De súbito, grávida.
"Na Suiça, o aborto funciona assim: clínicas privadas oferecem o serviço. Basta ligar e marcar o horário.
Chegando lá, o médico faz uma ultrasonografia vaginal para verificar quantas semanas. Até 63 dias de gravidez, o aborto pode ser medicamentoso. Após o ultrassom, o médico explica o processo: ali mesmo na frente dele, toma-se o primeiro medicamento, Mifegyne, que alterará o nível de alguns hormonios da gravidez a níveis ótimos para acao do ciprostol (citotec).
(Caso a paciente seja do grupo sanguineo fator Rhesus negativo, vai tomar uma injecao para evitar a eristolastose fetal numa segunda gravidez)
Paciente vai para casa com 4 comprimidos do Ciprostol. 48 horas depois, ela tomará dois comprimidos de um remédio para dor (que nao pode ser de acao antiespasmódica, pois sao as contracoes do ultero que vao expelir o feto).
Uma hora depois de tomar o analgésico, inserem-se dois comprimidos do Citotec na vagina. Se, em até duas horas, nao comecar um sangramento como uma menstruacao forte, deve-se ingerir os dois outros comprimidos. Dentro de quatro horas, deve-se concretizar o aborto, um sangramento tipo menstruacao vai durar de uma a duas semanas. Em caso de qualquer imprevisto, deve-se ligar na clinica. Em caso de necessidade, a curetagem será feita pela clínica, sem custo extra.
Uma hora depois de tomar o analgésico, inserem-se dois comprimidos do Citotec na vagina. Se, em até duas horas, nao comecar um sangramento como uma menstruacao forte, deve-se ingerir os dois outros comprimidos. Dentro de quatro horas, deve-se concretizar o aborto, um sangramento tipo menstruacao vai durar de uma a duas semanas. Em caso de qualquer imprevisto, deve-se ligar na clinica. Em caso de necessidade, a curetagem será feita pela clínica, sem custo extra.
Se houver um sangramento absurdo (do tipo que encharque um absorvente max em uma hora, deve-se ir a um hospital ou procurar a clinica)."
Menina sempre foi a favor do aborto, mas só agora percebe que nunca tinha cogitado que chegaria o dia de fazer um. Afinal, sempre se preveniu. Além disso, aos 35, já se acreditava infértil: em anos anteriores, o relógio biológico apitou. Tentou engravidar seguindo tabelinha e pondo pernas para cima após a transa - sem sucesso. Acreditava-se portanto, infértil nessa altura da vida.
Menina, mais descontente do que nunca nessa vida, sai do consultório. Liga pelo whatsapp para a irma - quem sabe se o Zé mudou de idéia e ligou para dar notícias. Aproveita o sábado para fazer compras e algumas visitas que nao poderao ser feitas na semana seguinte. Mas, depois de ingerir o mifegyne não se pode mais desistir do aborto.
Domingo, nove horas. Toma o analgésico. Nao pensa em nada. Em uma hora, esse comprimido vai aliviar parcialmente a dor quando ela comecar.
Passadas duas horas, nada de sangramento. Toma os outros dois comprimidos. Vomita em seguida. Procura a folha com as orientacoes e o celular do médico. Terá ir à clínica buscar mais dois compridos. Comeca a se arrumar para sair de casa. No banho, um sangramento enorme escorre pelas pernas. Corre para o vaso. Fica lá meia hora. ( ao invés de ingerir,descobre depois que o melhor é colocar os comprimidos embaixo da língua e deixar dissolver).
Contracoes.
Vomitos.
Muito sangue.
Liga de novo para o médico.
Nao precisará mais dos outros dois comprimidos. Ficar de olho para confirmar se o saco aminiótico sai.
Contracoes. Sangue. Muito sangue. Dor na parte de baixo da barriga. Parecem cólicas.
Sempre teve cólicas horríveis. Sempre evita de tomar remédio. A menos que esteja no trabalho. A dor daquele emprego odioso já bastava.
Uma dor tipo cólica menstrual. Bolsa térmica ajuda. Deitar de brucos com travesseiro na barriga aumenta a cólica, mas favorece a evolucao das contracoes, e portanto, elimina mais rápido o sangue.
Deveria tomar mais um analgésico. Borderlines acompanham a dor como se nao fosse neles. Muitos se cortam. Menina descontente muitas vezes puxa o próprio cabelo, bate na própria cara, se belisca, se morde, até quase sangrar. Vive azulada. Nao toma o Parkemed. Sente a dor com extrema imparcialidade. Sempre foi de ficar acompanhando as cólicas.
Levanta-se e comeca a desempacotar as malas. Abaixa e levanta. Deve ser bom para acelerar os movimentos de expulsao do saco aminiótico.
Menina nao sente nada. Leu bastante: muitas sentem alívio pela interrupco de uma gravidez indesejada. Outras sentem culpas. Milhares de sites estúpidos fazem terrorismo psicológico com fotos de embrioes multilados. Menina nao sente nada. Absolutatmente nada. O vazio profundo é um sentimento recorrente nos Borderlines. Mais que isso, alienar-se da realidade é o mecanismo de sobrevivencia mais eficaz para os portadores desse transtorno mental. Porque os sentimentos e reacao impulsiva podem ser por demais insuportáveis.
