27/05/2016

A criolina

Sabe da admirada característica de parecer mais nova. Algo muito valorizado por todos, principalmente por ser mulher. Mas não que seja bonita. Não, não é bonita.
Tem o rosto cheio de cicatrizes. Rosto de menina que trabalhou na lavoura de tomate daquela grande fábrica de ketchup, que tinha como garota propaganda aquela famosa apresentadora loura de pernas muito compridas e shortinhos muito curtos.
Tem espinhas até hoje, com quase quarenta. E a cada espinha, um novo pontinho preto seguido de poros abertos para sempre. Disputam espaço com vulcões faciais.
Mais tarde, trabalhou de agente de pesquisa e nunca tinha ouvido falar de protetor solar. Ou, se ouvira, entrou por um ouvido e saiu por outro. Coisas que não fazem parte da vida da pessoa, são filtradas. Se não tivesse passado pelo filtro da ignorância, menina teria usado chapéu ou boné mais protetor solar fator máximo. Ou não, o fator 30 teria bastado: especialistas dizem que acima desse fator é somente saturação. Não adianta colocar dez colheres de açúcar no café. Depois de algumas, ele vai ficar com fundo de saturamento. Os fatores a mais do FPS seriam perda de dinheiro e ilusão.
Um dia, entrou correndo pelo quintal da amiga. Na véspera, a mãe dela tinha colocado um novo arame farpado para estender roupas e o fio rasgou a cara de menina em vários pedacinhos. Depois de anos, as cicatrizes dos cortes ainda estão ali.
Além de ter trabalhado ao sol, nadava tardes inteiras no córrego bosteirinho da fazenda Caveirinhas.
Nessa fazenda, morriam-se pessoas e coisas de modo curioso. Certa vez, caiu um raio que partiu um enorme árvore em pedaços e matou três jovens trabalhadores rurais que estavam a caminho de casa no fim do dia. Desde esse dia, menina tem medo de raio.
Depois, vieram as vacas mortas. O gado começou a morrer misteriosamente naquela propriedade que delimitava o meio rural e a expansão urbana na capital. Diziam que eram os espíritos das pessoas assassinadas a mando do fazendeiro. No conflito da invasão das terras dele por uma multidão desesperada de miseráveis que não tinham onde morar na capital.
Maioria dessas pessoas depois conseguiu um lote quando o governador regularizou a vila com finalidade de expurgo social. Fruto do extremo exido rural no começo dos anos oitenta do século vinte, essa população deveria manter a cara feia de famigerados longe do lindo centro planejado e de seu passeio público no Lago das Rosas.
O bairro já era um dos mais populosos da capital naquela época. Muita gente passava fome. Na casa de menina não faltava arroz e feijao. Tinha couve e mandioca no quintal.
fonte: google https://www.google.com.br/search?q=puxar+agua+no+sari&espv=2&biw=1366&bih=637&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj2-8-Q0_vMAhWGDJAKHUqYCJcQ_AUIBigB#imgrc=RGywknkWpnkqkM%3A
Puxava-se água da cisterna no braço, que dinheiro para uma bomba somente muitos anos depois. De vez em quando, a mãe comprava um pintinho na feira e se ele 
comesse formiguinhas suficientes e fosse esperto o bastante para não ser roubado, ele um dia viraria frango na panela, o que muito doía na menina, que se apegava aos pintinhos como animais de criação.
Para agravar o sofrimento da filha, ela matava a ave por estrangulamento, pegava o bichinho pelo pescoço e o rodopiava no ar infinitas vezes. Menina chorava de dó.
- Sai, pra lá menina, se ficar com pena, a galinha não morre.
- Tadinho, mãe!
- Quero ver se vai ficar com dó na hora de comer.
E menina esquecia. Porque carne era bom. 
Mas carne de vaca, nunca se tinha. A não ser daquela vez. Que os pobres desnutridos foram colher às pressas lá na fazenda. Patrão botou peões de plantão lá para avisar que jogaram criolina nas vacas mortas.
O povo, entrementes, inclusive a menina e seus irmãos, foi correndo lá com carrinhos de pedreiros.  Acotuvelavam-se e se empurravam na tentativa de arrancar um narco daquela fartura para si. Aquela fartura que não servia nem para urubus.
- Mas mãe, a Dona Zefa falou que essa carne aí não presta, que tem um treco aí na vaca.
- Eu lavei com vinagre e bicabornato de sódio e marinei com bastante limão a noite toda. Depois, fritei muito bem. Pode comer, se quiser.

O que não mata, fortalece. Diz o ditado. Até hoje menina não sabe para que jogaram criolina na carne. Tantos anos depois, ainda não sabe.
- Mãe, para que jogaram criolina naquela carne?
- Você está se lembrando disso para que, menina?
- Porque eu sempre me lembro, mãe. Lembro-me de que comemos uma carne imprópria até para os abutres.
Até hoje menina não sabe para que serve a criolina. Nem vai ao Google descobrir. Pode ser que servia para evitar a decomposição. Estará ainda hoje atuando em seu corpinho, agindo como mais um de seus anti-idade?




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