05/06/2016

Analgésicos e soníferos

Naquele sábado de incomum quietude na rua, a cachorrinha veio do quintal gemendo de dor, nem conseguiu chegar até a casa: quedou-se no corredor em frente à janela de menina. Sem conseguir andar, tentava se arrastar, mas era paralisada por uma dor terrível e espasmos na altura do estômago. Uivava e latia pedindo socorro.
A mãe prendia bobes no cabelo de menina enquanto a irmã assistia à televisão.
-Corre lá, irmã. Acode que a titilzinha está em apuros.
Irmã é difícil de se levantar do sofá.
Mãe termina rápido de prender o último bobes e vão lá ver o que acontece.
A cadelinha parece ter sido envenenada. Encontram-na com a língua de fora, a babar, com os músculos do corpo tensos, toda ofegante, respiração muito alterada. Foi com certeza envenenada. Ou pela vizinha da direita, que é um demônio e está sempre aprontando. Ou pode ter sido a vizinha da esquerda, com quem houve uma briga recente, apesar da amizade.
Irmã acha que pode ter sido mordida de cobra. Quintal está cheio de mato e lixo. Além de cobra, também já se viram lacraias lá. E lacraias são tão venenosas quanto serpentes. Procuram pelo corpo inteiro uma mordida. Nada. Tadinha da cadelinha, tão magrinha. Com muito custo sarou da hepavirose.
Dinheiro para veterinário a família não tinha. Que essas coisas de petshop só lá mesmo em bairro nobre.
-Se deram veneno, bora fazer a lavagem gástrica nela.
-De que jeito, minha filha?
-Uai, igual faziam em mim quando tentei suicídio: enfiamos a mangueira, essa ali mesmo do jardim, na boca dela, ligamos a água e deixamos correr.
Assim fizeram, mas a cachorrinha não vomitou. Defecou, muito. Choro e latidos terríveis continuavam. Menina pede à irmã para ir atrás de carvão ativado. Enquanto isso, com uma seringa, dá mel para a cadelinha. Mel é um santo remédio. Há de proteger o estômago. Além disso, até aquele cara russo escapou de morrer envenenado porque uma overdose de açúcar deve ter neutralizado a estricnina.
Cachorrinha, no desespero. Menina e sua mãe atordoadas sem saber o que fazer. Ela vai morrer, pensam desoladas.
-Pega aqui, mãe, dá para ela.
-Que é isso?
-Esse é aquele analgésico superpotente que eu te dou de vez em quando, para aliviar a dor das costas. É o que há de mais forte no mundo. E esse aqui é dos seus remédios de dormir.
-Dormir?
Sim, mãe, ela dorme e não vê a dor, igual eu faço.
Exitante, mãe concorda. Amassam os comprimidos, diluem e com seringa o remédio desce goela adentro.
Irmã volta, sem o carvão ativado. Fica chocada com o que fizeram.
-Suas doidas? Remédio de gente no cachorro!
-Ora, eles testam remédios em animais.
-Em ratos!
-Sim, mas testam também em cães. Outro dia vi uma clínica fechada por ativistas lá nos EUA. 
O animal permanece gemendo fraquinho, ofegante; os espasmos diminuem a frequência, até que ela parece dormir. Os olhos, entretanto, nunca fecham.
Menina, chora, mãe de menina chora.
Duas horas depois os latidos silenciam e ela repousa.
Mãe acredita que ela amanhecerá morta.
Duas da manhã, menina acorda e vai dar uma olhada nela. Eis que o pequeno animal despertou, mudou de lugar. Ao ser chamada, veio andando, serelepe.

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