31/10/2017

Es wird alles gut

O povo daqui é bem otimista. Como os japoneses, eles aqui também nao tem qualquer tolerancia para mimimi. Nao é de costume se queixar nem reclamar de nada. Nao fica bem expressar pessimismo.
Contrária à cultura local, Menina volta e meia comeca com suas ansiedades e lamuriacoes, na frente de quem quer que seja, ainda que tenha se prometido ser diferente e procura conter-se.
-Menina,  pensa positivo, sempre dá certo. De uma coisa voce pode ter certeza: a vida sempre segue em frente. Além disso, esperar o melhor ou o pior custa o mesmo.
 Es geht immer weiter. Ouve Menina com frequencia.  Tal ditado popular acalenta Menina. Esse otimismo e resignacao serena deles sempre a fascinaram. Para uma desesperada, viver numa cultura assim é acalentador.

- Mach dich nicht so viel Sorgen, falou a chefe à ela. Eines weiss ich sicher: es geht immer weiter und es wird alles gut.

Tanta verdade num minuto de conversa. A chefe parece um anjo, na aparencia e na personalidade. 
Se ela soubesse como suas afirmaces sao verdadeiras e como Menina é tola em resistir a simplesmente viver e deixar viver.
Primeiro, es wird alles gut: no fim, tudo da certo mesmo para Menina. Se a chefe soubesse das coisas que Menina já viveu, de como suas crises a poderiam te-la colocado em sérios perigos, mas nunca encontrou nada doentio e monstruoso no caminho.
Insone, pensa em como de fato tudo lhe vai bem. Da vez que saiu a pé no meio da noite andando a esmo com vigor, correndo, chorando! Tantas vezes agira assim desnorteada e sem rumo. Mas daquela vez, andou tanto que foi parar lá no centro da cidade. Quando a crise passou, percebeu onde estava e já nao circulavam mais onibus nem mesmo tinha dinheiro, porque saiu sem a bolsa nem nada. Foi para a Rodoviária e sentou-se lá como se esperasse por uma conexao.
Depois de mais de duas horas lá sentada, pararam de vir os onibus interurbanos também. Nao havia quase ninguém mais, exceto um ou outro deitado no chao; passageiros para o dia seguinte? Pessoas sem teto?
Lá pelas tantas, o funcionário de um guiche sentou-se perto dela:
-Voce vai para onde? Aqui nessa plataforma nao tem mais parada hoje, nao. Só as cinco da manha.
-Pois é, eu vim de Cuiabá e tenho de encontrar aqui a minha tia que chega de Passaquatro de manha, daí a gente segue viagem para o Espirito Santo.
-Vai ter de esperar a noite toda. Aqui tá frio - falou ele enquanto gentilmente tirava sua jaqueta e cobria os ombros de menina- lá no guiche tem colchonetes e cobertas, quer ir deitar lá? Quando o onibus da sua tia vier, eu te acordo.
Menina foi. Na parte de fundo do guiche, ele tirou dois colchonetes, colocou um pra menina no chao e ficou um tempo ainda sentado à mesa, como se trabalhasse. Menina fingia que dormia e o observava. Viu quando ele pegou um revolver de uma gaveta, foi até o armário, pegou outro colchonete, colocou colado ao de menina e se deitou.
Menina acordou:- Oi, falou meio sonolenta.
Daí ele quis conversar. Conversa trivial como se fossem amigos de longa data. Nem perguntou cade namorado, que era a primeira e única pergunta que os rapazes costumavam lhe fazer. 
(A terapeuta afirma que é tolice Menina nao ter autoestima e se achar  feia e acabada, pois que  Menina tem uma beleza natural incrivel, afirmou ontem mesmo. E quando Menina respondia que nao tinha namorado, os caras nunca lhe acreditavam, eles sempre tinham certeza de que uma gatinha assim ja´tinha alguém,, mas menina sabia que é só papo).
Depois de um tempo de certa cortesia, Menina como quem nao quer nada, assim na maior inocencia e na mais candida voz de menina desprotegida disse:
- Sabe, eu nao to vindo de Cuiabá, nao. Eu fugi assim só com a roupa do corpo lá da Clínica Psiquiatrica. Puseram-me lá, sabe. Dizem que sou doida. Dizem que matei um tanto de gente. Mas eu nao acredito, nao. Voce acha que eu tenho cara de doida e assassina?
-Que isso! Voce parece um anjo desprotegido. Por isso que eu te abriguei aqui, porque eu sinto que voce é boa pessoa. E minha intuicao é boa, o Senhor é comigo.
-Pois é, Deus cuida de mim também, por isso me trouxe para cá, para os cuidados da sua boa pessoa.

Depois de desconversar, ele deu boa noite, virou-se para o lado e dormiu.
Menina também chochilou e foi acordada por ele: -Ei, acorda, voce tem de ir que eu já vou abrir o Guiche e nao podem te ver aqui.


27/10/2017

Invisível

Três meses e ninguém sabe.
Emagreceu  um bocado, de tanto  vomitar e da falta de apetite por conta da náusea infinita.
Por essas bandas, não se costuma contar a ninguém antes das doze semanas. Mas Menina não vai contar a ninguém.

