26/01/2017

Morta viva viva morta Morta viva viva mortaMorta viva viva morta

Morta
viva 
viva 
morta 
Morta 
viva 
viva 
morta 
Morta viva viva morta Morta viva viva morta

Quando era crianca, menina já nao era uma excelencia naquela brincadeira pedagógica de morto-vivo, em que a professorinha do jardim de infancia trabalha a concentracao dos pequenos.
Já na brincadeira de queimada, menina sempre ganhava: era sempre a menor da turma, corria rápido de um lado  para outro  e parecia se tornar invisível às queimadas, que nem nunca lhe dirigiam a bola, todos eram eliminados e menina permanecia lá.

Mais de vinte anos depois, menina continua mestra na arte de se esconder e de se desconcentrar. De fato, escondeu-se de vez do mundo, para nunca mais ser queimada. 
Falando em esconder se do mundo, sair do Facebook, o que lhe deu um alívio tao grande.
Aquela mídia social deve ser banida para os Borderlines,  pois que nada pode ser mais infernal para menina do que  entrar lá e ficar vendo as mentiras e ilusoes alheias, ficar lá futricando páginas infinitas a espera de um vislumbre da vida do ex e sua nova mulher,e chorar as dores passadas como se fosse ontem.
Marido vem para o almoco e encontra menina de pijama e roupao.
"Já nao combinamos que voce nao deve ficar aí de pijama dia todo na cama? Pelo amor de Deus, o sol está lindo hoje, voce tem de fazer caminhada, tem de sair dessa cama. Vá visitar meus pais, vá para a terma, ou se inscreva na academia."
"Me deixa em paz! Já lhe disse: se eu fosse normal, eu nao estaria aqui! Para piorar, agora nesse tédio infinito desenvolvo o projeto baleia. comeco a comer compulsivamente, já engordei seis quilos em dois meses..."
Há mais de tres anos, de certa forma, está mais morta que viva. Sofre dessa depressao e sindrome do panico: nao consegue sair de casa sozinha. Como já o disse várias vezes,  mesmo lá em casa materna, só conseguia sair de casa para o trabalho porque, se se atrasava, ligavam cobrando que viesse logo. Conseguiu entao robotizar esse hábito de se levantar. Chegava do trabalho antes das cinco e ía dormir.Já nem mais le, nem resolve sudoku, nem planeja viagem.
Segundo a irma mais nova, poderia ter a vida dos sonhos: magra, malhada, bom carro, sem filhos, com dinheiro na conta... 
Mas até passara fome por conta dessa inércia, porque nao conseguia sair de casa para ir ao mercado naqueles meses que morou sozinha e ficava dias sem comer, tendo um vale alimentacao substancial, que vendia todo mes e punha o dinheiro no banco.

13/01/2017

Morta

Depois da retirada das trompas, sofreu de diarréia por seis semanas acompanhad de dores abdominais horríveis, fez colonoscopia e voltou diversas vezes a diferentes ginecologistas, mas ninguém sabe porque desses sintomas. 
Gastroenterologista concluiu serem psicosomáticos e encaminhou menina para terapia e acompanhamento psiquiátrico. Acontece, doutor, que o antidepressivo já nao tem mais efeito. Menina aumentou por conta própria a dose,  escreveu o manual da vida sana e, todo dia, ou quase:
- alonga-se ao levantar;
-faz dez minutos de meditacao matinal;
- faz a oracao da serenidade:
-escreve o livro da gratidao (outro dia ficou assustadíssima ao receber dessas mensagens no whatsapp " Agradeca! já imaginou se voce acordar com somente aquilo pelo qual agradeceu no dia anterior?"

Desde entao, menina agradesse pelo marido zeloso, pela comida, pelas pessoas envolvidas em toda a cadeia produtiva desses alimentos...Menina agradece pela família e por todos estarem bem; agradece por viver em seguranca financeira, física, social, espiritual. Vive num país desenvolvido sem guerras e sem catástrofes naturais, sem medo de voltar a noite, sem congestionamentos, etc.
Outro dia, Menina passou  meia hora agradecendo! Principalmente a questao da seguranca: naquele tempo em que voltara ao Brasil, desenvolveu ataques de panicos. Porque agora, a coisa ficou tao séria que  nao se pode nem mais sentar à frente da casa para ver a vida passar. (pouco antes de ela partir mais uma vez, estavam a mae e a vizinha sentadas na calcada a conversar, apareceu um motoqueiro armado. Levou celular, aliancas e anéis e brincos).
Mae de menina nao sai mais de casa, nem para ir checar as filhas, porque tem medo de a casa ser arrombada de novo.
Em casa de menina, porta fica aberta, carro aberto com chave na ignicao a noite toda. Seguranca pública garantida, mas menina jamais sai de casa. Dorme o dia todo, mantem as cortinas fechadas. Os vizinhos pensam que menina vive em cativeiro. 
Um cativeiro mental. Porque liberdade e meios para ir e vir menina tem garantidos. Sogro, inválido, cedeu para menina o próprio carro que ele já nao pode mais usar . Entao, agora, mesmo que marido vá no carro dele, menina nao fica a pé. Mas ela jamais sai de casa. Nao tem uma amiga, nao tem qualquer  vontade de bater pernas no shopping ou de ir a terma ou ao cinema. Menina fica o dia inteiro  na cama. Nem é que durma. As vezes, é bom: nem pensa. Esse vazio é o que é de melhor. Consegue ficar horas deitada num vazio interior e exterior bem profundo. Como se estivesse morta. Na  verdade, menina sabe que já está morta. Já nao le mais blogs nem sites interessantes, nao esta mais em qualquer mídia social a nao ser o whatsapp pelo qual se comunica com a mae através da iluminada sobrinha.
Ontem, marido chegou e choramingou;
"-Criatura, voce nao sai de casa mesmo? Hoje fez um solzinho lindo. As vizinhas perguntaram or voce. "
...
"Voce tem de sair de casa, tem de reagir! Nem ao mercado  voce vai mais"
- Tem uma lista de compras no painel na cozinha, se voce tiver precisando de alguma coisa urgente,  eu dou um jeito de ir amanha.
" Nao é que estou precisando de nada, é que voce tem de sair de casa, por favor. Será que vou ter de te internar?"
Enterra, por favor, pediu menina.