29/03/2016

Pela cozinha planejada

A jovem, loura, bonita e muito bem qualificada e bem sucedida secretária de estado  (do pequeno país de primeiríssimo mundo) anda preocupada com o crescente número de mulheres que estao abandonando a forca de trabalho, que contribuiu para a previdencia, para se tornarem donas de casa. Full time mum, descrevem de modo chique as bloqueiras que assim se ocupam.
Menina, que no momento se ocupa unicamente de manter a casa em ordem e o namorado muito bem alimentado, faz o mesmo.  Se engravidar desse namorado (nao estao usando nenhum método contraceptivo), vao se casar e ela vai ficar em casa cuidando da prole em tempo integral. Namorado já falou que nao quer que ela trabalhe, sem entrar em detalhes.
Mas menina sabe que ele está adorando chegar em casa e a comida maravilhosa está finalizada no perfeito momento dele se sentar à mesa. E menina gosta muito de elaborar seus pratos com ingredientes altamente frescos e temperos do mundo inteiro na cozinha lindamente planejada e equipada. Todos os amigos dele já estao ciente de como ela cozinha bem... E menina já avisou que quando trabalha fora nao cozinha: almoca em restaurante e de noite come iogurte natural com frutas e mel ou sanduiche de hummus e pao integral, já que dupla e tripla jornada é coisa para mulheres maravilhas como Romina, que passa roupa até as duas da manha e nao tem tempo para jogar conversa fora cinco minutos ao telefone....
Claro que uma pulga atrás da orelha vez ou outra se faz cocar. No festival de vinho ontem, menina conheceu mais um amigo do bem. Separou se depois de vinte anos, num relacionamento que parece ter sido bom:  contou com vivacidade de muitas das suas viagens, feitas em companhia da ex. Em vinte anos, um casal constrói muita coisa juntos. Na separacao do Jonas, ele ficou com a casa.
 "Ficou com a casa todinha, e a ex mulher? A casa era só dele porque ele a recebeu de heranca dos pais?" Quis saber a menina curiosa.
"Nao, a casa é só dele porque  ele era o que trabalhava, tudo que tinha lá foi ele que pagou por / comprou", respondeu o par. Era noite,  haviam provado diversos vinhos. Estavam naquela exata estradinha linda dentro de uma mata. A noite, esse caminho ornado pelo túnel árboreo consegue ser ainda mais lindo. 
Menina pensou várias coisas: que trabalho feito dentro de casa é trabalho e portanto deve ser remunerado. E que, quando uma mulher fica em casa, é um acordo tácito dos dois. Provavelmente, o homem nao sabe cozinhar, nao quer limpar, nao quer ajudar com as criancas e adora essa divisao altmodische de homem chefe de família, mulher rainha do lar.
E nesse pequeno país dos sonhos, por lei, o trabalho de dona de casa deve ser remunerado pelo marido: 40% do que sobra do salário, depois de pagas as contas de águas, luz, gás, seguros, hipoteca, supermercados, é por lei o pagamento que o marido deve fazer pelo servico de dona de casa. 
Tais pensamentos circularam aceleradamente pela mente da menina, mas nao disse nada. Suspirou e pensou na sogra e nas mulheres da geracao da sogra: nunca se divorciavam. Sem casa, sem profissao e velhas, como quer que fossem seus maridos, tais mulheres  nao  se separavam. Será que o sogro foi um bom marido? Será que esse namorado vai ser um bom pai e um bom marido? E se tiver de se separar de novo? Porque menina, quando descontente demais, sempre parte. Provavelmente sempre o fará. Daí menina concordou com a secretária de estado.
Mas, senhora secretária, escreve mentalmente a menina uma carta à administradora pública, para quem nao foi bem sucedida em ter uma carreira  brilhante e /ou ao menos muito bem remunerada, trabalhar fora pode ser bem frustrante. Ganhar o suficiente para pagar moradia, alimentacao e transporte carrega um sentimento de escravidao.
Menina é minimalista, contra o consumismo e sempre economiza independente de quanto ganha. Mas ter um emprego que se odeia, ter a permanente sensacao de que o dia a dia se resume a ganhar o pao, a sobreviver; sofrer estresse permanente pela pressao dos chefes, dos clientes, dos colegas de trabalho para no fim tudo somente resultar na sobrevivencia.
Sem contar que vida de mulher solteira é aquele drama: os homens que lhe alugam a casa cobram mais que de locatáriOs, mecanicos praticam extorsao endemica contra mulheres, etc. Sao tais condicoes, senhora ultra bem sucedida secretária, que fazem meninas descontentes encarnarem o papel de Stepford Wifes.

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