Não tem amigas de fato com quem verdadeiramente compartilhar a novidade aqui na Dorf.
Outro dia, encontrou a conhecida L. Nada notou. Ligou para K diversas vezes e, mesmo sem querer, choramingou a fissura por certas comidas: o bom caldo de frango da mãe. Até achou uma receita em vídeo no you tube - mas não tem mandioca nem milho fresco. Depois, ligou de novo e, mais uma vez, inadvertidamente comentou da saudade de salgado e comida de rua. Das frutas do quintal, ai que lindas goiabas. As mangas e caja-mangas ganhadas em baciadas dos vizinhos. As romäs perdendo no pé. O suco de mamão com acerola, as pitanguinhas lindas do quintal.
Nem L nem K perceberam nada. No trabalho,  ainda que vá trabalhar mais morta que viva, sendo o trabalho leve, dá conta do recado e ninguém reparou nada.

Menina acha engraçado, porque ela sempre soube das amigas grávidas. Por duas vezes, soube antes mesmo da emprenhadas. Lembra da W: 
-W, você está grávida? 
-To não, Menina, tá louca? E fala baixo que a minha mãe acha que sou virgem.
Semanas depois W  fez um exame de farmácia e deu positivo. Foi ao laboratório do bairro onde o exame de sangue dera negativo. Seguiu-se outro de farmácia, positivo...

W comentou com menina: "Nossa, naquela época nem  imaginava e como você soube?
As grávidas tem um que na face. É bater o olhos e reconhecer.
Agora mesmo, menina se olha no espelho. Anda muito alienada de si mesma. Olha para si, mas está fora; é como se olhasse uma terceira pessoa. E ali, na face refletida, está aquela expressão tao clara de grávida. 
Mas ninguém vê. Nem a sogra, ninguém. Na faculdade, ora e meia tao cansada chega a cochilar. No trabalho, sobe escadas lentamente como se tivesse pernas pesadamente acorrentadas. Decidiu que não vai contar para ninguém até os nove meses.
Volta e meia ouve falar de jovens que só souberam estar grávidas na hora do parto inesperado. Menina não acredita nelas. Ainda que menina também só deu conta dessa e da interrompida gravidez já pra mais de mês. E por causa dos vômitos. Não fosse isso, todos esses desconfortos poderiam entrar na lista dos desconfortos da depressão cronica.

25/10/2017

Tres meses

As grávidas sofrem de pressao alta. Sim claro, porque grávidas  nao sentem gosto de nada! 
Nunca fui de polvilhar um salzinho a mais no prato. Irrita-me quando fazem isso com a comida que cozinhei. Eu sei,  acham minha comida sem sal. Na verdade, eu, minha mae e minhas irmas cozinhamos lindamente, usamos tanto tempero. Amo nossa comida. Mas, tem gente, tipo marido, que mesmo sem provar, já salpica  o prato.

Desde mes passado, venho sentido gosto de nada e aderi ao horroroso hábito dele de salgar o prato. Mas depois da primeira colherada.
Além da falta de paladar, também me ocorreu coisa que nunca imaginei: nao posso ver café. Há dois meses, minha cafeteira foi desativada por tempos indeterminados. E, no trabalho, quando passo perto daquelas máquinas de café automáticas, me vem o vomito na hora.
Eu, que bebia café até sete vezes por dia.

Desde junho, o blog ficou esquecido. Nem a senha lembrava mais, tive de pedir outra.
Deveria ter começado o TCC. Mas fui curtir o verão, nadar, remar, subir montanha, ficar simplesmente horas deitada na rede estendida na varanda a tarde inteira de pois de chegar do trabalho.
Fui à capital visitar lindas amigas e a melhor cidade do mundo. Ah se eu pudesse.

O outono chegou e com ele a vida ao normal: trabalho de manha, dormir à tarde, aulas à noite. Minha vida resume-se literalmente a isso. Fim de semana, se estou mais ou menos bem, estudo, senão, somente durmo, durmo, durmo. Certeza que eu era um gato ou urso polar noutra vida.
A casa, uma sujeira! Que Menina Borderline não é dessas super mulheres poderosas que conseguem cumprir jornada dupla e ainda ter uma casa brilhando.

A vida seguia seu ritmo entendiante.
Mais deprimida do que nunca, mas estranhamente, seis meses de emprego novo sem nunca ter faltado um dia. Um atestado médico sequer. Apesar das diversas dores e doenças psicosomaticas, já estava se acostumando a seguir a onda, ir levando. Viver de verdade, nem sabe o que pode significar. Existência, apenas.
Fala disso com a terapeuta semanalmente, que acha. "Menina, você ainda é nova. Larga esse marido, vá reencontrar sua autonomia, se redescobrir e encontrar um novo amor".
- Você não entende, é justamente essa loucura de "encontrar o amor" que me trouxe a esse estado zumbi de existência. Porque eu não tenho vida própria. Eu não deve ter ficado nem dois meses da minha vida sozinha. Acho que eu sozinha comigo mesma não posso".
Já nem mais lembrava da ideia de  tentar engravidar. Sexo continuava raro e raso por aqui. Meados de agosto, rolou uma rapidinha que eu nem sentiu.
Meados de setembro começaram os vômitos, as náuseas, os enjoos.

E gravidez fez Menina contente? Que nada. Tem mais pensamentos suicidas que antes.
Bem que a terapeuta, doida varrida que diz tudo o que pensa, avisara:  "Sei não, assim, desequilibrada, a maternidade não parece ser apropriada".
- Mas, tem gente supostamente super equilibrada e normal que como mãe são uns capetas. Tem muita gente infeliz e perturbada mesmo tendo nascido em "perfeitos ideais".
- É verdade, teve de concordar a terapeuta.

Em agosto, dia 17, a Concepcion desse filhote de borderline sem nocao.