Namorou cinco anos com um cabeludo barbudo gostoso de viver. Ele, hiper dependente químico, super alternativo. Mas ela nunca nem mesmo experimentou da maconha que exalava pela casa o dia todo.
Ele era poeta, escritor, compositor, dançarino profissional, fisiculturista e ator. Entrara até num grupo de teatro com bons contatos. Como nada disso dava dinheiro, devido a dependencia química (ou porque nunca pertencera ao sistema capitalista) nem terminara o ensino fundamental. Vivia da boa vontade financeira do pai, empresário rico que formara médicos três filhos e o quarto preferiu ser o engenheiro. Ah, o fumador foi pai adolescente. A família pegou o menino e faz dele o que o pai recusou: formou se mais um médico. Estudou na universidade de Brasília, mora, talvez, com o tio neurocirurgião, de quem recebe teto e o modelo: um dia se tornará como o tio, top de carreira, diplomas internacionais... Se sentirá mais filho desse que do outro? Quem sabe, um dia, o pai desapareça e se possa esvainecer a vergonha que tem do tal. Ou nao. Os genes persistem, embora um fenotipo disfarcado, ainda que tenha se inserido direitinho no sistema, ama e adora o pai. Talvez se torne um especialista para entender porque o amado pai nascera e morrerá dependente quimico.
Entrementes, o filho nunca foi conhecido da menina. O mundo dos dois somente aos dois pertencia. Nunca a apresentara a qualquer parente. Nem quis conhecer a familia dela. Eram só os dois. E ele era a unica pessoa do mundo que a entendia. Embora ele sumisse às vezes- nunca soube porque, fora o primeiro na vida que a aceitava como era. Com os surtos emocionais. A montanha russa de emoções que sempre fora e sempre será.
Quando juntaram as escovas de dentes, ele teve uma idéia: criar o quarto do emburrar. Porque ninguém é obrigado a aguentar chatice alheia de gente surtada que tem aguras emotivas.
O quarto de emburrar teria tatame, e paredes acusticamente isoladas com cartelas de ovos vazias, e um bastao de beisebol- para que se pudesse espancar paredes e coisas, tais como o saco de boxe. O isolamento acústico seria para que se pudesse gritar o quanto quisesse, sem incomodar os vizinhos e o outro.
O quarto também teria servido para se fazer meditação. Nunca fora usado. Nunca passara de uma ideia. Naquela vida a dois que durou poucas dezenas de dias. Se a menina descontente tivesse ficado contente com o projeto e o tivesse posto em pratica... Se a menina fosse naquele tempo quem é hoje, o quarto de emburrar teria existido. E teria se emburrado menos e seguido menos descontente na vida.
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