olhos da cara. Nao cabe no orçamento...Cursinhos também são caros. Optei por rateio. Adquiri um dos concurseiros federais cujas aulas nunca consegui baixar. Frustrada, desisti e odiei os rateadores. 
Mas já não os culpo. Como a internet toda hora pára de funcionar, liguei na companhia telefonica para reclamar. Esquivando-se de explicar a má qualidade do serviço, o atendente achou de pronto o motivo pelo qual eu não consigo baixar as vídeo aulas: eu só tenho 1 Mega de internet.
Mas lá na mãe a internet é super boa, e ela paga só dez reais a mais. Atendente checa velocidade da mãe:  5 Megas. Segundo ele, para vídeo aulas eu preciso de no mínimo igual ao que a mãe tem. Como o contrato do telefone/ internet é da moça que divide casa comigo, não posso tomar a decisão de adquirir outro pacote, até porque não serão só dez reais - o desconto que mãe pegou não  está em oferta aqui. Além disso,  estou com impulso de ir embora. 
(Ou, se ficar, quero achar uma casinha pra eu morar sozinha. Imploro a todo mundo que conheço para procurarem casa para mim.  A co-moradora saiu de férias tão logo cheguei. Assim, esse é o primeiro mês da minha vida que moro absolutamente sozinha.  Espalho bolsas e papéis pela mesa, sapatos pela sala e acumulo louça na pia. Quem quererá morar comigo?)
Assim, desisti do curso, e passei a ir mais a academia. Desde o primeiro dia em que me mudei para cá, matriculara-me, pois estou quase alcançando a meta de ter o peso que tive aos dezoito anos. E o foco agora é endurecer o bumbum e o tríceps. Entretanto, relapsa, malhei duas vezes na primeira semana, nada na segunda e uma vez na terceira semana e quarta semana.
Passa tão rápido! Essa é minha quinta semana! Ontém malhei. Vejamos se eu sigo o cronograma: segunda/ quarta/ sexta.
E deletei o facebook. Quase não durmo. Voltei aos remédios. As vezes durmo demais. As vezes perco o sono e passo a noite planejando como acabar com minha vida sem sentido e muito menos sem propósito.

O quarto de emburrar

Namorou cinco anos com um cabeludo barbudo gostoso de viver. Ele, hiper dependente químico, super alternativo. Mas  ela nunca nem mesmo experimentou da maconha que exalava pela casa o dia todo.
Ele era poeta, escritor, compositor, dançarino profissional, fisiculturista e ator. Entrara até num grupo de teatro com bons contatos. Como nada disso dava dinheiro, devido a dependencia química (ou porque  nunca pertencera ao sistema capitalista) nem terminara o ensino fundamental. Vivia da boa vontade financeira do pai, empresário rico que formara médicos três filhos e o quarto preferiu ser o engenheiro. Ah, o fumador  foi pai adolescente. A família pegou o menino e faz dele o que o pai recusou: formou se mais um médico. Estudou na universidade de  Brasília, mora, talvez, com o tio neurocirurgião, de quem recebe teto e o modelo: um dia se tornará como o tio, top de carreira, diplomas internacionais... Se sentirá mais filho desse que do outro? Quem sabe, um dia, o pai desapareça  e se possa esvainecer a vergonha que tem do tal. Ou nao. Os genes persistem, embora um fenotipo disfarcado, ainda que tenha se inserido direitinho no sistema, ama e adora o pai. Talvez se torne um especialista para entender porque o amado pai nascera e morrerá dependente quimico.
Entrementes, o filho nunca foi conhecido da menina. O mundo dos dois somente aos dois pertencia. Nunca a apresentara a qualquer parente. Nem quis conhecer a familia dela. Eram só os dois. E ele era a unica pessoa do mundo que a entendia. Embora ele sumisse às vezes- nunca soube porque, fora o primeiro na vida que a aceitava como era. Com os surtos emocionais. A montanha russa de emoções que sempre fora e sempre será.
Quando juntaram as escovas de dentes, ele teve uma idéia: criar o quarto do emburrar. Porque ninguém é obrigado a aguentar chatice alheia de gente surtada que tem aguras emotivas.
O quarto de emburrar teria tatame, e paredes acusticamente isoladas com cartelas de ovos vazias, e um bastao de  beisebol- para que se pudesse espancar paredes e coisas, tais como o saco de boxe. O isolamento acústico seria para que se pudesse gritar o quanto quisesse, sem incomodar os vizinhos e o outro.
O quarto também  teria servido para se fazer meditação. Nunca fora usado. Nunca passara de uma ideia. Naquela vida  a dois que durou poucas dezenas de dias. Se a menina descontente tivesse ficado contente com o projeto e o tivesse posto em pratica... Se a menina fosse naquele tempo quem é hoje, o quarto de emburrar teria existido. E teria se emburrado menos e seguido menos descontente na vida.

