26/08/2014

O quarto de emburrar

Namorou cinco anos com um cabeludo barbudo gostoso de viver. Ele, hiper dependente químico, super alternativo. Mas  ela nunca nem mesmo experimentou da maconha que exalava pela casa o dia todo.
Ele era poeta, escritor, compositor, dançarino profissional, fisiculturista e ator. Entrara até num grupo de teatro com bons contatos. Como nada disso dava dinheiro, devido a dependencia química (ou porque  nunca pertencera ao sistema capitalista) nem terminara o ensino fundamental. Vivia da boa vontade financeira do pai, empresário rico que formara médicos três filhos e o quarto preferiu ser o engenheiro. Ah, o fumador  foi pai adolescente. A família pegou o menino e faz dele o que o pai recusou: formou se mais um médico. Estudou na universidade de  Brasília, mora, talvez, com o tio neurocirurgião, de quem recebe teto e o modelo: um dia se tornará como o tio, top de carreira, diplomas internacionais... Se sentirá mais filho desse que do outro? Quem sabe, um dia, o pai desapareça  e se possa esvainecer a vergonha que tem do tal. Ou nao. Os genes persistem, embora um fenotipo disfarcado, ainda que tenha se inserido direitinho no sistema, ama e adora o pai. Talvez se torne um especialista para entender porque o amado pai nascera e morrerá dependente quimico.
Entrementes, o filho nunca foi conhecido da menina. O mundo dos dois somente aos dois pertencia. Nunca a apresentara a qualquer parente. Nem quis conhecer a familia dela. Eram só os dois. E ele era a unica pessoa do mundo que a entendia. Embora ele sumisse às vezes- nunca soube porque, fora o primeiro na vida que a aceitava como era. Com os surtos emocionais. A montanha russa de emoções que sempre fora e sempre será.
Quando juntaram as escovas de dentes, ele teve uma idéia: criar o quarto do emburrar. Porque ninguém é obrigado a aguentar chatice alheia de gente surtada que tem aguras emotivas.
O quarto de emburrar teria tatame, e paredes acusticamente isoladas com cartelas de ovos vazias, e um bastao de  beisebol- para que se pudesse espancar paredes e coisas, tais como o saco de boxe. O isolamento acústico seria para que se pudesse gritar o quanto quisesse, sem incomodar os vizinhos e o outro.
O quarto também  teria servido para se fazer meditação. Nunca fora usado. Nunca passara de uma ideia. Naquela vida  a dois que durou poucas dezenas de dias. Se a menina descontente tivesse ficado contente com o projeto e o tivesse posto em pratica... Se a menina fosse naquele tempo quem é hoje, o quarto de emburrar teria existido. E teria se emburrado menos e seguido menos descontente na vida.

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