09/04/2016

Da liberdade

Tem gente que mesmo atrás das grades é livre. 
Tem gente que sempre foi e sempre será livre.
Liberdade, essa danada! 
Na nova residencia há mais de cinco meios de sair dela.
Passa dias e dias sem pisar lá fora. Tem carro, motos e bicicletas à disposicao.
Embora more no meio do nada, em frente a um lindo bosque, a casa da sogra, o mercado e a vila nao ficam longe. Poderia ir a pé, se o cárcere fosse somente consequencia dos ataques esporádicos de panico que a impedem de dirigir.
Propósito existe: sair ao ar livre pelo menos meia hora por dia, e mais dez minutos na sala de ginástica. Só isso basta pra manter o lindo corpinho aliado à alimentacao saudável.
(nem mesmo precisa de um plano para compensar os ataques de TPM- quando o consumo de uma barra inteira de chocolate se faz necessário - trilhas e montanhismos presentes no estilo da vida dao cabo do excesso de caloria).
Até hoje nao olhou o vídeo dos exercícios da máquina fantástica para aducao e cintura.

Senta na escada. O gato. Esse, prisioneiro de fato, deixa de miar à porta e vem sentar se ao colo de menina, que o acaricia: "Conforme-se meu gatinho, voce é meu companheirinho aqui. Ficaremos juntinhos aqui para sempre. Voce, porque foi escolhido para ser um pet limpinho, que nao conhece o mundo lá fora. E eu, bem, fico aqui porque já estou morta mesmo para o mundo".

O gato percebe a morbidez e se afasta, 
Menina volta a se lembrar das cólicas menstruais. Toma ou nao o Buscopam?  Afinal, sao dias de absoluto vazio interior. Nao sente nada. Sentir a cólica é melhor que esse vacum na alma.
Sobe lentamente as escadas. Ao entrar no quarto, é retida pela vista da porta larqa da sacada, na qual ela nunca nem pisou.
A rua está tao parada. O tempo nublado,  mas sem valor, nem feio nem bonito. Nenhum crianca, nenhum vizinho. Nem  um pássaro. Um vazio absoluto lá fora. Tanto quanto dentro dela. 
Namorado notou que há dias nao tem ninguém na casa da vizinha. Provavelmente o filho doente dela teve outro ataque e está hospitalizado.
Menina está menstruada. Nao está, portanto, grávida. Mas triste, enquanto namorado parece aliviado. Tem medo de ter filho doente. Teme ser responsável por gerar alguem no mundo para sofrer na provável terceira guerra mundial que se anuncia.
(Ah! Essa crise de refuigiados... Essa venda infinita de armas dos americanos e russos e europeus para o oriente médio. A necessidade de controle das reservas de petróleo.)
Essa vida sem sentido algum onde nem exerce seu direito garantidissimo de ir e vir. Às vezes, menina só pensa em ir embora para a terra do nunca. Deixar de ser.  
Mas outro dia colega colocou como status do whatsapp " Quem disse que a sua vida é só sua".
E menina se apega à esperanca de que a maternidade pode lhe salvar. Que dando sua vida a uma linda criaturinha, a vida deixará de ser sua e ela  de uma vez por todas nao terá mais de deliberar sobre ser ou nao ser.

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