16/04/2017

Arroz de festa bichado

Nao só nao morreu, nem foi envenenada, como iniciou finalmente mais uma terapia.

Nao tem ninguém com quem conversar. Ninguém sabe de seus segredos mais recentes. Ninguém da família nem sabe que esse blog existe. Já até mandou link para irma, mas  foi solenemente ignorada. Povo lá nem conta de luz le. Nao tem mais contato com amigas, teria ainda amigas?
Mas, mesmo que lessem, ouviria o conselho de sempre: "vem embora, Fia, tá fazendo o que aí? Vem prá cá, que viver no Brasil é uma merda, mas é bom. Aqui a gente se ajuda, vem logo! Sentimos tanta saudades suas!". "Verdade, tia; outro dia, a Vó pediu um capuccino lá no shopping e comecou a chorar do nada, de saudades suas".

A terapeuta atende numa linda fazenda cheia de horta organica. Menina foi mais cedo porque sabia que o lugar era lindo. Cheguei lá adiantada e a terapeuta colhia cenourinhas tao laranjadinhas. 
Toda descabelada, cabelo sem corte, tem uma risada enorme. Simpatia recíproca na hora.
Embora tenha ouvido só alguns dos traumas, em 30 anos de carreira, ela nunca pegou um caso complicado como o de Menina. Sao tantos assuntos sem resolver, que nem sabe por onde vao comecar:
- a família desfuncional: a mae histérica e desequilibrada (cujo pai, alcólatra, espancou até a morte a mae, parida de cinco dias do irmao), a norte trágica do irmao, o pai ausente; etc
-o padastro pedófilo e o abuso sexual;
-os relacionamentos caóticos, 
- O aborto e o arrependimento do mesmo,
- a gravidez ectópica e nova perda;
-o tédio desse relacionamento sem paixao;
- o estupro sofrido dentro do hospital psiquiatrico, e a inércia da polícia que quis abafar o caso a todo custo;
- o desemprego e a desqualificacao profissional,
-a inércia doentia no ócio;
-a tsunami que foi o fim do primeiro casamento;
-a dependencia emocional;
-a falta de sexo nesse casamento, a supeita de homosexualidade do marido;

Na cafeteria, a mae pede um cappuccino do jeitinho que Menina costumava tomar. Lembra-se das tardes agradáveis de  infinitas buscas pelo melhor cappuccino da cidade. Toma um gole e chora de saudades. Tao bom esse tempo que Menina voltara. Ela era tao boa para nós, né, minha neta.
A psicologa diz que Menina tem boas ferramentas para a dor, mas que tem uma chama ainda nos olhos da paciente: voce tem mais ferramentas ainda para a vida, Menina. Voce é forte, iluminada é cheia de power!
- Pois é! Quando eu ía bem, eu era outra pessoa. Diziam de mim que sou o arroz de festa.
Agora, eu fico dias ee dias na cama. Voltei a estudar, mas semana passada nem fui. Fiquei só na cama planejando o suicídio.
- Mas, para eu te atender, voce tem de assinar um contrato de que nao vai se matar até a próxma consulta. Sempre assim, a gente combina de que voce nao vai se matar pelo menos até a próxima consulta, certo? 
-Sim, tem problema nao, porque meus atuais planos de suicidio sao para o verao: farei um cruzeiro e no meio da noite me jogarei ao mar.
- Água do mar é horrível de beber, já experimentou? Coisa mais besta.

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