25/08/2014

Life sucks

Enquanto isso, no presente: assumi o novo emprego. Para tanto, tive de me mudar para uma cidade minúscula, poeirenta, cheia da fuligem das queimadas dos canaviais. Cidade horrososa. Não tem um clube, uma pracinha decente. Parece um  cenário abandonado de filme de faroeste.
E há um deficit de moradia fenomenal. Os preços das casas aqui são estratosféricos e ainda assim não se encontra casa para alugar. Tive de me contentar em dividir a casa com uma colega de trabalho.
( por R$ 580, reais a amiga aluga um apartamento lindo em Pirenópolis, no centro pertiho de tudo, com rio ao fundo, ao lado do sesc). 
Por R$ 750 aluga-se essa casa em Poeiraland. Uma casa nos fundos,  cujo custo da eletricidade consumida pelas inúmeras lâmpadas do quintal gigantesco incide sobre a minha conta, embora os proprietários deixem as luzes do quintal ligadas a noite toda. Uma casa nos fundos, sem nenhuma privacidade. O dono da casa, que mora no sobrado na frente, estaciona a mitsubisch dele bem na nossa janela da cozinha. Privacidade zero: também não temos interfone, que o único que existe é o da casa senhoril, e nossos visitantes- que não conseguem ligar no nosso celular pois a rede aqui é uma ineficiencia em estado de arte - precisam se apresentar ao senhor feudal. 
Se não bastasse, a casa, embora com acabamento de primeira, está infestada de barata. Depois de muito faxinar e litros de inseticida, que vão matar primeiros seus pulmões, achei o ninho! Melhor, digo, pior: os inúmeros ninhos das baratas são as gavetas do armário. Onde ficam as colheres grandes, os panos de prato, o mixer.
Há dois dia não como, pois tentei desinfetar as gavetas, mas o asco é tão imenso que vomitei por horas. E então joguei tudo o que havia de comer fora, nem vou mais à cozinha. Comer fora também não é uma opção, pois todo mundo sabe que lá fora a porqueira é muito maior que comida caseira. E isso é porque a colega disse que tem uma moça que duas vezes por mês faxina a casa pra gente por R$ 50,00 cada.
Assim, a nova cidade tem poeira demais, baratas demais, nenhum lazer e, como desgraça pouca é bobagem, o emprego é horrível. Ulcer maker job. Aff. O que fará a menina descontente?
De acordo com Pollyanna, a menina do jogo do contente: agora está bom, pois se gosta de reclamar, o prato está cheio.

A vidente

Aos treze anos, a menina fora com a amiga e colega de escola à uma vidente. Era uma vidente tão verdadeira que não cobrava nada, nem mesmo aceitava qualquer agrado. Se muito quisessem, poderiam doar alimentos ao asilo mantido pelo centro espírita do bairro.
Nessa idade puberil, a vidente sabia de antemão o que as garotas queriam: desvender o futuro amoroso. Já naquela época, a menina desconte perdera a fé ou qualquer religião- se é que algum dia a tivesse, embora a escola primária cardecista com doutrinamento semanal.
Enfim, embora descrente, ali se encontrava a menina frente à sábia mulher. Era um fim de tarde de uma terça feira de agosto. Metade do ano já se passara e André, o menino lindo de cabelos louros muitos longos, ainda não tinha notado a existencia da menina magrela, anêmica devido à desnutrição inerente à pobreza que caracterizara a infância da pobre criatura. Coisa perfeita aquele menino louro dos cabelos longos esvoaçantes. E tocava. E andava de skate. A cara da rebeldia.  A vidente não dissera, mas esse tipo  cabelo nada convencional virou pra sempre tipo da garota. A vidente também nada dissera se ele um dia teria olhos para a menina.
Ele não teve. Nunca. Embora um dia, alguns anos depois, malhada, cabelo na química bem tratado, a menina  se achara digna de passar na porta da casa dele e dizer um oi. Quem sabe agora. Mas não.
O que a vidente dissera, de outro modo, era o seguinte: haveriam três.
O primeiro teria o cabelo muito preto. A menina se perderia de amores. Acharia que era esse. Mas não era.
Daí haveria um segundo, bem branquelo. Tudo muito sereno. Ele acharia que ela era essa. Mas não, ainda não.
Daí, haveria um terceiro. Era esse.
- Um de cabelo louro, dona?
- Não, não vejo cabelo louro algum.
- De que cor então?
- Não dá para ver, só sei que não é o louro.
Descontente, menina segue pra casa. Bem sabia que Deus não existia. Quando é que um menino lindo desse iria ter olhos para essa menina feia e mirrada, tão magra que se venta forte tem de se segurar no poste para não ser levada junto com as folhas.