25/08/2014

A vidente

Aos treze anos, a menina fora com a amiga e colega de escola à uma vidente. Era uma vidente tão verdadeira que não cobrava nada, nem mesmo aceitava qualquer agrado. Se muito quisessem, poderiam doar alimentos ao asilo mantido pelo centro espírita do bairro.
Nessa idade puberil, a vidente sabia de antemão o que as garotas queriam: desvender o futuro amoroso. Já naquela época, a menina desconte perdera a fé ou qualquer religião- se é que algum dia a tivesse, embora a escola primária cardecista com doutrinamento semanal.
Enfim, embora descrente, ali se encontrava a menina frente à sábia mulher. Era um fim de tarde de uma terça feira de agosto. Metade do ano já se passara e André, o menino lindo de cabelos louros muitos longos, ainda não tinha notado a existencia da menina magrela, anêmica devido à desnutrição inerente à pobreza que caracterizara a infância da pobre criatura. Coisa perfeita aquele menino louro dos cabelos longos esvoaçantes. E tocava. E andava de skate. A cara da rebeldia.  A vidente não dissera, mas esse tipo  cabelo nada convencional virou pra sempre tipo da garota. A vidente também nada dissera se ele um dia teria olhos para a menina.
Ele não teve. Nunca. Embora um dia, alguns anos depois, malhada, cabelo na química bem tratado, a menina  se achara digna de passar na porta da casa dele e dizer um oi. Quem sabe agora. Mas não.
O que a vidente dissera, de outro modo, era o seguinte: haveriam três.
O primeiro teria o cabelo muito preto. A menina se perderia de amores. Acharia que era esse. Mas não era.
Daí haveria um segundo, bem branquelo. Tudo muito sereno. Ele acharia que ela era essa. Mas não, ainda não.
Daí, haveria um terceiro. Era esse.
- Um de cabelo louro, dona?
- Não, não vejo cabelo louro algum.
- De que cor então?
- Não dá para ver, só sei que não é o louro.
Descontente, menina segue pra casa. Bem sabia que Deus não existia. Quando é que um menino lindo desse iria ter olhos para essa menina feia e mirrada, tão magra que se venta forte tem de se segurar no poste para não ser levada junto com as folhas.

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