05/04/2016

Arisca

Fez um almoço tirado do livro de receitas Michelin. Coisa rara: depois de pronto ficou bonito e apetitoso como na foto do livro de receitas. Mas o namorado nao gostou de tudo. Achou que o repolho deve ser cozido em muito mais vinagre, também considerou que maçãs  carameladas é puro consumo desnecessário de açúcar e manteiga. "Você nao vive dizendo que essa combinacao é a pior de todas" Lembrou ele à namorada. Elogios, ele nao teceu nenhum. Menina levantou da mesa furiosa. 
Foi para a cozinha emburrada. Fechou a porta e tomou isolada seu café. Amargo café. Menina azeda. Arrepedida de ser um animal arisco. Como reagiria uma mulher elegante nessa situacao? Menina delibera que esse papel de dona de casa perfeita nao lhe cai bem. Onde já se viu, todo o sentido do dia e da vida se resumir a fazer um jantar perfeito e ser elogiada por isso. Chato isso! Uma vida paradoxal -todo mundo acha menina estudada, qualificada, culta, mas menina nao é nada nessa vida. Nao escolheu a profissao certa para si, nao fez, portanto qualquer carreira, nao arrumou um emprego decente que lhe trouxesse realizacao. Menina é um fracasso. E se odeia. E quanto mais ódio a si mesma e às situacoes dessa vida descontente, mais menina se mostra arisca.
Aos treze anos, menina foi trabalhar de doméstica para uma família de temperamento sereno, pessoas calmas. Eles tinham uma fazenda, pertencente às quatro irmas que, quinzenalmente ou mensalmente, se reuniam todas lá no campo com suas respectivas famílias-  para descansarem da cidade grande, respirarem ar puro, verem o por do sol, admirar o céu estrelado infinito, subir o morro "para que mesmo?", indagava ela aos patroezinhos pouco mais velhos que ela. "Ora, para chegar ao topo". E menina gostou da sensacao alegre de vencer a subida e da vista linda lá de cima.
Faziam também pamonhas, queijos e requeijao, molhos de tomates e muitas outras coisas caseiras e organicas, que eles eram todos adeptos da alimentacao organica e macrobiótica. Foi lá que menina aprendeu a comer verdura e a apreciar alimentos integrais, assim como ervas medicinais. O patrao, farmaceutico de formacao, pareceu-lhe a princípio muquirana ao recusar comprar qualquer comprimidinho diante das constantes dores de cabeca e mal estar estomacal da menina; ele a tratava com chá de alegrim e outros.8
Menina notou que naquela casa ninguem sofria dos constantes mal-estar presentes na casa dela... Além disso, naquela casa nunca se comprava refrigerantes ou bolachas, que eram luxos inexistentes na casa da menina pobre e um dos extras pelas quais elas se resignava a ser uma garota miserável explorada no trabalho doméstico infantil. E ainda ficava livre do padastro pedófilo.
Só nao ficava livre do temperamento resultante das condicoes da vida. Sempre que a família empregadora a apresentava a outros, diziam discretamente. "arisca", e piscavam.
Treze anos tinha a menina. Se miserável nao fosse, estaria ainda a brincar de bonecas ou a ler as revistas Capricho para aprender a ser consumista e sedutora.  Mas nao, ela fora destinada a ser uma mini adulta capaz de preparar um jantar para 20 pessoas nessa idade. Um enteado de um dos cunhados da patroa parecia, entrementes, ter sido seduzido pela arisques da menina, pois que nao lhe incomadava seu jeito de ser e sempre que a via de folga la no campo, a convidava a ir andar no mato, subir o morro, jogar bola. 
" Voce é legal. Ao contrário do que dizem, nao acho voce arisca. Mas voce tem uma coisa diferente."
" Diferente como?"
" Sei lá, volta e meia voce parece estar bem longe, noutro lugar. Seu olhar fica bem focado em nada, bem longe mesmo"
"Sério?"
....
"....Agora, por exemplo, em que voce está pensando?" 
"?"
" É que voce acabou de fazer aquilo de novo. Digo, de ter a cabeca noutro lugar"
"Ah, sei lá. Esquece! Bora correr até lá na mina?"

Anos depois, vários surtos, anos até achar o diagnóstico e saber que essa alienacao é o recurso de sobrevivencia mais sintomático no transtorno borderline dela. E menina se lembra que já na escola primária outro coleguinha notara a mesma coisa: que menina volta e meia dava umas viajadas.
Nenhuma adulto  entretanto percebera nada. Menina era invisível para os adultos. Como nota o pequeno príncepe " os adultos na veem nada, só números".

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