Três meses e ninguém sabe.
Emagreceu um bocado, de tanto vomitar e da falta de apetite por conta da náusea infinita.
Por essas bandas, não se costuma contar a ninguém antes das doze semanas. Mas Menina não vai contar a ninguém.
Não tem amigas de fato com quem verdadeiramente compartilhar a novidade aqui na Dorf.
Outro dia, encontrou a conhecida L. Nada notou. Ligou para K diversas vezes e, mesmo sem querer, choramingou a fissura por certas comidas: o bom caldo de frango da mãe. Até achou uma receita em vídeo no you tube - mas não tem mandioca nem milho fresco. Depois, ligou de novo e, mais uma vez, inadvertidamente comentou da saudade de salgado e comida de rua. Das frutas do quintal, ai que lindas goiabas. As mangas e caja-mangas ganhadas em baciadas dos vizinhos. As romäs perdendo no pé. O suco de mamão com acerola, as pitanguinhas lindas do quintal.
Nem L nem K perceberam nada. No trabalho, ainda que vá trabalhar mais morta que viva, sendo o trabalho leve, dá conta do recado e ninguém reparou nada.
Menina acha engraçado, porque ela sempre soube das amigas grávidas. Por duas vezes, soube antes mesmo da emprenhadas. Lembra da W:
-W, você está grávida?
-To não, Menina, tá louca? E fala baixo que a minha mãe acha que sou virgem.
Semanas depois W fez um exame de farmácia e deu positivo. Foi ao laboratório do bairro onde o exame de sangue dera negativo. Seguiu-se outro de farmácia, positivo...
W comentou com menina: "Nossa, naquela época nem imaginava e como você soube?
As grávidas tem um que na face. É bater o olhos e reconhecer.
Agora mesmo, menina se olha no espelho. Anda muito alienada de si mesma. Olha para si, mas está fora; é como se olhasse uma terceira pessoa. E ali, na face refletida, está aquela expressão tao clara de grávida.
Mas ninguém vê. Nem a sogra, ninguém. Na faculdade, ora e meia tao cansada chega a cochilar. No trabalho, sobe escadas lentamente como se tivesse pernas pesadamente acorrentadas. Decidiu que não vai contar para ninguém até os nove meses.
Volta e meia ouve falar de jovens que só souberam estar grávidas na hora do parto inesperado. Menina não acredita nelas. Ainda que menina também só deu conta dessa e da interrompida gravidez já pra mais de mês. E por causa dos vômitos. Não fosse isso, todos esses desconfortos poderiam entrar na lista dos desconfortos da depressão cronica.
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