O povo daqui é bem otimista. Como os japoneses, eles aqui também nao tem qualquer tolerancia para mimimi. Nao é de costume se queixar nem reclamar de nada. Nao fica bem expressar pessimismo.
Contrária à cultura local, Menina volta e meia comeca com suas ansiedades e lamuriacoes, na frente de quem quer que seja, ainda que tenha se prometido ser diferente e procura conter-se.
-Menina, pensa positivo, sempre dá certo. De uma coisa voce pode ter certeza: a vida sempre segue em frente. Além disso, esperar o melhor ou o pior custa o mesmo.
Es geht immer weiter. Ouve Menina com frequencia. Tal ditado popular acalenta Menina. Esse otimismo e resignacao serena deles sempre a fascinaram. Para uma desesperada, viver numa cultura assim é acalentador.
- Mach dich nicht so viel Sorgen, falou a chefe à ela. Eines weiss ich sicher: es geht immer weiter und es wird alles gut.
Tanta verdade num minuto de conversa. A chefe parece um anjo, na aparencia e na personalidade.
Se ela soubesse como suas afirmaces sao verdadeiras e como Menina é tola em resistir a simplesmente viver e deixar viver.
Primeiro, es wird alles gut: no fim, tudo da certo mesmo para Menina. Se a chefe soubesse das coisas que Menina já viveu, de como suas crises a poderiam te-la colocado em sérios perigos, mas nunca encontrou nada doentio e monstruoso no caminho.
Insone, pensa em como de fato tudo lhe vai bem. Da vez que saiu a pé no meio da noite andando a esmo com vigor, correndo, chorando! Tantas vezes agira assim desnorteada e sem rumo. Mas daquela vez, andou tanto que foi parar lá no centro da cidade. Quando a crise passou, percebeu onde estava e já nao circulavam mais onibus nem mesmo tinha dinheiro, porque saiu sem a bolsa nem nada. Foi para a Rodoviária e sentou-se lá como se esperasse por uma conexao.
Depois de mais de duas horas lá sentada, pararam de vir os onibus interurbanos também. Nao havia quase ninguém mais, exceto um ou outro deitado no chao; passageiros para o dia seguinte? Pessoas sem teto?
Lá pelas tantas, o funcionário de um guiche sentou-se perto dela:
-Voce vai para onde? Aqui nessa plataforma nao tem mais parada hoje, nao. Só as cinco da manha.
-Pois é, eu vim de Cuiabá e tenho de encontrar aqui a minha tia que chega de Passaquatro de manha, daí a gente segue viagem para o Espirito Santo.
-Vai ter de esperar a noite toda. Aqui tá frio - falou ele enquanto gentilmente tirava sua jaqueta e cobria os ombros de menina- lá no guiche tem colchonetes e cobertas, quer ir deitar lá? Quando o onibus da sua tia vier, eu te acordo.
Menina foi. Na parte de fundo do guiche, ele tirou dois colchonetes, colocou um pra menina no chao e ficou um tempo ainda sentado à mesa, como se trabalhasse. Menina fingia que dormia e o observava. Viu quando ele pegou um revolver de uma gaveta, foi até o armário, pegou outro colchonete, colocou colado ao de menina e se deitou.
Menina acordou:- Oi, falou meio sonolenta.
Daí ele quis conversar. Conversa trivial como se fossem amigos de longa data. Nem perguntou cade namorado, que era a primeira e única pergunta que os rapazes costumavam lhe fazer.
(A terapeuta afirma que é tolice Menina nao ter autoestima e se achar feia e acabada, pois que Menina tem uma beleza natural incrivel, afirmou ontem mesmo. E quando Menina respondia que nao tinha namorado, os caras nunca lhe acreditavam, eles sempre tinham certeza de que uma gatinha assim ja´tinha alguém,, mas menina sabia que é só papo).
Depois de um tempo de certa cortesia, Menina como quem nao quer nada, assim na maior inocencia e na mais candida voz de menina desprotegida disse:
- Sabe, eu nao to vindo de Cuiabá, nao. Eu fugi assim só com a roupa do corpo lá da Clínica Psiquiatrica. Puseram-me lá, sabe. Dizem que sou doida. Dizem que matei um tanto de gente. Mas eu nao acredito, nao. Voce acha que eu tenho cara de doida e assassina?
-Que isso! Voce parece um anjo desprotegido. Por isso que eu te abriguei aqui, porque eu sinto que voce é boa pessoa. E minha intuicao é boa, o Senhor é comigo.
-Pois é, Deus cuida de mim também, por isso me trouxe para cá, para os cuidados da sua boa pessoa.
Depois de desconversar, ele deu boa noite, virou-se para o lado e dormiu.
Menina também chochilou e foi acordada por ele: -Ei, acorda, voce tem de ir que eu já vou abrir o Guiche e nao podem te ver aqui.