07/01/2018

O forno

Natasha, amiga de infancia, engravidou no final da adolescencia e nao frequentou um curso superior. A mae e os tios nunca quiseram que se casasse por conta da gravidez. Era para ficar com a mae e continuar os estudos. Porem, como era evangélica, se continuasse a "viver no pecado" -sexo fora do casamento - seria proibida de participar de atividades da igreja, como tocar na bateria e cantar no louvor dos jovens.
Casou-se entao. Nao durou muito, separou-se e até ja se casou de novo. 
Naquela época que o primeiro filho era pequeno, amiga se queixou à menina:
- Quando se é mae, resume-se a isso. 
-Como assim?
-Eu deixei de existir, sabe? Por exemplo, meus tios e madrinha vem aqui e nem me cumprimentam, já perguntam pelo Niklas. (Os parentes endinheirados  sempre foram atenciosos e generosos com a Natasha e sua mae, mas agora os presentes eram trazidos só para o menino).

Anos depois, Menina no consultório da ginecologista:
-Está tudo certo com o bebe. Lá no hospital também nao encontraram nada.
-Mas é por isso que eu vim aqui: porque o remedio receitado lá para essa dor abaixo do peito nao fez efeito algum, porque isso nao tem anda há ver com gastrite! Eu nao aguento mais de tanta dor. Voces nem fizeram exame algum. 
-Mas com o bebe está tudo certo. 
-Que bom que está tudo certo com meu filho, mas e eu? Eu tenho de estar bem pra ele continuar bem, sim?
Consulta encerrada entrementes.
Assim, menina volta pra casa concordando com a amiga: há uma anulacao da pessoa.
-Sinto-me como se de repente eu seja só o forno onde o bolinho está assando. Que falta de respeito. Se o forno estraga, o bolo murcha.
-Para de fazer drama. Eu cuido de voce. Nao estou sempre aqui com voce?

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