13/01/2017

Morta

Depois da retirada das trompas, sofreu de diarréia por seis semanas acompanhad de dores abdominais horríveis, fez colonoscopia e voltou diversas vezes a diferentes ginecologistas, mas ninguém sabe porque desses sintomas. 
Gastroenterologista concluiu serem psicosomáticos e encaminhou menina para terapia e acompanhamento psiquiátrico. Acontece, doutor, que o antidepressivo já nao tem mais efeito. Menina aumentou por conta própria a dose,  escreveu o manual da vida sana e, todo dia, ou quase:
- alonga-se ao levantar;
-faz dez minutos de meditacao matinal;
- faz a oracao da serenidade:
-escreve o livro da gratidao (outro dia ficou assustadíssima ao receber dessas mensagens no whatsapp " Agradeca! já imaginou se voce acordar com somente aquilo pelo qual agradeceu no dia anterior?"

Desde entao, menina agradesse pelo marido zeloso, pela comida, pelas pessoas envolvidas em toda a cadeia produtiva desses alimentos...Menina agradece pela família e por todos estarem bem; agradece por viver em seguranca financeira, física, social, espiritual. Vive num país desenvolvido sem guerras e sem catástrofes naturais, sem medo de voltar a noite, sem congestionamentos, etc.
Outro dia, Menina passou  meia hora agradecendo! Principalmente a questao da seguranca: naquele tempo em que voltara ao Brasil, desenvolveu ataques de panicos. Porque agora, a coisa ficou tao séria que  nao se pode nem mais sentar à frente da casa para ver a vida passar. (pouco antes de ela partir mais uma vez, estavam a mae e a vizinha sentadas na calcada a conversar, apareceu um motoqueiro armado. Levou celular, aliancas e anéis e brincos).
Mae de menina nao sai mais de casa, nem para ir checar as filhas, porque tem medo de a casa ser arrombada de novo.
Em casa de menina, porta fica aberta, carro aberto com chave na ignicao a noite toda. Seguranca pública garantida, mas menina jamais sai de casa. Dorme o dia todo, mantem as cortinas fechadas. Os vizinhos pensam que menina vive em cativeiro. 
Um cativeiro mental. Porque liberdade e meios para ir e vir menina tem garantidos. Sogro, inválido, cedeu para menina o próprio carro que ele já nao pode mais usar . Entao, agora, mesmo que marido vá no carro dele, menina nao fica a pé. Mas ela jamais sai de casa. Nao tem uma amiga, nao tem qualquer  vontade de bater pernas no shopping ou de ir a terma ou ao cinema. Menina fica o dia inteiro  na cama. Nem é que durma. As vezes, é bom: nem pensa. Esse vazio é o que é de melhor. Consegue ficar horas deitada num vazio interior e exterior bem profundo. Como se estivesse morta. Na  verdade, menina sabe que já está morta. Já nao le mais blogs nem sites interessantes, nao esta mais em qualquer mídia social a nao ser o whatsapp pelo qual se comunica com a mae através da iluminada sobrinha.
Ontem, marido chegou e choramingou;
"-Criatura, voce nao sai de casa mesmo? Hoje fez um solzinho lindo. As vizinhas perguntaram or voce. "
...
"Voce tem de sair de casa, tem de reagir! Nem ao mercado  voce vai mais"
- Tem uma lista de compras no painel na cozinha, se voce tiver precisando de alguma coisa urgente,  eu dou um jeito de ir amanha.
" Nao é que estou precisando de nada, é que voce tem de sair de casa, por favor. Será que vou ter de te internar?"
Enterra, por favor, pediu menina. 

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