Sabe
da admirada característica de parecer mais nova. Algo muito
valorizado por todos, principalmente por ser mulher. Mas não que
seja bonita. Não, não é bonita.
Tem o
rosto cheio de cicatrizes. Rosto de menina que trabalhou na lavoura
de tomate daquela grande fábrica de ketchup, que tinha como garota
propaganda aquela famosa apresentadora loura de pernas muito
compridas e shortinhos muito curtos.
Tem
espinhas até hoje, com quase quarenta. E a cada espinha, um novo
pontinho preto seguido de poros abertos para sempre. Disputam espaço
com vulcões faciais.
Mais
tarde, trabalhou de agente de pesquisa e nunca tinha ouvido falar de
protetor solar. Ou, se ouvira, entrou por um ouvido e saiu por outro.
Coisas que não fazem parte da vida da pessoa, são filtradas. Se não
tivesse passado pelo filtro da ignorância, menina teria usado chapéu
ou boné mais protetor solar fator máximo. Ou não, o fator 30 teria
bastado: especialistas dizem que acima desse fator é somente
saturação. Não adianta colocar dez colheres de açúcar no café.
Depois de algumas, ele vai ficar com fundo de saturamento. Os fatores
a mais do FPS seriam perda de dinheiro e ilusão.
Um
dia, entrou correndo pelo quintal da amiga. Na véspera, a mãe dela
tinha colocado um novo arame farpado para estender roupas e o fio
rasgou a cara de menina em vários pedacinhos. Depois de anos, as
cicatrizes dos cortes ainda estão ali.
Além
de ter trabalhado ao sol, nadava tardes inteiras no córrego
bosteirinho da fazenda Caveirinhas.
Nessa
fazenda, morriam-se pessoas e coisas de modo curioso. Certa vez, caiu
um raio que partiu um enorme árvore em pedaços e matou três jovens
trabalhadores rurais que estavam a caminho de casa no fim do dia.
Desde esse dia, menina tem medo de raio.
Depois,
vieram as vacas mortas. O gado começou a morrer misteriosamente
naquela propriedade que delimitava o meio rural e a expansão urbana
na capital. Diziam que eram os espíritos das pessoas assassinadas a
mando do fazendeiro. No conflito da invasão das terras dele por uma
multidão desesperada de miseráveis que não tinham onde morar na
capital.
Maioria
dessas pessoas depois conseguiu um lote quando o governador regularizou a vila com finalidade de expurgo social. Fruto do extremo
exido rural no começo dos anos oitenta do século vinte, essa
população deveria manter a cara feia de famigerados longe do lindo
centro planejado e de seu passeio público no Lago das Rosas.
O
bairro já era um dos mais populosos da capital naquela época. Muita
gente passava fome. Na casa de menina não faltava arroz e feijao.
Tinha couve e mandioca no quintal.
Puxava-se água da cisterna no
braço, que dinheiro para uma bomba somente muitos anos depois. De
vez em quando, a mãe comprava um pintinho na feira e se ele comesse formiguinhas suficientes e fosse
esperto o bastante para não ser roubado, ele um dia viraria frango na panela, o que muito doía
na menina, que se apegava aos pintinhos como animais de criação.
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| fonte: google https://www.google.com.br/search?q=puxar+agua+no+sari&espv=2&biw=1366&bih=637&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj2-8-Q0_vMAhWGDJAKHUqYCJcQ_AUIBigB#imgrc=RGywknkWpnkqkM%3A |
Para
agravar o sofrimento da filha, ela matava a ave por estrangulamento,
pegava o bichinho pelo pescoço e o rodopiava no ar infinitas
vezes. Menina chorava de dó.
-
Sai, pra lá menina, se ficar com pena, a galinha não morre.
-
Tadinho, mãe!
-
Quero ver se vai ficar com dó na hora de comer.
E
menina esquecia. Porque carne era bom.
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
O povo, entrementes, inclusive a menina e seus irmãos, foi correndo lá com
carrinhos de pedreiros. Acotuvelavam-se e se empurravam na
tentativa de arrancar um narco daquela fartura para si. Aquela fartura que
não servia nem para urubus.
- Mas
mãe, a Dona Zefa falou que essa carne aí não presta, que tem um
treco aí na vaca.
- Eu
lavei com vinagre e bicabornato de sódio e marinei com bastante
limão a noite toda. Depois, fritei muito bem. Pode comer, se quiser.
O que
não mata, fortalece. Diz o ditado. Até hoje menina não sabe para
que jogaram criolina na carne. Tantos anos depois, ainda não sabe.
-
Mãe, para que jogaram criolina naquela carne?
-
Você está se lembrando disso para que, menina?
-
Porque eu sempre me lembro, mãe. Lembro-me de que comemos uma carne imprópria até para os abutres.
Até
hoje menina não sabe para que serve a criolina. Nem vai ao Google
descobrir. Pode ser que servia para evitar a decomposição. Estará
ainda hoje atuando em seu corpinho, agindo como mais um de seus
anti-idade?

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