Nao sente nada nesse momento sanguinolento. Mas antes, entre o analgésico e a insercao vaginal, pensou e sentiu muitas coisas. Quando Zé desligou o telefone dizendo que nao tem dinheiro nem para comer, menina pensou que ir surtar. Um surto único e final. Queria que ele tivesse aberto a porta para conversarem. Queria ter sabido da gravidez antes de pedir demissao. Capaz que ia ter essa crianca mesmo sozinha.
Mais meia hora sentada no vaso.
Aborto efeituado com sucesso. No meio de tanto sangue, essa coisinha rosa, diferente. Deve ser o feto dentro do saco aminiótico. Saiu inteiro e intacto. Pega-o, enxagua, fotografa e envia ao médico para confirmar. Nada de pedacinhos humanos dilacerados. Entao é isso. Volta para cama e nao pensa em nada.
Mas, outro dia, nao estava a ler um blog de uma borderline que decidiu ser mae e está tudo muito dramático? Poor woman. Poor Baby. E mais uma vez se arraigara ao Machado de Assis: " Nao tive filhos. Nao deixei a ninguém o legado de nossa miséria".
Menina, mais descontente do que nunca nessa vida, sai do consultório. Liga pelo whatsapp para a irma - quem sabe se o Zé mudou de idéia e ligou para dar notícias. Aproveita o sábado para fazer compras e algumas visitas que nao poderao ser feitas na semana seguinte. Mas, depois de ingerir o mifegyne não se pode mais desistir do aborto.
Domingo, nove horas. Toma o analgésico. Nao pensa em nada. Em uma hora, esse comprimido vai aliviar parcialmente a dor quando ela comecar.
Passadas duas horas, nada de sangramento. Toma os outros dois comprimidos. Vomita em seguida. Procura a folha com as orientacoes e o celular do médico. Terá ir à clínica buscar mais dois compridos. Comeca a se arrumar para sair de casa. No banho, um sangramento enorme escorre pelas pernas. Corre para o vaso. Fica lá meia hora. ( ao invés de ingerir,descobre depois que o melhor é colocar os comprimidos embaixo da língua e deixar dissolver).
Contracoes.
Vomitos.
Muito sangue.
Liga de novo para o médico.
Nao precisará mais dos outros dois comprimidos. Ficar de olho para confirmar se o saco aminiótico sai.
Contracoes. Sangue. Muito sangue. Dor na parte de baixo da barriga. Parecem cólicas.
Sempre teve cólicas horríveis. Sempre evita de tomar remédio. A menos que esteja no trabalho. A dor daquele emprego odioso já bastava.
Uma dor tipo cólica menstrual. Bolsa térmica ajuda. Deitar de brucos com travesseiro na barriga aumenta a cólica, mas favorece a evolucao das contracoes, e portanto, elimina mais rápido o sangue.
Deveria tomar mais um analgésico. Borderlines acompanham a dor como se nao fosse neles. Muitos se cortam. Menina descontente muitas vezes puxa o próprio cabelo, bate na própria cara, se belisca, se morde, até quase sangrar. Vive azulada. Nao toma o Parkemed. Sente a dor com extrema imparcialidade. Sempre foi de ficar acompanhando as cólicas.
Levanta-se e comeca a desempacotar as malas. Abaixa e levanta. Deve ser bom para acelerar os movimentos de expulsao do saco aminiótico.
Menina nao sente nada. Leu bastante: muitas sentem alívio pela interrupco de uma gravidez indesejada. Outras sentem culpas. Milhares de sites estúpidos fazem terrorismo psicológico com fotos de embrioes multilados. Menina nao sente nada. Absolutatmente nada. O vazio profundo é um sentimento recorrente nos Borderlines. Mais que isso, alienar-se da realidade é o mecanismo de sobrevivencia mais eficaz para os portadores desse transtorno mental. Porque os sentimentos e reacao impulsiva podem ser por demais insuportáveis.
Nao sente nada nesse momento sanguinolento. Mas antes, entre o analgésico e a insercao vaginal, pensou e sentiu muitas coisas. Quando Zé desligou o telefone dizendo que nao tem dinheiro nem para comer, menina pensou que ir surtar. Um surto único e final. Queria que ele tivesse aberto a porta para conversarem. Queria ter sabido da gravidez antes de pedir demissao. Capaz que ia ter essa crianca mesmo sozinha.
Mais meia hora sentada no vaso.
Aborto efeituado com sucesso. No meio de tanto sangue, essa coisinha rosa, diferente. Deve ser o feto dentro do saco aminiótico. Saiu inteiro e intacto. Pega-o, enxagua, fotografa e envia ao médico para confirmar. Nada de pedacinhos humanos dilacerados. Entao é isso. Volta para cama e nao pensa em nada.
Mas, outro dia, nao estava a ler um blog de uma borderline que decidiu ser mae e está tudo muito dramático? Poor woman. Poor Baby. E mais uma vez se arraigara ao Machado de Assis: " Nao tive filhos. Nao deixei a ninguém o legado de nossa miséria".




quero abortar
ResponderExcluirPreciso de ajuda
ResponderExcluirNão tenho estrutura pra ter um filho agora, quero aborta.
ResponderExcluircuidado com golpe , MARLON VALENCIA PASSOS É GOLPISTA ,não recebi pelo que paguei
ResponderExcluirQuero aborta
ResponderExcluir