Pai da menina trabalhou quarenta anos naquela mega indústria com 7000 funcionários e nunca fez uma amizade lá. Pelo menos, nunca houve um colega de trabalho que viesse à casa comer, beber, visitar. Nem mesmo às festas de natal no clube da firma a menina nunca foi levada pelo pai - e nao era porque não morava com ele: as meias-irmãs também nunca tinham participado de nada.
Mais tarde, menina foi trabalhar na mesma firma e fez muitas amizades lá. Iam para a balada em grupos de 20. Para comer no dia a dia, seu grupo ocupava duas a tres mesas do restaurante perto da sede. Fim de mês, contas vazias, turma se encontrava na casa de um para beberem e jogarem War até de madrugada.
Mais tarde, menina foi trabalhar na mesma firma e fez muitas amizades lá. Iam para a balada em grupos de 20. Para comer no dia a dia, seu grupo ocupava duas a tres mesas do restaurante perto da sede. Fim de mês, contas vazias, turma se encontrava na casa de um para beberem e jogarem War até de madrugada.
Certa vez, entretanto, foi levada pelo pai à festa de natal da firma. Ele já era aposentado há mais de década (aposentou jovem por tempo de servico, com medo da reforma da previdencia). Foi naqueles dias em que viajara a procura do irmao, cujo contato perdera desde a adolescencia. Pai voltara das Minas Gerais, onde somente encontrara a notícia de que o único irmão já estava morto. Deixara dois filhos já adultos os quais não se interessaram pelo tio desconhecido. Limitaram-se a lhe passar o contato de um primo que mora em São Paulo. Esse veio a Goiás ver as filhas do primo. Tomou na casa do pai uma cerveja barata e cochicou com a menina da conhecida avareza.
Meses depois, o pai retribuiu a visita; voltou dizendo que ridiqueza se ver é por lá: faziam comida em panelinhas pequenas, tudo minguado, enquanto na casa do pai de menina, madrasta fazia panelões de arroz, feijão, macarrão, batata, carne, e uma travessa enorme de salada. Madrasta de menina acha que lá se come pequenas porções divididas em entrada, prato principal e tal, pois pai comentou que tudo é chique, tem até copeira para servir o café e repor a mesa.
(Na casa do pai, ninguém, exceto menina, tinha fome de manhã. A única que comia pão antes de ir à escola. E de tarde também. Mas pai, madrasta e irmãs só comiam almoço e janta, porções enormes. A Li aos 11 anos era tão magrela, como conseguia comer três pratadas de macarrão? Menina nunca entendeu. Todo mundo dizia que menina comia como passarinho. Até hoje.)
Naquela época, assim do nada, pai avisou às filhas para se arrumarem que iam sair. E foram à festa de Natal da firma. E que festa bacana. Como assim, tantos anos e nunca antes foram? Pai de menina é, como seu novo namorado, alheio às necessidades do ser humano de ter amizades. Toda vez que as via atender o telefone e ficar lá em pé ao lado da televisão, observadas por todos que assistiam ao jornal, pai comentava incomodado para encerrar o bate papo adolescente: "...Mas essa caixinha de fofoca rende".
Caixinha de fofoca. Mãe da menina também não faz amizade. Mora há trinta anos na mesma casa, na mesma rua e nunca fez amizade com as vizinhas. Dizia que se esquivava para se manter livre das fofocas. Menina costumava achar que era porque ela era mãe solteira e isso era mal visto. Na infância, todas as outras crianças moravam com pai e mãe. Menina era a única que tinha meias-irmãs, que moravam noutra casa com o pai e a madrasta.
Naqueles idos das décadas de 1980 e 1990, a virgindade, ser mãe sem ser casada, o divórcio, tudo ainda era tabu.
Mas hoje menina sabe que a ela não faz amizade porque tem um temperamento intratável.
Mas hoje menina sabe que a ela não faz amizade porque tem um temperamento intratável.
E ela, garotinha que sempre amou gente, sempre fez amizades com facilidades, faz como os pais agora, não tem amigas. A caixinha de fofoca não rende mais. Quase ninguém tem mais telefone fixo. Quem tem nem usa. Aqui, somente a sogra liga no fixo. Caixinha de fofoca da menina perdeu a função. Graças ao whatsapp, consegue mandar notícias diárias para a mãe e as irmãs. Mas só.
Amiga que casou e mudou também não tem amigas e disse que não se faz amizade depois dos trinta. Ex colega de trabalho comentou sem perceber que realmente não cabe convidar amigas solteiras sem filhos para ir conviver na casa dela. Menina sente falta de ter amigas. De fazer pão de queijo e ter visitas. De passar a tarde na cafeteria com a Marta. Passar tardes chuvosas na casa da Mei filosofando. De sua amada amiga M, com quem bobamente sente discutiu no face.
Como já não se tem mais com quem compartilhar as quitandas, menina desandou na cozinha: conhecida por seus bolos perfeitos, ontem fez um bolo de cenoura que não cozinhou no meio. Pode ser por causa do forno, que outro dia estava estragado. Pode ser. Menina faz bolo desde que tinha sete anos e foi a primeira vez que um bolo seu vai para o lixo. Menina ensinou a sobrinha fazer bolos perfeitos. Menina queria ensinar à linda pequena como fazer diferente. Menina faz como seus pais.
O pai dela teve um problema sério do coração, gastou muito e se recuperou, só não vai sarar da angústia de que muitos de seus espalhados filhos e filha sentiram comoção zero da doença dele e não foram visitá-lo. Mãe de menina chora dias inteiros de solidão. Entope-se remédios e dorme sem parar a fim de evitar a solidão.. Que a sobrinha possa fazer diferente.
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